O grupo «Isto não é uma aula: 150 anos de referências LGBT na literatura portuguesa», produzido em Lisboa pelas Causas Comuns, está na merecida pausa de verão. Gostava de sabê-lo «loucamente amado» como diz o outro, a descansar deste ano terrível, mas sei bem como para a maioria das pessoas as férias grandes há muito que são apenas um sonho longínquo de criança. Podem rever o que lemos em 2025 aqui (de janeiro a julho) e aqui (de setembro a dezembro). Como dá para perceber pela cronologia, no ano passado, passámos sete meses a ler de cerca de 125 anos, dedicando quatro meses ao século XXI. Ora, este ano, para equilibrar, para além de estarmos a seguir uma ordem inversa à cronológica, passámos sete meses a ler dos últimos 55 anos, ficando quase um século a que nos dedicarmos nos quatro meses que nos restam. As leituras que já nos serviram de mote para tanta conversa ficam hoje aqui, para quem seja útil (o que não houver em livrarias, encontram em alfarrabistas e bibliotecas; mãos à obra, camaradas). Se vos fizer confusão a lista estar de pernas para o ar, basta lerem de baixo para cima:
Sessão 1 | «O que é o crocodilo? O grande responsável.» (2021-2025)
, Duarte Drumond Braga (Os sininhos do inferno, 2021; Coisa de nada, 2025)
, Lolo Arziki (Águas para te beber amor, 2025)
SEIVA
Cuidado com o veneno da planta. É preciso saber deitar na floresta, repensar seu desejo de podar, algumas precisam estar inteiras e mudar no seu tempo, aceitar o tempo natural das coisas é deveras importante. Saber acolher, respeitar quem ainda não consegue decidir. Deitar na mata e não a tratar como se fosse indelicada, a gente dá amor mesmo quando não entende. Afinal não se trata de lógica. Quem não consegue respeitar a natureza jamais respeitará um corpo que compreende transmutação.
, João Lince («O rapaz o cisne» in QEQTPQE??, 2024)
, Rafa Jacinto (Fiz uma coisa má, 2021; A música está na minha cabeça, 2023; «[meu amor]» in Onde é que elas andam?, 2024; Európio, 2025)
réquiem
quantas de nós seremos esquecidas
recordadas no próximo século
por pessoas de século e meio
com estátuas dedicadas
estelas funerárias
com símbolos que ninguém entendequantas de nós seremos esquecidas
nas gorjetas que deixámos ao bolor do café
nas sombras que cessam ao zénite
quando a escuridão nos apresenta
os fantasmas do Séc.XIXquantas de nós seremos esquecidas
como um molho de chaves
deixado debaixo do tapeteao sair
, António Manso Preto (internationale homo-situationniste #1, 2025)
Sessão 2 | «O que é o elefante? O grande irresponsável.» (A casa e a rua do Novo Estado)
, Paulo Pascoal (XPR4xTX, 2024)
, André Murraças (50: Ouve, Orlando, 2018)
, Salomé Honório (Raposina, 2024)
30 anos.
(…)
tenho-me perguntado como sororidades implausíveis, espalhadas por de um mundo marcado por tantos modos de absoluta crueldade e perda impossível, se têm saído. que tipos de mímicas ásperas por aí assobiam; que ortografias de ternura e de raiva fazem por intersectar; que camadas de carnuda poesia os seus arquivos de não-eu potenciam, ainda; de que modo as suas nódoas negras são beijadas ao fim do dia; que flores ou estrelas ou flautas rodeiam as suas cabeças pesadas; que desejos são soprados pelo espaço entre-corpos; de que modo o seu cabelo é repartido contra almofada ou encostado à janela. que tectónicas e tecnologias do chão, e que mares, e que estações, têm vindo a inventar pela comunidade.
sei que sobrevivemos, mas não todas. e o que diz isto sobre os contornos de nós, que ficamos, que não que a longitude entre vida e morte é quer sucinta e instantânea, quer um modo tremendamente prolongado de reengajamento e rememoração? que a melhor, e talvez a única belamente queer forma de luto, seja escolher o horizonte enquanto nexo de ainda mais variações; de trajetórias distintas que mutam o luto, dele fazendo algo mundano, resiliente, ruidoso, promissor, e comovente? que lição extrair, que não que a arquitetura a abolir é alheia ao corpo, que importa e é múltiplo, precioso e potente? que as ondas de não-sentido que persistem são surpreendidas e afrouxadas pelo facto de que fomos, nós somos, e nós seremos amadas mesmo quando sozinhas, e fluídas mesmo quando captadas?
as nossas hermenêuticas da suspeita têm armado as nossas histórias, estranhamente poligonais, com força e fúria e flexão; os nossos talentos e óticas e humores têm-nos reunido mesmo quando separadas, bem para lá de outra coisa que não a futuridade – um tempo mais-que-presente; uma imensa e intermitente superfície, plural e vasta, que conjuga mais e mais, e ainda mais conjugará.
os nossos corpos e famílias improváveis, a perplexidade das nossas vibrações loucas & meigas deixas é mais que suficiente, e mais do que o mundo reconhecerá.
(…)
, Andreia C. Faria (Clavicórdio, 2020)
CADERNO, CLAVICÓRDIO
1. (…)Tinha cinco anos e passeava com os meus pais pela cidade numa noite de São João. Um rapaz pedia esmola entre a multidão, sentado com as pernas estendidas, como se quisesse afastar-se o mais possível dos seus próprios pés, que eram duas pontas grossas e espiraladas, duras e escurecidas como os cornos de um bode. Um rapaz enraizado em bode, transplantado da sua natureza como as árvores da cidade, confinadas a um quadrado de terra, laborando em raiva até que rebentam pavimento e canalizações.
Quero dizer que há no ódio uma raiz alquímica, mais forte e genuína do que o amor. O ódio traz aquilo que em nós é real, urgente, irrefutável. Também assim os sonhos: vida a que não podemos furtar-nos, vida retorcida e arrancada à vida até que começa a falar, a florir.
*
Há um murmúrio que cresce do chão e caminha com as multidões. Vagueia como um princípio de tédio, como um animal na jaula, acompanhando o grupo numa expectativa mansa. (…)
É um murmúrio que vagueia por entre as nossas pernas, dá-nos pelos joelhos como certas brisas, como uma criança ou um cão, e é necessário um certo silêncio interior, distraído, obtido através do cansaço ou de uma alegria sem apego, para se dar por ele.Este murmúrio: manso em tempos de paz, cão afeito ao silvo, ronceiro como o mar no interior de um búzio. Mas imaginem-no em barcos sobrelotados, em estradas militarizadas, em terreiros replantados pelo fogo. Imaginem esta criança humilhada, em terror. Imaginem que o futuro dela e o vosso coincidem. Imaginem do que ela é capaz.
, Pedro Penim (Casa portuguesa, 2022)
Sessão 3 | «O que pode nascer deles dois? A flor.» (Gisberta Salce)
, Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa (O livro do meio, 2006)
, Armando Silva Carvalho (Auto do Branco de Neve ou Gino/Ginette, 2007)
, Alberto Pimenta (Indulgência plenária, 2007)
, Hilda de Paulo («Eu Gisberta» in Volta para tua terra: I, 2021; «Por que uma guerra foi declarada contra mim?» in Volta para tua terra: II, 2022)
, Rute Bianca (Quem?, 2025)
, Freda Paranhos («Irmã travesti» in Volta para tua terra: III, 2024)
Sessão 4 | «Quem era Soulier? Era uma criança.» (O corpo no fim do século XX)
, Eduardo Pitta (Sílaba a sílaba, 1974; Um cão de angústia progride, 1979; Olhos calcinados, 1984; Archote glaciar, 1988; Arbítrio, 1991; reed. Desobediência, 2011)
Antes de nós outros tentaram.
Muitos não sabem que viagem alguma
se repetirá. Toda a demanda é vã.
Aquele muro não está alipor acidente. Sequer a gosto de qualquer
feitor com inclinações pré-rafaelitas.
A manhã tinha ficado parecida com um pedaço
de vidro e era nítida a evidência de desastre.
, Fernando Luís Sampaio (Sólon, 1987; Escadas de incêndio, 2000; reed. Aprender a cantar na era do karaoke, 2018)
, Helga Moreira (Os dias todos assim, 1996; Desrazões, 2002; Tumulto, 2003; Agora que falamos de morrer, 2006; reed. A arte de perder, 2023)
Mudei de poiso, mudei de tudo,
mudei de um silêncio
para outrode tudo mudei.
Creio até que de género
para um qualquer incerto
mudei de tudo andei
de vida esbaforida
de permanência mudei
de coisa morta
em coisa vivae de poiso.
De batuta e harmónio.
A tempo me safei
de um grande enterro
e do velório.Mudei de poiso. Tudo mudei?
Pois nem.
, António Franco Alexandre (Quatro caprichos, 1999; Duende, 2002; reed. Poemas, 2021)
QUATRO CAPRICHOS
IVou pôr anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro da água.
Vou querer que me ame e abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos.______
DUENDE
51Cada dia és real como não eras,
e erras também, em outra fantasia;
o corpo que puseste não tem nada
da milagrosa carne em que te via.
Como gente banal é que te quero
no retrato inaugural da escola,
que as gerações futuras possam ter
por divertido talismã antigo.
Se te magoas, com saliva colo
o intervalo mental de que te queixas,
e sirvo vagos doces de canela
à lembrança que deixas nos sentidos;
ainda um dia terás o rosto humano,
que te possa beijar sem ser ferido.
, João Miguel Fernandes Jorge (Bellis Azorica, 1999; Invisíveis correntes, 2004; Termo de Óbidos, 2006; reed. Antologia dos poemas, 2019)
Sessão 5 | «Onde vivia? Num monte.» (Os marginais e a Revolução, parte 1)
, Maria Regina Louro e Miguel Serras Pereira (Novas bárbaras, 1979)
FEMININO E BARBÁRIE
I. «SOCIALISMO OU BARBÁRIE?»(…)
O Socialismo envelheceu, porque não é certo que, apesar de tudo, sempre tenha sido velho. Em qualquer caso, se já não quiser ser coveiro, resta-lhe trans-crescer em direcção a esta barbárie nova e que rejuvenesce. Barbárie que activa a decadência das figuras do destino. Que vai alastrando pelos corpos, gestos, inspirações e pensamentos dos descrentes das suas «carreiras», «sexos», «papéis», estados civis. Descrentes a um passo da dissidência, que só o não dão em maior número e mais decididamente por terror das polícias que vigiam a sua vontade de viver sem a obrigação de qualquer destino.
Mulheres que se descobrem mais profusamente femininas do que somente fêmeas. Jovens cujo único cuidado é não deixarem de o ser, não perderem a fluida indeterminação da sua condição, não se fixarem, conseguirem manter pelo menos sempre um dos pés fora da engrenagem. Homens, enfim, que de já «feitos» e anatomicamente «machos» se volvem mutantes, descobrindo a fortuna dessa metamorfose constante de si próprios que antes os inquietava nessa incompreensível maneira de ser própria das mulheres.
Porque a decadência das figuras do destino não é mais que o reverso negativo e subsidiário da descoberta permanente da viagem. E se queremos descobrir caminhos que não sejam os da reprodução imperialista, é preciso que o socialismo futuro nos não cegue à sua praticabilidade imediata, é preciso (é bom) que aceitemos a barbárie.
(…) [O] «sistema» cada vez consegue menos que cada um invista afectiva e afirmativamente o seu próprio destino, ame a sua missão pré-estabelecida, represente agradecido o papel que lhe foi fixado, se cinja sem ser à força à sua identidade burocrática ou gramatical, (…)
______
II. OUSAR DIFERIR, OUSAR VIVER
Até aqui, a barbárie tem sido sempre coisa dos outros, sua inferioridade e sobretudo sua inferiorização. Bárbaro é quem não fala grego, para os gregos; continente negro é a mulher, definida pela ausência de pénis, para Freud; não-ser a história, a criação e o devir, porque não podem ter número, para os filósofos do Estado e para a sabedoria das nações. Todas estas perspectivas têm em comum fazer assentar o ser ou razão (de ser) de quem as profere sobre o não ser do que seja outro, ainda que este outro seja interno e recalcado também em quem se define. A barbárie jamais foi caracterizada positivamente, vista ou pensada e dita por aquilo que é: o bárbaro foi sempre aquele que é de outro modo, aquele que não é como «eu».
Mas as novas bárbaras, ao contrário de tentarem continuar a esconder a sua diferença, ao contrário de tentarem fazer-se reconhecer como também helénicas, aceitam como glória o que lhes foi lançado como insulto ou humilhação. «Sim, somos bárbaras, não por incapacidade de falar grego, mas porque queremos ser e somos plurilingues»; «sim, somos femininas, não por sermos castradas, mas porque há desejos a que não renunciamos e que nenhum pénis em coito resume»; «sim, somos um continente negro, não por sermos aflição e treva, mas porque não somos cegas a esse ver do que é inúmero e que arrancastes dos vossos olhos, pequenos e grandes Édipos ressentidos e taciturnos».
Eis, em suma, motivos por que dizemos a nova barbárie no feminino. De resto, acrescente-se que não é uma imitação o que propomos, nem uma demonstração o que aqui subscrevemos. Se este livro transmite alguma coisa não é um modelo nem um património, resulta, quando muito, num convite à aventura, por meio de algumas figuras que, por elas próprias tão aventureiras quanto venturosas, talvez seja possível que alhures inspirem.
Há as aventuras e viagens que fazemos e a aventura de as contar, onde se repetem e metamorfoseiam ao mesmo tempo. Não queiramos substituir ou tirar lugar a umas pelas outras, mas tiremos partido, tomemos o partido da fruição de todas as diferenças.
, Natália Correia («Homossexualidade, mito e magna mater» in Jornal de Letras, Artes e Ideias, 11 de maio de 1982)
, Colectivo de Homossexuais Revolucionários («Como quem não quer a coisa» in Fenda (In) Finda, 1983)
, Guilherme de Melo (Ser homossexual em Portugal, 1983)
Sessão 6 | «Como se diz em português? Ladrilho.» (Os marginais e a Revolução, parte 2)
, Luiz Pacheco (O libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor, 1961, 1970; reed. Ser livre em português, 2026)
, Maria Gabriela Llansol (Depois de Os pregos na erva, 1973)
(…) Começa em 31 e vem até 72. Foi o prazo dado a uma certa burguesia decadente, bibliófila, com traços de aristocracia, salazarista e republicana, estável, matriarcal, respeitável e, essencialmente, de aparente, foi o prazo, pois, que lhe foi dado para se ver, sem se ter movido, num tecido social modificado. Podia, assim, continuar a escrever de flores e de naturezas mortas, com realismo ou sem ele. Podia ficar em estátua. Em menino ou em menina.
Mas não.
Antes morte da natureza (da concepção burguesa do seu mundo eterno), violentar dos sentidos de estátua, não inscrição de diferença dos sexos, pois que, em português, um deles é estátua de sentidos mortos. (…)
, Movimento de Acção Homossexual Revolucionária («Liberdade para as minorias sexuais» in Diário de Lisboa, 13 de maio de 1974)
, Galvão de Melo («Galvão de Melo está atento» in RTP, 27 de maio de 1974)
, Casimiro de Brito e Teresa Salema (nós, outros, 1979)
(…) Destruir o falocentrismo na origem. O esperma, outro sangue, tende a evadir-se do corpo. Aprender a retê-lo, como? Um golpe seco nos mecanismos genitais, a sexualização do homem em ritmo descêntrico, deixa-me pensar alto, a economia de uma tensão a que se recusa a queda brutal da ejaculação. Assim se troca o phallus pelo corpo inteiro, um sexo! Liquida-se o deus irrisório, desinveste-se o falso centro de um poder que acaba sempre no cansaço, castração transitória, morte. Transforma-se o falocentrismo em... polifalismo, vosso também. Outra coisa não temos feito nesta aprendizagem, o prazer transfigurado em aventura múltipla. Apenas a mulher, algumas mulheres a têm gozado. O feminino interioriza melhor as mensagens sensitivas no seu corpo orgasmático, aberto a todas as cores e ritmos, concentração deles todos no casulo quente, quantas vezes ao lado de um homem vazio, indisponível, sugado em febre e tutano pelos seus mitos. Quando o masculino souber aproveitar-se do bissexualismo! Que a vagina seja também um pénis activo e cheio de imaginação e o pénis uma vagina onde se retenham em círculo os líquidos do prazer, multiplicando-o... A grande doença do homem erótico tem sido a sua falsa necessidade de expulsar o prazer, de se reduzir a um músculo adormecido no regaço feminino, seio materno. No coitus reservatus o que se recusa é essa tragédia, aprende-se a diferi-la, soletra-se a imensa reserva do amor. A ejaculação deixa de ser um salto de dentro para fora mas uma circulação, irradiação interior, um trabalho intimo onde o corpo do próprio se descobre, excitando-se e excitando o corpo do Outro. A troca em dois sentidos do masculino e do feminino, côncavo-convexo, a vida igual à morte. E será com o próprio instrumento mítico da dominação do macho, o sexo erecto, que o homem poderá evitar a sua tendência para o vazio. O pénis, erecto ou não, será então uma boca que aspira plenamente os sucos femininos, o perfume da terra mulher, a sua força líquida, e não apenas um transmissor cego de violência metálica, mansa quando morta, ascética. O sexo masculino já não apenas espada na fenda mas cuna e fonte, água e fogo, arma e vaso comunicante onde se derramam e discentram múltiplas emoções. (…)
Sessão 7 | «Até onde vai a águia? Até ao fígado.» (As Três Marias)
, Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta (Novas Cartas Portuguesas, ou De como Maina Mendes pôs ambas as mãos sobre o corpo e deu um pontapé no cu dos outros legítimos superiores, 1972)
O CORPO
Ali estava o seu corpo adormecido, aninhado no seu descanso, tão quieto, tão presente na luz amarelada, definindo-se por seu peso e por aquele estar quieto, todo tomado de luz, sem contorno que separasse corpo e luz, os músculos lisos debaixo da pele, tão escorridos na presença quieta, quase diluídos, ninho de seu próprio descanso, prolongando os lençóis desfeitos e suas curvas frouxas de fadiga, e a cova morna do colchão, e a luz quieta e densa como pele amarela sobre a outra, enchendo o quarto até ao tecto e às paredes, absorvendo em si, como corpos amáveis naquele sono, o candeeiro e a mesa baixa e os livros e as roupas, todo o quarto feito camadas sucessivas de luz e substância variada rodeando o centro, núcleo de respirar muito brando, e a tudo se propagando esse único e muito brando movimento, a pele doirada estendendo-se um pouco, no peito alto, de curva possante e com os seus mamilos quase rosados, e as costas movendo-se também com a mesma unida e certa ondulação da água mansa, as costas bem talhadas, estreitando-se do largo dos ombros até à anca com a rectidão da pedra talhada, mas de braço a braço a curva bombeada, alta e suave, que a meio se cava bruscamente como o leito dum rio, e movendo-se ainda o osso da anca, delicado, anguloso, saliente agora de sua habitual discrição no corpo que repousa de lado e se debruça, leve, cavando um pouco a cintura, escondendo o ventre e a densa doçura dos pêlos mornos, e um pouco o sexo, alteando o redondo – no entanto severo, cinzelado – das duas nádegas estreitas, aparecendo depois o sexo entre as duas pernas que se abrem, uma estendida sobre a cama e a outra levemente flectida, esvaindo-se a coxa da anca alteada até à cama, onde o joelho pousa, e aí segue a perna tão abandonada no lençol que quase o fere com seu peso, e entre as coxas, renascendo da sombra do ventre escondido, e que se estende como savana cálida, que em si retém o amarelo da luz, na curva nascente das nádegas, nas coxas, nas pernas, entre as coxas o seu sexo, os dois pequenos pomos cuja firmeza se desenha na pele branda e a corola recolhida de seu pénis adormecido.
, Maria Isabel Barreno («A filha do mercador» in O círculo virtuoso, 1996)
, Maria Velho da Costa (Lúcialima, 1983)
, Maria Teresa Horta (Educação sentimental, 1976).
*
agenda
aberta,
A Livraria está aberta até sábado 8 de agosto, no horário do costume. Depois, entramos de férias. Regressamos dia 25 de agosto em horário reduzido. Voltamos ao horário completo a partir da terça-feira 8 de setembro.
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