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Livraria aberta · Jul 10, 2026

Moeda, motor e fundamento (parte um)

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Ricardo Braun · Livraria aberta

Metropolis, Fritz Lang, 1927.

1. Disseram-nos há uns dias que, à saída de um dos eventos do BABELL, que ocupou as «praças e ruas da cidade do Porto» no fim de junho, a pessoa que estava a moderar a conversa terá dito qualquer coisa como: acho mal a Livraria aberta não ter sido convidada a participar. Importa, por isso, esclarecer que: como todas as livrarias da cidade, a Livraria aberta foi contactada pela produção do BABELL: e decidiu, muito simplesmente, não se associar ao festival. Serve a carta de hoje para explicar porquê. Para quem ande mais distraído, ou não viva rodeado de Porto por todos os lados: o BABELL, que teve a sua primeira edição este ano, é um «evento cultural e literário», «[i]dealizado e produzido pela Fundação Livraria Lello (...) em coprodução com a Câmara Municipal do Porto». No dia 12 de dezembro do ano passado, recebemos um email a convocar-nos para uma reunião quatro dias depois, dia 16, reunião essa em que o projeto seria apresentado às livrarias. Nesse email, explicava-se já que os bilhetes para aceder aos eventos do BABELL seriam gratuitos, mas obrigariam à compra de um livro numa das livrarias e alfarrabistas da cidade: isto é, por cada livro comprado, as pessoas recebiam uma senha, um código, que podiam, depois, trocar por um bilhete. Não era possível obtê-los de outra forma. «Os ingressos foram compras de livros», escreve o escritor Rafael Gallo, num post de Instagram que ocupa vinte imagens, vinte caixas de texto. «Livros que poderiam ser comprados em qualquer livraria ou alfarrabista, não necessariamente na que organizou o evento. Livros que não tinham nem limite de valor; alguém poderia comprar um por 0,50€ em um alfarrabista e ver a Margaret Atwood da plateia». Ora, era óbvio para a organização que isso levaria milhares de pessoas às livrarias, e que, por isso, nenhuma iria recusar essa oportunidade: tanto que a conferência de imprensa em que o evento foi apresentado publicamente foi logo no dia seguinte, 17 de dezembro. Ou seja, as livrarias não foram bem convidadas a participar no BABELL: foram informadas de que iam, basicamente, servir de postos avançados. Seriam os intermediários entre a Lello e as pessoas da cidade: os clientes que cada livraria segurou ao longo de anos de trabalho. Não é como se isso não tivesse sido dito claramente: dias depois do fim do festival, Rui Couceiro, comissário do BABELL, escreveu um longo post em que agradece às cerca de 50 livrarias que «aderiram à rede e constituíram as bilheteiras do evento». (O itálico é meu.) E agradece aos livreiros, «por terem acreditado. Graças a essa confiança, levámos milhares de pessoas às livrarias e elas venderam dezenas de milhares de livros. Durante os últimos meses, alguns desses livreiros ligaram-me, exultantes, a dizer coisas como: só esta semana, já entraram uns cem clientes novos cá na loja!». «Muitos destes clientes estreantes em livrarias da cidade – e há-as absolutamente extraordinárias no Porto – tornar-se-ão clientes frequentes». Eu tenho algumas dúvidas em relação a isso, mas o Rui Couceiro tem a certeza. «O BABELL propunha-se ser uma grande campanha de difusão do livro e da leitura e conseguiu-o». Esqueceu-se de acrescentar a coisa mais importante: que o BABELL foi uma grande campanha de difusão do nome Livraria Lello: e que, durante meses, cerca de 50 livrarias da cidade tinham o nome da Lello colado na porta.

2. «Desde 1906», diz o site do BABELL, «a Livraria Lello acredita que o livro é uma tecnologia de liberdade. E, mesmo quando enfrentou crises, como em 2015, altura em que menos de 10% dos visitantes compravam livros, foi justamente o livro, com o modelo implementado pela Família Pedro Pinto, a salvar aquela casa centenária». Mas, então, que modelo é esse? Desde 2015, para entrar na Livraria Lello é preciso comprar um bilhete, que hoje em dia custa 15,95€. Antes, o valor do bilhete era dedutível na compra de qualquer livro: agora é-o só na compra de livros das Edições Livraria Lello, edições próprias de clássicos portugueses e estrangeiros. Desta forma, o dinheiro entra na Lello: e já não sai. «Por isso, se o livro pôde transformar o destino da Livraria, pode também ajudar a transformar o destino da cidade. BABELL nasce dessa matriz (...)». Vamos, então, por partes. Primeiro: sobre o BABELL enquanto força ressignificadora da cidade. Valter Hugo Mãe chamou-lhe um «magnífico evento literário que transforma o porto na cidade do livro». (As minúsculas são do autor.) Rafael Gallo chegou a dizer que, «se o BABELL continuar, será um desses festivais que redesenham a cidade no mapa da cultura global, como a FLIP redesenhou Parati, a FIL redesenhou Guadalajara etc». Vamos ter alguma calma: que a organização ainda nem fez o balanço desta edição, nem se sabe ainda se vai haver uma próxima. Em segundo lugar: é importante lembrar que, desde 2015, a Lello não é uma livraria. Ou então, se preferirem: a Lello é uma livraria, como o Museu Soares dos Reis também é uma livraria: na medida em que, no fim da visita, podemos passar pela caixa e trazer um livro. Aliás, o próprio gesto de comprar um livro depois de visitar a Lello, de trocar por um livro o valor da entrada, é, sobretudo, simbólico: como a ideia de que, para entrarem nos eventos do BABELL, as pessoas, além do bilhete, tinham de levar também um livro. Nada disso é sobre ler: mas, sim, sobre andar com livros na mão. Mais: a Lello não parece estar interessada em vender, nem em divulgar, os livros que por cá se editam: porque isso não faz sentido para o atual modelo de negócio: é deixar o dinheiro sair. E em terceiro lugar: posso estar enganado, mas a grande maioria das pessoas que visitam a Lello são turistas estrangeiros de passagem pelo Porto. É esse o seu público-alvo. É por isso também que, logo no primeiro dia do BABELL, a imprensa internacional deu a notícia de que, a partir de então, a Lello acolheria a Manifesto Library, uma «parceria entre a Livraria Lello e o Service95 Book Club», da cantora Dua Lipa, que «apresenta 100 títulos que convidam à reflexão, ao debate e à descoberta». Porquê ali? Porque «[h]á mais de um século que a Livraria Lello tem sido uma fonte de inspiração para radicais, escritores e leitores». Vou abster-me dizer alguma coisa sobre esta última frase. É claro que a Lello podia fazer exatamente a mesma coisa, «an archive of banned books», sobre os livros que foram, por exemplo, proibidos em Portugal durante o Estado Novo; em colaboração, por exemplo, com o Museu do Aljube; para alertar, por exemplo, para a ascensão da extrema-direita: só que nada disto parece, de facto, ser sobre aqueles títulos, nem sobre o livro enquanto «tecnologia de liberdade»: mas, sim, sobre chegar ao público da Dua Lipa, aos jovens, à imprensa internacional, a novos visitantes. Quando, no Instagram, alguém pergunta «How does a library inside a bookstore work, logistically? Do locals get borrowing privileges for the collection? Does the sale of books in this collection lead to copies being donated to public libraries?», tudo perguntas justíssimas, e uma ótima ideia no fim, a Lello responde «Thank you for your question! The Manifesto Library has been conceived not as a lending library, but as a space for reading, contemplation and conversation inside Livraria Lello. The idea is to invite visitors to spend time with these books: to browse them, sit down, read, reflect and discuss them in a setting specifically designed for this purpose ☺️». É-lhes tão distante a ideia de alguém entrar numa livraria, pegar num livro, folheá-lo, ler umas páginas, que é preciso chamar o arquiteto Siza: e pedir-lhe que desenhe uma sala que sirva só para isso, separada, no edifício ao lado.

3. No site do evento, pode ainda ler-se que o «BABELL traz à cidade e ao país escritores dos mais reconhecidos a nível mundial»: «[o] corpo central da programação é internacional, mas a alma é de cá». Há uns dias, no Público, saiu um artigo de opinião de Julieta Almeida Rodrigues, «escritora e investigadora», chamado «Carta de amor ao Festival BABELL do Porto». Não sei quem é a autora: sei (porque pesquisei) que tem um livro editado em Portugal, pela Minotauro, sei (porque ele o escreveu) que Rui Couceiro não a conhecia «até a encontrar no BABELL», e sei que o Público resolveu dar-lhe o espaço para publicar um texto com 1500 palavras. Sofrível, de uma ponta à outra. Começa assim: «Foi memorável. Foi mesmo memorável este primeiro Festival BABELL da Fundação Livraria Lello, no Porto. Gostei de tudo. Gostei do Rui Couceiro, o curador. É um tipo visionário: pela ideia, pelo arrojo, pelo que conseguiu levar a cabo. Pelo critério literário, de qualidade». Eu leio «arrojo», «qualidade», e ouço: autores famosos, vencedores do Nobel. «Pela valorização da diversidade». Sobre isto, especificamente, uma nota: porque, «[q]uestionado sobre o peso da representatividade e equilíbrio de género na programação (...), assim como sobre a falta de autores trans, Rui Couceiro esclarece que “o único critério para um evento desta natureza é o da qualidade literária”. “Convidámos os autores que nos pareceram os melhores dentro daqueles que estavam disponíveis, porque houve quem tivéssemos convidado e não estava disponível. É possível fazer este equilíbrio, mas o único critério que presidiu aos convites que fizemos foi o critério da qualidade literária e artística”». Voltando: às razões da autora. «E pelo Porto: pelo Douro, pela afabilidade das pessoas, pelos museus, pelos restaurantes». Pela alma. «Há aqui no Porto qualquer coisa diferente de Lisboa, a nossa capital», continua Julieta Almeida Rodrigues. Mais uma vez, o itálico é meu: «Em Lisboa inova-se a partir de fora, importa-se do estrangeiro aquilo que de melhor poderá lá haver. A preços astronómicos. No Porto inova-se a partir da tradição local, de uma cultura ancestral que se moderniza com trabalho e esforço». Depois de escrever isto, Julieta Almeida Rodrigues consegue listar, detalhadamente, os autores internacionais que pôde ver no BABELL: e não ver nisso nenhuma contradição. Ainda assim, e apesar de ter gostado de tudo, a autora faz alguns «reparos, pois ninguém é perfeito, nem mesmo um festival». O último dos reparos «diz respeito ao acesso ao festival», àquilo que, para Rafael Gallo, «deve ter dado muita dor de cabeça a quem tentou encontrar maneiras de depreciar o festival»: o coração da ideia, o apoio desinteressado da Lello às livrarias locais. Ora, Julieta Almeida Rodrigues acha que esse «processo poderia ser simplificado. (...) [C]omo eu queria ter a certeza do acesso a determinadas sessões, tive de comprar os bilhetes antes de chegar ao Porto. Ao que ouvi dizer, os bilhetes puderam ser comprados na Internet durante uma semana/dez dias». Ah, é verdade, ainda não vos tinha dito: no início, os códigos, os que eram depois trocados por bilhetes, só podiam ser obtidos nas livrarias da cidade, independentes ou não: mas, entre 11 e 18 de maio, foi possível obtê-los também através da Wook. «Mas quem sabia desta possibilidade? Se eu não tivesse um filho a viver no Porto, e que nos comprou os bilhetes, como é que eu teria feito? Sinceramente não sei. A solução é ter os bilhetes à venda na Internet logo que o festival é anunciado». Honestamente, tenho de concordar com ela: para quê implicar no BABELL as livrarias locais? Para quê complicar?

(Continua na próxima sexta-feira.)

Boa semana,
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