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Livraria aberta · Jul 31, 2026

décima sexta carta de 26

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Paulo Brás · Livraria aberta

Passei a semana a ler An Army of Lovers Cannot Fail, tradução inglesa de Anna Moschovakis, publicada este ano pela Fitzcarraldo, do original francês de 2024 Un désire démesuré d’amitié de Hélène Giannecchini. Como a autora explica no último capítulo homónimo, mas também neste vídeo feito para o instagram da editora, o título inglês vem de um slogan da Gay Liberation Front, adaptado do poema «Sappho’s Reply» de Rita Mae Brown (já que Hélène não o cita, deixo-o aqui: vem do livro The Hand that Cradles the Rock de 1971 e diz

SAPPHO’S REPLY

My voice rings down through thousands of years
To coil around your body and give you strength,
You who have wept in direct sunlight,
Who have hungered in invisible chains,
Tremble to the cadence of my legacy:
An army of lovers shall not fail.

). Já o título francês interessa-me mais porque a primeira vez que o ouvi foi há uns bons dezasseis anos, pela boca do Mário Cesariny no documentário Autografia (Miguel Gonçalves Mendes 2004). Se forem aqui e clicarem no minuto 44:50, ouvem-no declarar o seu amor «a um desmesurado desejo de amizade». E explicar, como Hélène no segundo capítulo homónimo, que aquela é uma expressão gravada no Homomonument, em Amesterdão, em homenagem às vítimas gays e lésbicas nos campos de concentração da Segunda Guerra, por sua vez adaptada de um verso do poema «To a Young Fisherman» de Jacob Israël de Haan. Tenho essa expressão na cabeça desde então, tinha 21 anos e precisava de razões poéticas para me deixar apaixonar. E este ano, agora, assim, isto: logo a seguir a uma conversa sobre amizades que tivemos com a Joana no carro, a regressar de um passeio de domingo. O livro de Hélène faz questão de especificar que o seu desejo é mesmo o de falar de amizade, e não dos pares «de amigos» que a história sempre vai elencando como forma de apagar as relações sexuais que foi conhecendo entre homens e entre mulheres. É que a piada do «eram amigos», explica, cria dois apagamentos. Não só o mais óbvio dos casais homossexuais, mas também o de todas as pessoas que foram tão só e incontornavelmente amigas de outras pessoas, independentemente da sua orientação sexual, e não viram esse seu papel reconhecido, nem no presente nem no futuro, nem pela família nem pelo Estado. Não que a palavra «amigo» seja simples ao ponto de todas as pessoas lhe saberem o sentido, há muitas formas de fazermos amizade (com ou sem proximidade física, com ou sem esperança de durar, com ou sem partilha de casa ou hábitos de vizinhança, com ou sem empregos ou aulas em comum, com ou sem gestos de cuidado na saúde, na doença e no luto, com ou sem a mesma idade e experiências, com ou sem animais de companhia ou outras amizades ou famílias envolvidas, com ou sem sexo, carinho e intimidade:

I ask my friends to describe each of their unique attachments using more-or-less empirical terms: beloveds, lovers, friends, booty calls, fuck buddies, sex friends or friends with benefits. Sex isn’t the only parameter: feelings and depth of commitment also seem to matter when we describe our relationships. And yet, though it’s been forty years since Ken Popert’s essay [«Friends (not lovers)», de 1980], we lack terms now as they did then:

Why don’t we have a word for non-monogamous lovers? Or for friends who make love? And for lovers who don’t? I think we don’t have those words because we haven’t yet developed the concepts which would lie behind them. We haven’t reached a consensus which would bring meaningful order to the infinite welter which gay relationships offer to the observer. The root of the difficulty is that our relationships fall outside of the reigning taxonomy of human relations, which is concerned exclusively with heterosexual couplings and the family.

For the author, homosexual investments invent categories that only find their way into language with effort. What should we call those exes with whom we remain connected so strongly while remaining platonic, what to say about the friend we’ll drink a beer with, then dance and end up having sex with, without doing any of it as a couple? It also seems to me that the passage from friend to lover is more elastic when freed from the heterosexual injunction to distinguish the two absolutely, relegating sex to the domain of romance and exclusivity. (…)

In the same way it’s unsatisfying to separate lover from friend, words like «friend», «girlfriend», «mate» don’t do much to describe what our experiences are actually like. I sometimes hear myself say «Andrea is my best friend, I mean not even a friend, we’re family» - but is that really the right word? How to describe this mix of proximity and shared history, this near-unconditional thing we’ve somehow managed to make, to choose, when we decide to link ourselves to people with whom we share no gene or heritage. We should acknowledge that sometimes the power of a friendship has its root in sex or romantic love; to admit nuance, try to name the inventions that can result. We need to share our experiences, Popert writes, or else we’ll remain alone and defeated. His theory is that fresh forms of connection are born from homosexual relations; an art of kinship, with potential to create whole new realities.

). An Army of Lovers… faz a cada capítulo diferentes aproximações ao tema, quer indo a memórias da autora, quer bebendo em referências bibliográficas, quer explorando histórias mais ou menos conhecidas de arquivos LGBT. É um livro apenas possível com a Livraria aberta. Não a nossa, que não a conhecemos, mas com a aberta que existe na sua cabeça (e nas livrarias e bibliotecas que frequenta): com muita leitura de muitas autorias que temos no nosso catálogo, com muita pesquisa em arquivos fotográficos e ativistas, com muita atenção às pessoas com que se cruzou nesses espaços. É uma obra de leitura simples e uma excelente porta de entrada a muitos dos temas, livros e autorias que nos têm ocupado nestes cinco anos: Barthes, Bersani, Bourdieu, Butler, Cixous, Copi, Dustan, FHAR, Goffman, González-Torres, Guibert, Halberstam, Haraway, hooks, Koltès, Lagarce, Schulmann, Sontag, Wittig, Wojnarowicz (algumas temos na estante, outras lemos nos grupos de leitura, outras apareceram nas nossas cartas). Parece escrito para nós, verdade seja dita. E foi certezamente. Imediatamente antes de pegar no livro, tinha acabado de entregar um texto sobre a livraria para uma revista, de como as referências que vamos partilhando nos têm ajudado a criar a rede necessária para nos sentirmos à vontade a conversar, a partir das ideias de outras pessoas. Quando a Mafalda recebeu o texto, falou-me de um autor que terá dito que Teoria Queer é Teoria Literária e, para mim, naquele momento, aquilo fez muito sentido. Estive a ler o livro de Hélène durante a semana, na mesa que improvisámos na livraria, enquanto não há exposição do lado esquerdo. Li-o ao lado do Ricardo, ele preparava a última sessão das versões da Fedra para o grupo de verão que terminou na passada terça-feira, e ao lado de Olive, escrevia o seu último trabalho do semestre para entregar até ao fim do mês. Como sempre faço com tudo o que leio e ouço, acabei por enviar fotos de páginas a algumas pessoas, a Vier, a bonneville, à Lou. Mandei também uma foto da mesa à Alice do grupo de Lisboa e ela respondeu no seu tom irónico «isso não é uma mesa, são dois cavaletes e uma tábua». Não lhe disse então, mas fez-me lembrar as aulas de Teoria da Literatura da professora Celina, que ia sempre com uma garrafa de água e uma palha e dizia que aquilo era o seu copo. Já nos estava a ensinar semiótica: se «copo» é o objeto que usamos para beber água, então todo e qualquer objeto por onde possamos beber água (a garrafa, a concha das mãos, a boca do amigo) é «copo», no momento do gesto.

A carta de hoje é para as nossas amizades, descansem bem este próximo mês e meio.

*

agenda
aberta,

A Livraria está aberta até sábado 8 de agosto, no horário do costume. Depois, entramos de férias. Regressamos dia 25 de agosto em horário reduzido. Voltamos ao horário completo a partir da terça-feira 8 de setembro.

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