Uma comédia boba que vi na televisão faz uns meses tinha uma ideia engraçada. Depois que as pessoas morriam, elas iam para uma espécie de feira, em que vendedores tentavam cooptá-las para suas eternidades, que eram como parques temáticos. Você (ou melhor, sua alma desencarnada) tinha que escolher uma eternidade e depois não poderia sair dela jamais.
Tinha uma eternidade-cassino, uma eternidade-praia, uma eternidade-vinho e assim por diante. Numa, você ficaria até o fim dos tempos jogando, na outra pegando sol e tomando banho de mar, na outra bebendo. A eternidade-cigarro era anunciada com o slogan “Ninguém morre de câncer duas vezes”. Uma pessoa fugiu de sua eternidade, uma falta gravíssima, e foi capturada enquanto gritava “Não aguento mais ver quadros! A eternidade-museu é uma porcaria”.
O filme não mantém a lógica plenamente. Uma opção é uma eternidade-Paris, o que viola a ideia de se resumir a uma única atividade. Afinal, em Paris dá para ir ao museu, tomar vinho, ir ao cinema, ir à ópera e ao teatro, comer em bons restaurantes, ir ao comércio, até mesmo pegar uma praia (quando eles fazem aquela imitação meio brega às margens do Sena).
Mas, descartando esta possibilidade e pensando apenas em termos de atividades únicas, creio que eu escolheria uma eternidade-biblioteca. Ninguém aguenta ler o tempo todo, claro, mas acredito que nada se compara à literatura em termos da variedade de experiências que pode nos fornecer. Não apenas temos acesso a uma multiplicidade de novas vidas como, graças à ausência de estímulos audiovisuais, usamos fortemente a imaginação e isso permite uma conexão mais forte com nossa própria experiência.
É triste pensar que esta capacidade maravilhosa que a evolução humana nos concedeu – mergulhar num livro – está sendo solapada pela rolagem infinita de telas. É como trocar um banquete feito por um chef talentoso, acompanhado por um bom tinto, por uma infinidade de pacotes de Elma Chips com Fanta laranja.
E, para mergulhar num livro, é necessário o livro.
Tenho um Kindle e às vezes opto por livros eletrônicos pela facilidade, mas não tenho dúvida que a leitura no papel é melhor, garante uma imersão mais completa, fixa mais o que está sendo lido, o que se comprova não só por minha experiência, mas também por vários estudos. Em se tratando de obras que uso no trabalho, é mais fácil operar com vários volumes abertos em cima da mesa do que ficar pulando de e-book em e-book.
E, além de tudo, não consigo não me incomodar com a ideia do Jeff Bezos espiando por trás do meu ombro, anotando meu ritmo de leitura, os trechos que grifo etc.
Embora o bom mesmo seja ter o livro físico, para ler, e um e-book ou PDF, para quando precisa procurar algum trecho.
Lembrei disso por causa da treta de agora, sobre ter ou não ter livros em casa. Confesso que não vi o que a Tamara Klink falou, embora tenha seguido o conselho dela: não comprei nem vou comprar seu livro. Vi apenas comentários, mas acho que deu para entender.
(Treta de agora? De ontem, logo quase jurássica. Mas perder o timing das tretas também é uma forma de libertação.)
Sou filho de escritores, sempre vivi cercado por uma biblioteca. Lembro de uma vez em que um parente foi na casa dos meus pais, olhou as paredes tomadas de prateleiras, virou-se para meu pai e falou: “Salim, você não sabe que livro é um péssimo investimento?”
Hoje, na minha casa, temos uma quantidade razoável, mas nada exagerado. Sabem aquela foto, com a qual muita gente se encanta, do Piaget já velhinho, no meio de montanha de volumes? Acho horrível. É coisa de acumulador, parece mais um transtorno mental do que qualquer outra coisa. Ou o sujeito que foi expulso do prédio em Nova Iorque porque havia risco de incêndio com a quantidade de livros que ele espalhava por todos os lugares, em todos os cômodos.
Aqui em casa, a regra é que não se pode extrapolar aquilo que as estantes comportam. Então, periodicamente é feita uma limpa – doamos ou vendemos no sebo algumas centenas de exemplares, para entrarem novos.
Isso não quer dizer que comungo com a ideia de que devemos parar de ter livros em casa. É ridículo pensar que eles são responsáveis pela crise ambiental. Vamos primeiro falar da mineração, da agropecuária, dos combustíveis fósseis, da obsolescência programada dos eletro-eletrônicos, dos jatinhos dos milionários. Num mundo em que, a cada segundo, centenas ou milhares de pessoas pedem ao Grok pra fazer uma imagem cafona e imbecil, drenando quantidades enormes de água e energia, culpar os livros me parece um tanto fora de propósito.
Num mundo ideal, teríamos bibliotecas públicas perto de cada um de nós, bem sortidas, que resolveriam boa parte das nossas necessidades. Infelizmente, no Brasil, não é assim. Até a biblioteca universitária à qual eu tenho acesso tem dificuldade de manter seu acervo atualizado, por falta de recursos; sofre com depredações dos usuários; e, além de tudo, passa em média um ou dois meses por ano fechada por greves de funcionários – greves legítimas, mas o incômodo para o leitor é o mesmo.
Mesmo nesse mundo das boas bibliotecas públicas, porém, cada um de nós teria seus livros preferidos, aqueles com que trabalha constantemente, aqueles que precisam ser grifados, aqueles que podemos querer rever a qualquer momento, aqueles que por qualquer estranho motivo gostamos de ter sempre perto de nós.
Sei que tive o que muitos chamariam de privilégio – o privilégio de ter passado toda a minha vida perto de muitos livros. Não gosto deste uso da palavra; não devemos chamar de privilégio aquilo que deveria ser um direito. Prefiro dizer que tive sorte. E essa sorte deveria ser estendida a todos.
Por livros nas casas de todos, isso sim.

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