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Amanhã não existe ainda · Aug 10, 2026

Contagem regressiva #8

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Luis Felipe Miguel · Amanhã não existe ainda

Toda semana, eu publico uma análise da conjuntura focada no cenário eleitoral: a contagem regressiva para 4 de outubro de 2026.

Em seu influente livro sobre a nova extrema- direita, Roger Eatwell e Matthew Goodwin a definem seus líderes como aqueles que “priorizam a cultura e os interesses da nação e prometem dar voz a pessoas que se sentem negligenciadas e mesmo desprezadas por elites distantes e amiúde corruptas”.

O foco dos autores está nos Estados Unidos e no Reino Unido, mas a pretensão é descrever o fenômeno de forma mais ampla. Bolsonaro é evocado como exemplo em vários momentos. O livro tem muitos méritos e vale a leitura, mas esta definição do que é chamado de “nacional-populismo” é problemática. Não na segunda parte, já que, de fato, uma oposição entre um povo virtuoso e uma elite degenerada é sempre mobilizada em seu discurso, ainda que esta elite seja curiosamente recortada de uma maneira que exclui os grão-burgueses.

Mas o nacionalismo da extrema-direita merece ser colocado em questão. Os autores parecem aceitar a forma como os próprios líderes extremistas enquadram o tema, com “nacionalismo” significando basicamente a recusa às instituições multilaterais e o repúdio à imigração. Mas, olhando da perspectiva da periferia capitalista, a discussão é bem mais complexa.

O caso brasileiro serve de exemplo e nele, em especial, o processo eleitoral em curso. É que, para nós, a ideia de nacionalismo tem duas faces. De um lado, o patriotismo raso, dos símbolos nacionais e do ufanismo à la conde Afonso Celso. Do outro lado, a questão da soberania nacional, que no nosso caso se afirma concretamente como a resistência ao imperialismo estadunidense.

Esta questão sempre esteve na ordem do dia, mesmo com a palavra “imperialismo” tendo se tornado demodée. Mas hoje assume uma premência maior. O tipo de pressão que Donald Trump se dispõe a fazer sobre as eleições brasileiras não tem nada de usual. Os movimentos das últimas semanas, que passam pela escalada verbal do governo de seu candidato a títere Javier Milei e culminam na absurda revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, são sinal suficiente.

Nem cabe discutir as justificativas de Trump para a imposição das tarifas ou para a agressão à embaixadora. São frágeis, fragilíssimas; mais do que isso, são indisfarçadamente frágeis. Trump não se preocupa em esconder que o propósito é a intimidação. Pelo contrário. É a posição de alguém que quer fazer uma demonstração de força para levar a uma rendição incondicional. não a uma negociação.

Em paralelo, há a questão das big techs. É imperativo regulá-las, tendo em vista não só a qualidade do processo eleitoral, mas nossa sanidade, como indivíduos e como sociedade. Trump se opõe ferozmente, porque estão em jogo tanto os lucros das empresas quanto a capacidade de controle de corações e mentes de todo o mundo.

E não se trata só de regulação, mas também de infraestrutura material. Hoje, por exemplo, toda a rede de cabos terrestres e submarinos, que conecta a internet no Brasil e do Brasil com o mundo, está em mãos de estrangeiros, sem nenhuma salvaguarda que garanta o controle pelo país em caso de necessidade.

A questão nacional ocupa espaço privilegiado no debate eleitoral deste ano. E é bom que seja assim.

Read the original on lfmiguel.substack.com

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