Estou totalmente mergulhada no universo de Jorge Drexler desde que saiu Taracá, seu novo álbum. Estamos falando do uruguaio mais brasileiro dos últimos tempos, um cara que sabe dialogar com a MPB e o samba na mesma proporção em que abraça o trap portorriquenho e a milonga argentina. Sempre nesse trânsito meio invisível entre geografias, como se os ritmos fossem menos fronteira e mais idioma compartilhado.
Nas não se engane - esta não é uma resenha de Taracá. Você encontrará algumas ótimas por aí, não tenho dúvidas. As análises te dirão sobre os arranjos, as letras, a produção e tudo mais que pode contribuir para vender (ou derrubar) um disco.
Desde que saiu, no entanto, me peguei querendo ir mais a fundo, investigando versos, parando pra ouvir uma ou outra letra com mais atenção, mesmo que durante o trabalho. Comecei a clicar nos nomes dos feats e descobrir outros artistas que ainda não tinham sido captados pelo algoritmo, a abrir os créditos, a sair em perfis que nem sabia que existiam.
Me peguei pensando o que é faz um trabalho de um uruguaio de outra geração bater tão forte aqui, neste coração brasileiro. A conexão mais óbvia é a versão de O que é, o que é? de Gonzaguinha, que Drexler adaptou para ¿Qué será que es?. Mas não é isso, ou pelo menos não só.
Quando vi, estava buscando mais sobre o candombe, ritmo uruguaio herdado de África, um patrimônio percussivo de potência maior (como tudo que vem do continente). Hoje, o ritmo nacional uruguaio por excelência. No início, gênero perseguido, proibido, criminalizado.
Parece familiar?
As ruedas de candombe, assim como as rodas de samba, desafiam lógicas. A valorização da cultura popular, a horizontalização do público com os músicos, a alegria estampada nos rostos - tudo muito, muito suspeito. Como bem lembra Drexler em uma das faixas de Taracá, essa mesma história perpassa outros tantos ritmos - a zarabanda, na Espanha; o chuchumbé, no México; o tango, na Argentina. Mas também o samba e o chorinho, este último o primeiro ritmo urbano brasileiro.
Hoje, o choro é abraçado por uma nova geração, tem defensores do calibre de Hamilton de Holanda, é estudado na academia, tem festivais e casas prestigiadas. Dia 23 desse mês celebra seu dia nacional, em pleno aniversário de Pixinguinha, que estampa um dos grafites mais memoráveis do Rio de Janeiro. Dá pra dizer que o jogo virou, embora o gênero devesse receber bem mais incentivos.
Mas nem sempre foi assim. Andar com cavaquinho embaixo do braço era mal visto e, graças a redutos como a casa de Tia Ciata, gêneros como o choro e o samba sobreviveram pra contar a história.
Antes da referência veio a resistência.
Não faz muito tempo, o reggaeton passou por censura. Em 1995, havia literalmente batidas policiais em lojas de discos. Os criminosos? DJs que estavam inventando uma nova forma de tocar e, consequentemente, de dançar. Os mesmos que hoje são celebrados mundo afora, ganham prêmios no Grammy, roubam a cena no Super Bowl e ocupam as casas de shows mais prestigiosas mundo afora.
Por isso que Drexler diz: a História às vezes muda. Ante la duda, baila. Em bom Português, quando em dúvida, balança essa raba.
E essa lista, claro, poderia ir longe. O jazz já foi tratado como barulho indecente nos Estados Unidos, o rock nasceu associado à delinquência juvenil, o funk carioca segue sendo alvo recorrente de criminalização nas periferias, o hip hop foi vigiado de perto pelo FBI, o blues é associado a pactos demoníacos desde sempre.
Em comum, quase sempre o mesmo incômodo: corpos que se movem fora da norma, encontros que escapam do controle, vozes que não passaram por nenhum filtro antes de ganhar o mundo. O filtro sendo “a moral e os bons costumes”, definidos pelo grupo dominante. Geralmente branco. E bastante masculino.
Não por acaso, essa relação entre música e controle voltou à tona agora. No início da nova turnê em homenagem aos 40 anos de “Cabeça Dinossauro”, os Titãs decidiram abrir o show projetando um documento oficial de censura à música “Bichos Escrotos”. Um registro frio, burocrático, que tentava enquadrar uma canção em termos “aceitáveis”, desde que um verso fosse arrancado dela. Como se desse para amansar o incômodo cortando uma palavra. Não entenderam nada mesmo.
É curioso perceber como esse registro de 1987 ainda soa atual. A música ali não era perigosa por ser tecnicamente sofisticada ou esteticamente radical. Era perigosa porque dizia algo fora do lugar, porque tensionava limites, porque escapava às normas.
E talvez seja exatamente aí que mora a questão.
Possivelmente porque esses gêneros nunca tenham sido “só música”. Eles são encontro, ocupação de espaço, circulação de corpo e de ideia fora de controle. São códigos que nascem longe dos centros de decisão, que não pedem licença, que não cabem facilmente em planilhas ou políticas de “bom gosto”.
Quando um ritmo se espalha assim, ele embaralha hierarquias: aproxima quem estava distante, dá protagonismo a quem não era convidado, cria linguagem própria. E isso, historicamente, incomoda. Não pelo som em si, mas pelo que ele carrega: autonomia, identidade, presença. No fundo, o que parece ameaça é só gente se reconhecendo e percebendo que pode existir de outro jeito, junto.
Tem algo de muito prazeroso em atravessar essas fronteiras invisíveis e perceber como os ritmos dos países vizinhos não só dialogam, mas quase se reconhecem entre si. Como se cada batida carregasse um pedaço de uma história que também é nossa, ainda que com outro sotaque, outro nome, outro caminho.
No fim, a sensação é menos de descoberta e mais de reencontro, uma constatação de que somos muito mais parecidos do que parece à primeira vista para nós, brasileiros, tão acostumados a olhar mais para fora do que para o lado.
É a milonga que atravessa o sul sem pedir licença, o chamamé que insiste em não reconhecer fronteiras, a guarânia que aproxima o Centro-Oeste do Paraguai, o carimbó e a lambada olhando para o Caribe.
E talvez seja justamente na música que isso fique mais evidente: esse terreno comum onde as diferenças deixam de ser barreira, onde a gente se entende sem precisar traduzir tudo, onde uma mão no joelho e outra na consciência já bastam pra mostrar que o entendimento vem do corpo, antes de qualquer explicação.

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