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Imagina Só · Feb 4, 2026

Faz-me rir

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Nathália Pandeló · Imagina Só

Não faz muito tempo, as comédias eram parte central da cultura pop. Era o Sai de Baixo depois do Fantástico, eram os filmes leves e previsíveis da Sessão da Tarde. Hoje, esse espaço se encolheu: o gênero foi parar na prateleira B do cinema, em produções com cara de indie, mas que na verdade receberam pouco investimento dos estúdios. É o caso de títulos como A Mentira (2010), Fora de Série (2019) e outros do mesmo estilo. O auge deles é a categoria de comédias do Globo de Ouro - apenas para se recolherem à insignificância dos catálogos dos streamings.

O crítico Daniel Parris escreveu sobre esse declínio e, em sua ótima newsletter, lembrou que a comédia é um produto cultural. E que, por isso, nem sempre se traduz bem de uma cultura para outra. Faz sentido, mas me parece que não é só por aí. Há também uma transformação na forma como entendemos o que é engraçado. Houve um tempo em que rir de estereótipos, piadas machistas, homofóbicas ou racistas parecia socialmente aceito. Hoje, esse cenário mudou. Ainda há muito a melhorar, claro, mas o riso fácil às custas do outro já não ocupa o mesmo espaço.

E é justamente por isso que comédias como As Branquelas, American Pie ou Todo Mundo em Pânico dificilmente repetiriam o mesmo sucesso hoje. Não é esse, no entanto, o ponto que lamento. O que parece em risco é a comédia boba, aquela tão despretensiosa que chega a ser idiota. Você nem sabe porque tá rindo, mas quando vê, já saiu refrigerante pelo nariz ou tá engasgando na pipoca só porque fulano escorregou na casca de banana.

Ainda assim, dei boas risadas vendo Benito Ocasio, também conhecido como Bad Bunny, engordurando o noivo da Taylor Swift em uma imaginada vingança em Um Maluco no Golfe 2. Adam Sandler sempre entrega o que promete, que é: absolutamente nada. Não existe um cara com expectativas mais baixas em Hollywood, e vez ou outra ele até surpreende mostrando que sabe atuar.

Não é o caso de Um Maluco no Golfe 2, vá por mim. O filme não pretende ganhar estrelinhas de críticos de cinema, não tá pleiteando lugar no Oscar e tá tudo bem. É só uma história que te ajuda a botar um sorriso no rosto, e isso tem lá seu valor.

Quando vi que Corra Que a Polícia Vem Aí estava ganhando uma nova encarnação, que Sexta-Feira Muito Louca também seria ressuscitado, pensei: 1) caraca Hollywood, pede umas ideias novas pro chatGPT e 2) OK, a comédia continua viva, porém a que custo? Não vi nenhum deles, não sei dizer se são bons, mas isso não vem sequer ao caso. O fato é que são filmes reciclados de uma era em que a noção de comédia no cinema era outra.

Impossível ignorar os paralelos dos nomes de Leslie Nielsen e Liam Neeson, mas é necessário mais que isso pra fazer um filme engraçado. O primeiro longa é de uma época em que era aceitável escalar O. J. Simpson para um papel que requer a empatia do espectador - pra vocês terem noção de como faz tempo isso. E muito mudou de lá pra cá.

Talvez por isso tenha me chamado atenção a imagem de Joan Baez, aos 84 anos, “fugindo com o circo”. Claro que não literalmente, mas num gesto simbólico, de reencontro com o lúdico e com a leveza como forma de resistência emocional. A cantora se juntou ao elenco de “The Soiled Dove”, um espetáculo imersivo de circo-teatro da Vau de Vire Society. Ela interpretou a “Paloma Blanca” nesse show entre o cabaré o steampunk. Suas definições de rockstar foram atualizadas.

Baez descreveu essa experiência como um antídoto contra os tempos atuais. E é bonito pensar que a comédia boba, aquela que não quer provar nada, cumpria um papel parecido: um intervalo no caos, um lembrete de que rir também é uma forma de sobrevivência.

Outras coisas, no entanto, não mudam nunca. Vi o Saturday Night – A Noite Que Mudou a Comédia, sabendo apenas que era sobre bastidores do SNL, o programa de esquetes que está no ar há mais de 50 anos na TV americana. Digam o que quiserem de americanos (sério, eles merecem), mas essa coisa de comédia é uma tecnologia que eles dominam. Estão há muitas décadas ditando as regras do jogo, moldando a forma como percebemos e entendemos o conceito de engraçado. O Brasil é ótimo nisso, mas para efeito de comparação, aqui temos a lenta popularização do stand-up enquanto lá comediante lota estádio.

O filme do SNL pega isso na gênese, ou pelo menos o início de uma das muitas formas de fazer rir. Há inúmeras críticas possíveis a Lorne Michaels, mas há que se reconhecer que o homem conseguiu profissionalizar a aula de improviso e tá nesse “yes and” até hoje. O filme do Jason Reitman é tão caótico quanto parecem os bastidores do Saturday Night Live, mas chega a ser eletrizante ver como aquele circo todo vai parar de pé. Parece improvável, mas é justamente isso que torna tudo tão singular.

Esse ano já teve Globo de Ouro e esse papo do que é comédia volta à baila. Sempre tem alguma série que desafia a classificação da categoria - ou, no caso desse ano, algumas. Uma delas literalmente se chama “What We Do in the Shadows” (a versão pra TV eu não sei, mas o filme que a originou é muito engraçado sim).

Premiações são arbitrárias por definição, afinal são concursos de popularidade organizados por grupos com regras próprias e cujos critérios são inexistentes incompreensíveis. A das séries não precisa ser um gênio pra entender: há uma divisão clara de produções de 30 minutos e 1 hora, uma classificação que não faz sentido há uns 15 anos.

Yes, 'The Bear' is a comedy. Get over it. | The Mary Sue
haha que engraçado

Toda vez que estreia uma temporada nova de The Bear, muita gente faz questão de lembrar que estamos diante de uma das produções mais dramáticas dos últimos anos, o puro suco do trauma, luto e disputas familiares. Até mesmo Hacks, uma série sobre uma comediante, não tem momentos “ha-ha”. É muito mais sobre o ofício da comédia, etarismo, o que se espera das mulheres e diferenças geracionais.

Desde que a sitcom caiu em desuso, com os mockumetaries ganhando mais destaque enquanto linguagem, as linhas da comédia ficaram mais borradas. Isso não é necessariamente ruim, só é diferente. Ninguém seria louco de dizer que não vimos grandes comédias na última década, momento em que pudemos testemunhar o surgimento Brooklyn Nine-Nine, Fleabag, Ted Lasso, Abbott Elementary, Insecure. Mas note que mais da metade destas são histórias melancólicas, com um pé (ou os dois) no desconforto, na solidão, na ausência.

Falando nisso, até The Office voltou pra TV. Quer dizer, The Paper. Uma nova encarnação, personagens diferentes (exceto o Oscar) e uma proposta similar à série que acompanhou o dia-a-dia dos funcionários da Dunder Mifflin. A nova série até é boa, mas voltamos à estaca zero. Esse papel é obviamente reciclado. Sou até a favor da sustentabilidade, mas, de novo: a que custo?

Com todos esses assuntos girando aqui dentro da cabeça, me peguei sentido falta daquela comédia besta. Adam Sandler talvez seja o último bastião do ator que se torna um gênero por si só. Os Jim Carrey, Eddie Murphy, Jackie Chan da vida, sabe como é?

Ando revendo alguns desses filmes a sugestão da minha professora de espanhol, que comentou ser um bom exercício (com a dublagem em espanhol, claro), considerando que já conhecemos as histórias. Passei por Miss Simpatia, Com a Bola Toda, Quem vai Ficar com Mary?, Ace Ventura e vários outros. São grandes filmes? Jamais. Mas entregam o riso solto, descompromissado? 100%.

Entendo que a fusão da comédia com outras linguagens é parte da sua evolução. Queremos ter mais nuance, até porque a vida de ninguém é um grande “ha-ha”. Por outro lado, é totalmente compreensível usar o pouco tempo que temos para desopilar com algo que faça cócegas mentais, ativa os circuitos de prazer do cérebro e entrega justamente o riso que pode se ausentar dos nossos cotidianos.

Tanto que, em pleno ano de nosso Senhor de 2025, eis que uma sitcom foi um dos maiores sucessos da Netflix. Tô falando de Leanne, a mais recente série do Chuck Lorre. Pegando carona na popularidade da Leanne Morgan, que teve um dos especiais de stand-up mais assistidos da plataforma, os algoritmos do Ted Sarandos apostaram no formato de 20 minutos, com risada do público e várias câmeras. Pelo visto, deu certo.

Não que o assunto seja urgente, um disparate. Mas, com um pôster de Corra Que a Polícia Vem Aí a cara ponto de ônibus (e depois com o filme entrando no Paramount+), me peguei pensando com certa frequência em como é cíclico aquilo que constitui a tal da comédia. Nós, da geração Videocassetadas do Faustão, andamos um longo caminho até a oferta abundante que temos hoje, e para todos os gostos, de reels com IA a séries premiadas.

Daí que não parece louco ver a Joan Baez no circo depois dos 80. Me parece digno querer reencontrar o riso que cura, a leveza que não precisa se justificar. Afinal, algo que não muda nunca é a nossa conexão com o riso e com aquilo que tem a capacidade de desarmar as nossas barreiras e fazer soar aquela risada solta, aquela gargalhada alta, de fazer escorrer as lágrimas de quem não para de rir nem pra respirar.

Isso, talvez, seja o mais perto de um superpoder que o ser humano consegue conjurar usando apenas as palavras. Mais que timing, punchline, stand-up ou qualquer outro vocábulo gringo, o que a gente quer é conexão. E isso não é necessário importar - ainda bem. Imagina a taxação que o outro lá ia anunciar…

Read the original on imaginaso.substack.com

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