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Imagina Só · Apr 20, 2026

O dia em que o robô tentou tocar forró

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Nathália Pandeló · Imagina Só

Sabe aquele estalo? Aquela ideia que vem do nada? Foi assim.

Lembrei que alguns anos antes, havia levantado a possibilidade de alguém criar uma música para acompanhar o poema que meu pai havia feito sobre meu avô. Era um desejo de minha mãe, e descobri que músicos fazem esse tipo de serviço. Cheguei a pedir um orçamento, mas na época eu não conseguia arcar com o investimento, completamente justo, para um serviço especializado que requer anos de estudo e dedicação. Ficou pra depois.

Isso faz uns 10 anos.

Antes ainda, havia perguntado a um amigo se ele musicaria esse mesmo poema. Ele sempre foi bom com melodias e eu tinha esses versos sentimentais para oferecer. Meu amigo topou, mas foi tomado pelas demandas da vida, e a música nunca se concretizou.

Isso completou 15 anos em janeiro.

Sei porque pedi a ele que resgatasse esse e-mail, com o poema. Queria fazer uma surpresa pra minha mãe, entregando pra ela, próximo ao dia em que meu avô teria feito aniversário, a tal poesia musicada.

Considerando que não sei tocar uma nota em nenhum instrumento, recorri à única ferramenta que combina com o meu nível de despretensão e saldo bancário: a inteligência artificial. Fiz conta em um desses sites que “criam” “música”, sem nem saber por onde começar. Digitei um prompt genérico de duas linhas, coloquei a letra e deixei o site recombinar seus bancos de dados até cuspir duas versões diferentes.

Elas tinham capa. Tinham entre 3:58 e 4:34 de duração. E eram completamente aceitáveis para o contexto - o contexto sendo enviar no WhatsApp uma homenagem simplória pra minha mãe matar saudades do meu avô. Não tinha falhas técnicas; o principal elemento, o acordeon que tanto nos lembra o seu Pandeló, era o protagonista, conforme solicitado. O vocal? Certinho, uniforme.

0:00

-4:34

Deixando aqui a que escolhi, caso você queira ouvir

Foi um exercício de curiosidade. Enviei pra minha mãe, ela ficou emocionada, mas até onde sei, não voltou a ouvir. Eu, no entanto, continuo voltando a essa experiência, a esse resultado. Não para escutar, mas para lembrar de tudo que o “output” (agora, é assim que a gente chama música) não entregou.

Conexão.

Verdade.

Alma.

Não tem história ali. Tem, sim, nos versos. Meu pai conviveu brevemente com meu avô, o suficiente para eternizar essas linhas sobre os elementos que o marcavam: a presença inegável de quase 2 metros de altura; a bengala; a sanfona.

Eu, pelo contrário, convivi 14 anos com seu Pandeló - e quase nada com meu pai. Pude testemunhar mais que o homem grande tocando forró. Pude sentar naquele colo, me aninhar em seu barrigão, ouvir suas histórias. Perguntar pra ele se a música que eu gostava era de Tião Carreiro e Pardinho ou de Milionário e José Rico (quando era, na verdade, de Tonico e Tinoco). Pedir pra usar o acordeon como se fosse uma máquina de escrever nas minhas brincadeiras de escritório. Fazer cara de cachorro abandonado pra que ele me levasse no boteco do portuga e pudesse pegar um Baton, um Kinder Ovo, um Chupa Chups das Spice Girls.

Não há prompt que dê conta dessa bagagem, e seria até injusto cobrar isso de um robô. A maioria das pessoas não esperaria um universo inteiro dentro de uma música, tocada no automático entre outras tantas de fundo. Estamos falando de um poema com quase 40 anos cuja significância só é relevante para duas pessoas.

Para tantas outras, o “output” segue sendo o que é: aceitável. Não tenho dúvidas de que, se eu tivesse a cara de pau de subir isso numa plataforma de streaming, um número x de pessoas ouviria. A maioria sequer chegaria a notar que tem IA envolvida, de cabo a rabo, no “processo criativo”. Algumas associariam aos seus próprios pais e avôs e seguiriam em frente, para a próxima música genérica.

Uma das capas criadas pela IA. Notou que tá faltando dedo?

E talvez seja aí que a coisa começa a ficar meio turva e meio fascinante também, porque o que me pegou não foi o fato de a música existir, mas o fato de ela quase bastar.

Ênfase no quase.

Ela cumpre o combinado - vai dizer que não? Organiza melodia, harmoniza sentimento, entrega uma narrativa redondinha o suficiente para não causar estranhamento. Não ofende o ouvido de ninguém. E, ainda assim, falta aquele pequeno descompasso que denuncia a presença humana, o atraso de meio segundo na entrada, a respiração antes de um verso mais pesado, a escolha errada que, curiosamente, é a que fica. Fica porque carrega alguém ali dentro.

No meu caso, esse alguém tem nome, tem história, tem cheiro de fole e som de sanfona no fim da tarde. Tem um tipo específico de silêncio entre uma frase e outra. Tem um jeito de rir que não cabe em métrica nenhuma.

E é aí que entra uma camada meio anacrônica que não sai da minha cabeça. A tentativa de “trazer meu avô de volta”, ou pelo menos de reencenar a sua presença, usando uma tecnologia que ele sequer teria como imaginar que existiria. Seu Pandeló tocava sanfona de ouvido, sem formação, sem partitura, sem qualquer tipo de educação formal, nem de escola, muito menos de música. O jeito dele tocar era torto por natureza, cheio de desvios, de atalhos, de soluções improvisadas que só faziam sentido ali, naquele corpo, naquele tempo. Diante disso, aquele som limpo começa a soar quase estranho. Não porque esteja errado, mas justamente porque está certinho demais.

Tem algo de deslocado em usar o que há de mais novo para tentar acessar o que é irremediavelmente passado, como se o tempo fosse uma linha que desse pra percorrer nos dois sentidos com a ferramenta certa. Não dá. No máximo, a gente constrói um simulacro confortável, uma espécie de lembrança assistida, que diz mais sobre o presente e as suas possibilidades do que sobre quem ficou lá atrás.

Talvez por isso eu não volte a ouvir a música, mas volte sempre à ideia dela. Ao gesto. Ao impulso de transformar um poema antigo em algo que pudesse circular, ainda que só dentro de casa. Existe uma beleza nisso que independe do resultado final, essa tentativa meio desconexa de fazer o tempo dar uma volta, de costurar gerações que não se encontraram direito, de inventar um encontro possível.

No fim, a inteligência artificial me ajudou a entregar uma canção. Mas o que me fez querer fazer isso nunca esteve exatamente na música. Talvez estivesse no caminho até ela, nesse esforço meio desajeitado de transformar lembrança em som, ausência em alguma forma de presença. E isso continua fora de alcance, como quase tudo que realmente importa.

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