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Imagina Só · May 8, 2026

Nossa pátria é o melodrama

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Nathália Pandeló · Imagina Só

Não sei se deu pra notar por esse banner chiquérrimo, mas essa edição está um pouco diferente. Pela primeira vez, estou participando do Newsletteraço, um movimento que surgiu no grupo de autores no Telegram. O tema tem tudo a ver comigo e não poderia ficar de fora! Saca só:

Bad Bunny passou pelo Brasil pouco depois de fazer a primeira apresentação em espanhol da história do Super Bowl. Mais do que fazer absolutamente ninguém ficar sem mexer alguma parte do corpo ouvindo suas músicas, Benito fez muita gente se enxergar dentro de uma identidade latino-americana – e ter orgulho disso. Alguns anos depois de o rapper Residente dizer que isso não é a América, em resposta ao “This is America” de Childish Gambino, Bad Bunny levou ao mundo a palavra de que a América é mais que um único país de ambições megalomaníacas, e sim esse enorme pedaço de terra que começa no norte do Canadá e vai até o sul do Chile, e que é composto por uma infinitude de culturas, idiomas, sabores, climas e crenças. Esta edição do Newsletteraço celebra essa diversidade.

Eu não estou sozinha nessa, claro! Conheça as outras cartinhas participantes:

Agora sim, bora pra edição de hoje!

Dizem que os latino-americanos são unidos por uma história política turbulenta, pela invasão dos seus territórios, pela violência contra povos originários e pelas ditaduras que se repetiram em sotaques diferentes. Também pelas cidades marcadas por desigualdade e até por cataratas e florestas que se recusam a obedecer linhas desenhadas em mapas. Tudo isso tem seu peso e até é verdade, mas talvez exista uma resposta bem mais simples para essa pergunta.

O que une a América Latina, no fundo, é o drama.

Não o drama histórico, que infelizmente nunca faltou, mas aquele em capítulos. O drama da filha perdida que volta rica. Da moça humilhada que retorna irreconhecível. Do milionário cruel que aprende a amar. Da revelação feita no exato momento em que alguém segura uma taça de cristal ou começa a descer uma escada.

Tenho pra mim que, se houve algum projeto real de integração continental, ele provavelmente passou menos por reuniões diplomáticas e mais pela programação da tarde.

Durante muito tempo, o brasileiro alimentou certa convicção, quase patriótica, de que a novela era uma invenção nacional aperfeiçoada localmente, quase um patrimônio tombado ao lado da feijoada e da opinião sobre a escalação da seleção. Aí chegaram as mexicanas e mostraram que existia outro centro produtor de emoção televisionada.

Através de um portal na sede do SBT, a Televisa entrou em milhões de casas brasileiras e apresentou um modelo alternativo de excelência: menos preocupação com sutileza psicológica, mais compromisso com emoções objetivas. Menos subtexto, mais gente descobrindo parentesco em cima da hora. Menos vergonha de exagerar, mais entendimento de que a vida, para boa parte das pessoas, já é exagerada por natureza.

Vieram “A Usurpadora”, “Maria do Bairro”, “Marimar”, “Maria Mercedes”, “Rubi”, “Rebelde” e tantas outras. O brasileiro dizia “isso é muito novela mexicana” num tom de crítica, mas sabia perfeitamente o nome de Paola Bracho, o currículo de maldades da personagem e o horário da reprise (era um deboche bastante comprometido). Quando nos demos conta, estávamos convivendo com Gabriela Spanic e Thalía no Domingo Legal e no sofá da Hebe.

Nesse pacote continental, o México nunca esteve sozinho. A Argentina exportou “Chiquititas”, que era voltado para o público infantojuvenil, mas já ensinava cedo que a vida envolve abandono, saudade, injustiça social e números musicais coreografados (ninguém é de ferro).

A Colômbia entregou “Yo soy Betty, la fea”, talvez uma das propriedades intelectuais mais vitoriosas do continente, depois adaptada no Brasil como “Bela, a Feia”, ajudando a consolidar a tese de que a televisão considera feiura algo reversível só tirando o óculos. Houve ainda versões brasileiras de “Carinha de Anjo”, originalmente mexicana, provando que muito antes do streaming já sabíamos reciclar histórias com sotaques locais.

E esse tipo de narrativa viajou tanto porque fala de coisas muito concretas. Existe uma tentação de reduzir tudo a estereótipos sobre povos passionais, ciumentos, escandalosos e sentimentalmente instáveis, mas isso explica pouco. O melodrama vira uma linguagem popular em sociedades desiguais. Quando a realidade é de dias difíceis, a ficção reorganiza esse caos. Quando a justiça falha, a novela entrega algum tipo de reparação. Quando a mobilidade social parece improvável, alguém herda uma fortuna no capítulo 96.

Essas histórias perguntam se o amor vence diferenças de classe, se quem humilha será humilhado, se dá para recomeçar com outro nome, outro corte de cabelo e uma vingança bem planejada. São perguntas menos absurdas do que parecem.

O brasileiro talvez duvide, mas não somos os únicos esnobes do continente. Nos Estados Unidos, “soap opera” virou sinônimo de TV inferior, excessiva, meio cafona. O curioso é que o país produziu “Days of Our Lives”, “General Hospital” e tantos outros títulos tradicionais sem jamais atingir a potência dramática de uma risada de vilã ou de uma lágrima solitária escorrendo no rosto da mocinha mexicana. Tem que comer muito Big Mac, viu?

Talvez por isso “Jane the Virgin” tenha funcionado tão bem. A série entendeu que a linguagem da telenovela não era um acidente kitsch a ser corrigido, mas uma gramática sofisticada do entretenimento popular. Pelos anos em que esteve no ar, tivemos ali, no horário nobre da CW, um narrador onisciente, reviravoltas absurdas, segredos familiares, humor, romance, ritmo acelerado e emoção assumida sem vergonha. O mesmo vale para “Ugly Betty”. Em vez de zombar do formato, essas séries reconheceram sua força e mostraram que havia ali uma tradição narrativa inteira a ser reinterpretada. O Globo de Ouro não me deixa mentir.

Existe algo de muito moderno na novela latina, embora ela raramente receba esse crédito. Tô ligada que agora a moda é k-drama e produções turcas, inclusive nada contra. Mas você já notou que hoje em dia é preciso ficar aumentando o volume da TV porque os atores sussurram em vez de falar? Em tempos de personagens blasés, a telenovela segue dizendo que amar demais, odiar demais, sofrer demais e comemorar demais talvez sejam apenas modos honestos de estar vivo.

Talvez nossa integração regional tenha acontecido menos por tratados comerciais e mais porque o Brasil passou trinta anos assistindo a um “menino” morando num barril e achando isso perfeitamente normal. Antes de muita gente saber localizar o México no mapa, já sabíamos diferenciar Chaves irritado, Chaves faminto e Chaves prestes a apanhar do Seu Madruga. Onde ficava Acapulco? Mero detalhe.

E havia também Chapolin, talvez a contribuição latino-americana mais honesta ao conceito de super-herói. Enquanto os Estados Unidos produziam homens musculosos que salvavam o planeta, nós consagramos um sujeito inseguro, que chegava atrasado, errava bastante e mesmo assim resolvia alguma coisa no fim. É um modelo de liderança estranhamente familiar ao continente, vai dizer que não?

O mais curioso é que tudo parecia (e era) precário: cenário capenga, figurino improvisado, efeitos especiais constrangedores e adultos claramente velhos demais para certos papéis. Ainda assim funcionava. Talvez porque a América Latina reconheça uma gambiarra bem executada. Chaves e Chapolin ensinavam, cada um à sua maneira, que dá para transformar escassez em estilo, caos em rotina e falta de verba em histórias marcantes.

Óbvio que a América Latina continua compartilhando rios que atravessam fronteiras, crises que atravessam gerações e uma história política que atravessa regimes e golpes como quem troca de roupa. Mas talvez o traço mais constante seja outro: a habilidade de encenar o caos com alguma graça. De transformar aperto em piada, excesso em linguagem e precariedade em espetáculo. Entre uma vilã gargalhando e um herói quebrando uma porta de isopor com uma marreta de plástico, o continente foi encontrando seu jeito muito particular de rir de si mesmo.

Porque, no fim das contas, pobre, rica, usurpadora ou vizinhança inteira, os latino-americanos podem até sofrer bastante, mas seguem repetindo que a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena - ao mesmo tempo que grita “maldita aleijada!!!” com sangue nos olhos. Afinal, equilíbrio é tudo.

Falando em Thalía, ficou sabendo que ela lançou um novo álbum? “Todo Suena Mejor en Cumbia” é o cúmulo do que falamos aqui: a América é mesmo uma grande vizinhança. Thalía é mexicana, mas a cúmbia, que tem origem colombiana, é um dos gêneros que mais atravessaram fronteiras, com força especial no México. Não é um disco 100% inédito, mas também não é só um álbum de covers (tenho duas palavras pra você: Dancing Queen). Ele funciona como um projeto de cúmbia pop, com faixas novas, colaborações e versões/releituras de músicas já conhecidas. Vale o play se você é desses que se pergunta o que anda fazendo a Maria do Bairro, ou a Marimar, ou a Maria Mercedes…

Read the original on imaginaso.substack.com

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