Entrar na exposição Viva Maurício, no Centro Cultural Banco do Brasil, é dividir espaço com crianças pulando amarelinha, adultos disputando a vez nos módulos interativos e celulares levantados em busca da foto perfeita. Não há conflito aí. A Turma da Mônica atravessou gerações o suficiente para tornar esse convívio quase automático. Pais reconhecem personagens que leram quando eram crianças, filhos entram em contato com um universo que segue atualizado e familiar.
Entre telas, vídeos e instalações, um dos momentos mais interessantes não vem da tecnologia, mas do papel. Os primeiros cadernos de Mauricio de Sousa, ainda criança, aparecem já no início. Claramente, o pequeno Mauricio já demonstrava talento, embora tentasse copiar o estilo didático das ilustrações da época. Essas primeiras páginas ajudam a lembrar que uma obra tão presente no imaginário brasileiro não nasceu pronta nem organizada. Foi sendo construída aos poucos, com mudanças, desvios e ajustes ao longo do caminho.
O acervo físico, no sentido mais tradicional, é pequeno. Não há tantos originais que pedem observação demorada ou silêncio. Em vez disso, a exposição investe em recursos audiovisuais, espaços interativos e uma versão reduzida do Bairro do Limoeiro, pensada tanto para crianças quanto para quem é da época do Sansão amarelo.
Há tempos as exposições deixaram de ser apenas espaços de fruição silenciosa e passaram a funcionar também como experiências compartilháveis. Aqui, isso não parece um problema. Faz parte da proposta. O laser na porta que leva à nave do Astronauta, o sino do sítio do Chico Bento, as pinturas em estilo rupestre na caverna do Piteco não estão ali para serem contemplados à distância, mas para ativar memória, curiosidade e participação.
O momento mais forte vem no fim do percurso. Na saída, um holograma de Mauricio se despede do público. Ele manda beijinho, faz coração com as mãos, agradece. Não é um gesto solene nem espetacular. O autor aparece ali consciente do espaço que ocupa, acompanhando de perto a recepção da própria obra. Ele, inclusive, visitou a exposição, mesmo de cadeira de rodas.
É difícil não pensar no contraste com Mundo Zira, dedicada a Ziraldo, exibida no mesmo CCBB logo após sua morte. Ou com os autores homenageados da Festa Literária Internacional de Paraty, que são sempre falecidos. A Flip celebra trajetórias quando já não há mais quem suba ao palco para ouvir o aplauso, responder perguntas ou circular entre leitores. Aposto que a grana de vendas de antes, durante e depois do evento teriam feito bastante diferença pra um Lima Barreto da vida, da mesma forma como poderiam dar um gás na carreira de um ótimo escritor contemporâneo.
A visita à Viva Maurício acaba funcionando como um lembrete de um padrão recorrente no mundo cultural. Homenagens em vida podem ser raras, tratadas quase como exceção ou aposta arriscada. Como se o reconhecimento precisasse da obra encerrada para ser legitimado.
Ver um autor presente no próprio tributo desloca essa lógica. Não se trata de encerrar uma trajetória, mas de reconhecê-la enquanto ela ainda acontece. De permitir que quem criou saiba, agora, o tamanho do impacto do que fez.
Talvez o principal acerto da exposição esteja menos nos recursos visuais e mais nessa escolha. A de dizer ‘obrigado’ quando ainda pode ser ouvido e amplificado. Afinal, se você chegou até aqui nesse texto, tem grandes chances de ser, pelo menos em parte, graças a esse agora nonagenário de cabeça branca. Sorte a nossa.

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