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Prescrita · Apr 2, 2026

“Todo dia era dia de índio”

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Hupokhondría · Prescrita

Táscia Souza

Até então, no meu repertório de menina branca de classe média aluna de escola particular, a ideia de literatura indigenista se resumia a José de Alencar e suas três adaptações da teoria do bom selvagem de Rousseau. O guarani, Iracema e Ubirajara traziam o indígena como um herói idealizado, filtrado pelo olhar romântico europeu, uma figura que habitava mais o passado da fundação nacional do que o presente pulsante do Brasil. No Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora, porém, o acaso cruzou meu caminho com o da Alíria Wiuira Benícios de Carvalho. Embora nunca tenhamos sido próximas, cursamos algumas disciplinas juntas, e a simples presença dela naquelas salas, bem como sua disposição de trazer para o meio acadêmico as narrativas orais de seu povo, forçaram-me a encarar o abismo entre o mito literário e a voz soberana de quem fala por si.

Alíria defendeu em 2024 a tese Festa do Moqueado Guajajara: entre cantos e narrativas, tornando-se a primeira doutora indígena da Faculdade de Letras da UFJF. O trabalho é uma ruptura, uma vez que não se trata de uma análise sobre o “outro”, mas de um mergulho profundo e legítimo na cosmologia do povo Tenetehara-Guajajara, ao qual a própria pesquisadora pertence. Ela se debruça sobre a Festa do Moqueado (ou Festa da Moça Nova), um ritual de passagem que marca a transição da menina para a vida adulta, unindo o tempo mítico ao cotidiano da aldeia através de cantos e narrativas que desafiam as definições ocidentais de gênero literário.

A importância do estudo de Alíria é monumental, especialmente no contexto de um programa de pós-graduação em Estudos Literários. Em vez de pedir licença para entrar no cânone, ela expande o conceito de literatura ao trazer a oralidade, o rito e a performance como formas de saber tão rigorosas quanto o texto escrito. Como ela mesma define em sua escrita:

“Esta tese pretende apresentar parte do rico universo de narrativas e cantos presentes em nosso contexto cultural e ampliar os registros e divulgação das narrativas e poéticas indígenas da etnia guajajara, bem como inserir suas vozes nos estudos literários como uma forma de resistir para continuar a existir”.

O trecho demonstra quão urgente é seu trabalho. Enquanto o indigenismo de Alencar era um projeto de construção de uma identidade brasileira para consumo da elite, a pesquisa de Alíria é um projeto de sobrevivência e afirmação. Ela documenta como a Festa do Moqueado não é apenas uma tradição estática, mas uma “poética da resistência” que mantém viva a memória dos ancestrais e a conexão com a Terra Indígena Arariboia. Mais que um documento acadêmico, sua tese é um convite para que nós, que crescemos sob a égide de Peri e Ceci, possamos finalmente ouvir as vozes reais que a história brancocêntrica tentou calar.

Gustavo Burla

Na disciplina de Cultura Brasileira, no primeiro período dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda, o professor Evandro Medeiros apresentou o filme do Nelson Pereira do Santos. Mantive o longa como introdutor para a discussão sobre antropofagia, que culmina na Semana de 1922 e serve de comparação para o que temos no Brasil mais de um século depois.

Toda vez que chega o dia da conversa sobre o filme tem jovem que se surpreende (ou se assusta) com a ambiguidade do título. Alguns, inclusive, somente no momento da discussão, porque recomendo que assistam ao filme sem legendas.

É filme brasileiro, considerado o derradeiro do Cinema Novo, mas na maior parte falado em tupi-guarani (com roteiro traduzido por Humberto Mauro), com poucas falas em português ou francês. Ver sem as legendas é como entrar na incompreensão do francês que está no título e acreditar que ele vai mesmo se tornar parte da tribo de Seboipepe.

Tadinho… Seriam nove luas em banho-ana-maria (Magalhães, a internacionalmente aplaudida atriz, verdadeira protagonista da história) até ir para o caldeirão. O que havia de melhor no francês era absorvido pela tribo, cultural e carnalmente.

Nos anos 1990 foram moda camisas com 100% Alguma Coisa (Negro, Brasileiro, Pagode, Rock n roll…) e nada mais brasileiro do que 100% Misturado. Os indígenas, vitimados pelos massacres, pelas gripes, pela catequização dos invasores, mostraram que podemos aprender com os de fora e ensinar a eles. A verdadeira lição quem da é Seboipepe: quando o francês tenta fugir ao destino, toma na bunda (uma flechada). Aqui se faz, aqui se paga.

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Maristela Meireles

A Roda da Fortuna é uma carta do tarô temida pelos consulentes. Uma hora você está por cima, outra hora você pode estar por baixo.

— Será uma previsão da minha derrocada? OMG, vou perder tudo!

Quando nos entendemos como parte de um todo, sobra espaço para, realmente, possuirmos algo? Abraçar as raízes indígenas do Brasil é trazer para a nossa identidade uma visão mais equilibrada sobre a segurança diante da vida. Toda sorte muda, tudo que nasce um dia morre, toda a noite e todo o dia acabam. Na sua cosmologia, o Sagrado e a Natureza são um só. E o homem é parte dessa Natureza. Saber ouvir o que ela nos diz é a parte mais encantadora dessa herança.

Nos voltamos para os oráculos em busca de orientação sobre a nossa sorte? Será que, para essa sorte virar, não deveríamos perguntar com mais frequência o que a Natureza está tentando nos dizer?

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Mariana Virgílio

A frase do título, do imortal Ailton Krenak, nos lembra que não podemos ser meros espectadores das ações em nosso planeta e precisamos nos envolver mais nas questões atuais. Ou, como também ele diz, “derreteremos iguais lesmas no asfalto”.

Por isso, seguem algumas dicas para que você se sinta mais próxima da realidade e do pensamento do movimento indígena.

No Youtube: SELVAGEM, ciclo de estudos sobre a vida

Associação que envolve um ciclo de estudos sobre a vida, o movimento indígena das Escolas Vivas e uma rede colaborativa para traduções e aprendizagens.

No canal, você encontra conversas mediadas por Ailton Krenak, falas gravadas em encontros presenciais desde 2018, ciclos de estudos on-line e outros materiais audiovisuais, como as séries Flecha Selvagem, Pingo Selvagem e Conversa na Rede, apresentando uma pluralidade de perspectivas, vozes e linguagens que se reúnem em estudos sobre a vida.

Assista aqui

Episódios do Podcast Mano a Mano

Com a ativista dos direitos indígenas e coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental do Kanindé, Txai Suruí.

Com a deputada federal indígena, eleita por Minas Gerais, professora e ativista Célia Xakriabá.

O livro Contos indígenas brasileiros, de Daniel Mundukuru

Os oitos contos selecionados pelo autor, a partir de um critério linguístico, têm a intenção de retratar, através de seus mitos — o roubo do fogo, a origem do fumo, depois do dilúvio, entre outros —, a caminhada de alguns de nossos povos indígenas (Guarani, Karajá, Munduruku, Tukano, entre outros) do Norte ao Sul do país. A leitura dessas histórias dá às crianças uma rica visão de nossa herança cultural.

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