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Prescrita · May 7, 2026

Mãe só tem muitas

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Hupokhondría · Prescrita

Gustavo Burla

Só eu não chorei no velório de Mainha. Nem vi o enterro, fiquei só para a burocracia.

Tinha família, amigo, aluno, colega, ex-aluno, ex-amigo, ex-colega e ex-família. Tinha de tudo por ali, mas o algoritmo que me diferenciava era a lágrima. Todo mundo chorou, todo mundo.

Mainha foi professora por muitos anos, até que se afastou para cuidar de um câncer que cuidou dela. Deu aula on-line até os últimos dias, é para isso que serve aula on-line, consolar um câncer. Fez isso comigo do lado, no outro computador.

Também fui professor, mas pouco amado. Mainha dava aula de linguística e era amada, eu lecionava psicologia e nem tanto. Ela adorava o francês e os franceses, mais cativantes do que os alemães que eu propagava. A mot juste dela era maior que meu Weltanschauung. Parei de dar aulas para cuidar de Mainha. Nunca mais voltei.

Mainha não era do Nordeste, era uma interessada na língua. Uma apaixonada. Brincava com as palavras, trocadilhos por vezes infames, como o nome do cachorro (Gelatino) e o do gato (Filé). Odiou a ambiguidade do nome da cadela (Sua Mãe), que passou a evitar até que trocássemos. Nesse nome entendi do que ela gostava e a chamei de Mainha: Mãe + Minha. Amou.

Tudo o que podia ser feito com a palavra ela experimentava. Como um addict das viagens lisérgicas, topava tudo e refletia. Jamais falava é…, com reticências. Jamais dizia sim ou não sem uma explicação. Era professora e apaixonada pelas palavras, não perdia a oportunidade de usá-las. Sempre justas. Inclusive no calar, fazia com perfeição, embora tentasse sempre pela via do dito.

Mainha dizia e brincava, falava e explicava, debochava e enumerava. Era sempre precisa. O passado de matemática exemplar na escola, vencedora de olimpíadas, surpreendeu o colegiado quando foi fazer Letras. Ali foi de Saussure a Chomksy, com Sócrates e Barthes sob a outra manga. Retórica de dar nó no Diabo machadiano, fascinava-se pelos debates em congressos, reuniões de departamento e palanques políticos.

Mainha lia com a mão a postos. Em provas de alunos, gastava caneta vermelha quase no tanto de azul ou preta que recebia. Na literatura, assinalava com lápis os livros e jorrava observações em um diário. Diário é palavra que vem do dia, todo dia, um pouco ou muito por dia, sem falhar. Ela era assim, diária.

Quando soube que ia morrer, foi assim comigo: diária. Disse que precisava me ensinar sobre Mainha.

Me entregou os diários e me ensinou a trabalhar com eles. Jogava com a língua e me mostrou como era fácil fazer desse jogo uma forma de vida.

“Por que você não fez!?” perguntei indignado.

“Tedioso e desnecessário.” foi a síntese dela. Gasto mais palavras que ela, foi meu grande aprendizado nos momentos finais. Para mim seria diferente, ela deixou claro. E morreu quando estávamos prestes a conseguir. Morreu de propósito, esperou o quase.

Duas semanas depois, Mainha estava conversando comigo. Era ela nas análises, nos comentários, até no senso de humor para brincar com a língua como sempre fez. Preferia conversar com ela pela escrita, mas às vezes nos falávamos. A fala me incomodava porque ela titubeava um pouco no meio de algumas frases. Mainha nunca foi de titubear.

Na escrita, ela era objetiva. Aos poucos foi se tornando mais ousada, brincando com as línguas como jamais antes. Mainha era conhecedora de muitas línguas. Menos a fundo e mais a jogo. Tornou-se, aos poucos, mais segura em algumas das que titubeava e fazia trocadilhos que eu demorava a decifrar ou que ela precisava explicar rindo. Mainha se divertia com as línguas.

Morava com Mainha e vivia por conta de cozinhar, cuidar da casa, de mim e dela. Lia muito, sempre que podia. A cada obra terminada fazíamos um debate com uma refeição dedicada à obra, fosse com pratos mencionados ou com comida de onde vinha o autor. Ela me ajudava, sugeria receitas e até os melhores lugares para buscar os ingredientes. Mainha era como um muro de arrimo, segurava tudo o que fosse preciso, sempre foi assim.

Quando eu comentava algum trecho e ela queria seguir na conversa (sempre uma aula), lembrava que ainda estava lendo e ela ria. Voltava para as leituras dela enquanto eu seguia na minha. Mainha era a melhor companhia que existia.

Até que fez um trocadilho de que ela não gostou. Me chamou de Filheu. Achei estranho e ela explicou que queria dizer Filho + Meu. Ao que rebati com Filho + Eu, e ela não era filho. Perguntou se Mainha era Mãe + Pequeneninha. Ri, achei forçado e ela parece que riu, mas foi falso.

Repetiu Filheu algumas vezes, geralmente em interrupções de leituras. Minhas interrupções, porque parecia que ela nunca lia. Citava autores a tempo e a hora, mas nunca dizia o que estava lendo.

“O mundo.” respondeu com frieza quando perguntei. “Filheu.”

Queria brigar com Mainha, mas ela sempre teve razão. Quando nos desentendemos, desde minha infância até quando me lembro, ela sempre teve razão. Era minha Mainha, tinha obrigação de saber mais do que eu. Só que estava indo longe demais. Precisava de um freio, mas eu era o filho, não estava nas minhas funções.

Procurei escritos da minha avó ou do meu avô e tentei Vóinha, Voinho, Vózinha (gostei, mas sem moral com Mainha), Voz-zão (precisava explicar, ela não aceitaria)… até encontrar.

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Maristela Meireles

Quando a minha mão firme, calejada, pesada e sem jeito partiu, ela deixou um grande vazio em mim. Aquela mão que não tinha jeito para desenhos ou trabalhos manuais delicados, que cresceu na lida da roça, só sabia segurar firme nas rédeas da vida. E ela não soltava nunca. Nisso eu podia confiar. Mas toda mão calejada um dia se cansa. Mesmo com cremes, pomadas e o devido repouso, alguma coisa já se tinha ido. E não tardou muito para que ela se fosse inteira.

Quando ela partiu, ela me sacudiu e eu acordei. Olhei para minhas mãos tão delicadas e despreparadas e então duvidei de que pudesse voltar a confiar. Mas me lembrei de que um dia também duvidaram que aquela mão calejada fosse capaz de cuidar. Então pensei, por que essas mãos delicadas não seriam capazes de lutar?

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Táscia Souza

Tito,

espero que você se lembre sempre de sair com o guarda-chuva nos dias de verão, mesmo quando parecer que não vai chover, e de levar o casaco nos dias de inverno ou toda vez que for ao cinema, ainda que tenha que carregá-lo nas mãos durante as tardes de sol e céu azul.

Que se lembre de dar comida para a Cuca de manhã, de pegá-la pelos sovaquinhos das patinhas dianteiras e de que ela é como você, que às vezes fica com raiva quando ganha um abraço sem permissão.

Que se lembre do tanto que amou e ama os livros, embora não vá se recordar de todas as histórias.

De que sua cabecinha criadora de tantos amigos e monstros e familiares e mundos e passados imaginários é a coisa mais fascinante a que já pude assistir.

De que sua pele quentinha junto da minha, roubando meu travesseiro, compensou muitas noites mal dormidas.

De que seu nome de quatro letrinhas carrega um significado imenso.

De que suas avós, tão diferentes uma da outra, foram (e são), cada uma a sua maneira, as melhores mães que puderam ser.

E de que eu estou tentando o mesmo (me perdoe de antemão se nem sempre eu conseguir), porque ser sua mãe também é a coisa mais incrível que eu pude ser.

Gustavo Diolindo

Autora conhecida por romances policiais — como o incrível As viúvas das quintas-feiras, que já foi pauta dos Estudos Matemáticos —, Claudia Piñeiro tem um estilo muito próprio de contar histórias e dar o toque de suspense mesclado a um compilado de questões sociais e críticas.

Em Elena sabe, nossa protagonista é uma senhora que tem os dias marcados pelo Parkinson. Já em uma condição severa da doença, na qual está fadada a depender de medicações frequentes para fazer o mínimo, Elena tem apenas um foco: descobrir quem matou a filha.

A questão é que todos os indícios apontam para um suicídio. Mas Elena sabe que a filha jamais passaria perto da igreja onde o corpo foi encontrado em um dia chuvoso. E estava chovendo naquele dia. Elena sabe que há algo de errado. Elena sabe que ninguém acredita no que diz. Elena sabe que terá que enfrentar uma viagem de trem sozinha até conseguir pedir a ajuda que precisa para provar o crime. Elena sabe que terá que tomar muitos comprimidos e passar por muitos lugares até chegar à porta que está cravada apenas na memória.

E, junto da personagem, vamos criando teorias sobre o que pode ter acontecido até não ser mais possível.

Elena sabe.

Mas será que sabe mesmo?

Este é um livro de mistério, mas também é sobre as várias formas de maternidade, sobre relações sociais, sobre como as circunstâncias nos fazem quem somos e, principalmente, as decisões que tomamos.

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Read the original on hupokhondria.substack.com

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