Gustavo Burla
Numa noite da última segunda-feira de algum mês de 2025 acontecia o CCCR (Clube do Conto Contemporâneo Reformatório). Todo mês o Marcelo Nocelli envia para os inscritos no Clube um conto que será discutido na última segunda-feira em dois momentos, com mediação do Tadeu Rodrigues: cada participante comenta sobre o que leu, depois o autor se torna parte da conversa.
Em algum momento do último ano, depois de fazer comentários, uma das participantes fechou com a frase que ela disse repetir sempre: “leia autoras, mulheres, vivas.”
Matutando em como homenagear as mulheres neste março, optamos por voltar às listas, desta vez com autoras vivas, brasileiras ou não. Pode ser recomendação de um livro ou de toda a obra, o fato é que ler essas mulheres é incentivar que elas sigam nessa difícil labuta com as letras, mundo tão machista quanto o que está além.
Patrícia Melo tem duas características fortes: a inegável herança do amigo Rubem Fonseca e um jeito próprio de se mostrar autêntica. Desde Acqua Toffana ela mostra os exercícios de escrita, as inspirações e a preocupação em não se descolar da vida real.
Svetlana Alexievitch tem o dom de escrever as falas mantendo coerência e emoção. Mais ainda: o dom de fazer falar e de saber ouvir. Sempre há um soco no estômago em algum virar de página dos relatos que ela traz.
Maria Fernanda Elias Maglio foi um nome que apareceu na pilha de livros com Quem tá vivo levanta a mão. Seria mais um livro, entre bons e ruins, que chegam para serem descobertos. Que texto! Contos distintos, com personalidade, formatos próprios e… que escrita boa! A Patuá tem outros livros dela, já na pilha, mas ainda aguardando a taquicardia deste baixar.
Táscia Souza
Mariana Salomão Carrara fez por merecer todos os prêmios e indicações que recebeu. São dela os dois melhores livros que li este ano: Se Deus me chamar, não vou (2019) e Não fossem as sílabas do sábado (2022). Completamente diferentes, cada um pungente à sua maneira.
Cláudia Piñeiro, que nasceu exatamente um ano antes da minha mãe, foi a melhor surpresa no nosso módulo de estudos sobre o gênero policial na literatura latino-americana. Totalmente distante dos clichês policiais, em As viúvas da quintas-feiras o foco não está na investigação. Mas o crime mistura fofoca com análise e crítica social profunda de uma Argentina em crise.
Por falar em análise sócio-antropológica, a Elena Ferrante não poderia faltar. Não importa que poucos saibam quem ela realmente é e interessa menos ainda a opinião do Édouard Louis. A prova de que Ferrante é realmente boa é o fato de tantos homens (esses seres majoritariamente homoliterários) terem duvidado que por trás do pseudônimo havia mesmo uma mulher.
Mariana Virgílio
Para listar autoras que todos deveriam se dar a oportunidade de conhecer, eu poderia citar uma lista infinita porque felizmente somos um terreno fértil de boas histórias, mas infelizmente de também muitas tentativas de apagamento e exclusão. Por isso, decidi trazer as escritoras que mais tenho lido ou conhecido nos últimos tempos. Vivas e brasileiras.
Conceição Evaristo é, para mim, a escritora brasileira mais importante da atualidade. Inclusive foi enredo da escola de samba Império Serrano, neste ano de 2026, levando a escola ao vice-campeonato. Conceição é dona de uma escrita sensível, forte, “nua e crua”. Seu livro mais conhecido talvez seja Olhos d’água, mas minha leitura recente dela foi Ponciá Vicêncio e me arrebatou muito.
Não há uma pessoa que me conheça que não tenha me ouvido falar na Eliana Alves Cruz, porque eu sou simplesmente apaixonada em tudo que ela escreve. Com uma veia jornalística forte, todos os livros dela são fruto de muita pesquisa, sem deixar nenhuma ponta solta. Pra mim, é difícil montar um ranking, mas nesta lista deixo a indicação de Nada Digo De Ti Que Em Ti Não Veja e Meridiana - último lançamento dela.
A Mayra Sigwalt não está dentre os meus livros lidos, mas sim, na lista dos que pretendo ler em 2026. Encontrei-a pessoalmente na FLIP em 2025, sendo que muitas amigas já tinham me indicado ler o seu livro Não quero ser índio. Então, vai aqui a indicação também.
Gustavo Diolindo
Tem autoras que são quase da família, né? A gente lê, sente como se estivéssemos em uma conversa regada a vinhos e luz baixa e nos despedimos com um gostinho de quem já espera ansioso pelo próximo encontro. Não só pela história que contam, mas pela forma como escrevem, pelos personagens que criam e, principalmente, pelo modo como nos atingem sem pedir licença. Seus livros vão além da leitura, continuam conosco depois e acabamos torcendo muito pelo sucesso e reconhecimento como se fossem primas distantes. As três autoras a seguir fazem parte desse tipo raro de encontro literário: aquelas de quem eu leria até a lista de compras (e ainda ajudaria a carregar as sacolas depois).
Sim, eu sei que já indiquei um livro da Renata Belmonte na última lista dessa newsletter, mas realmente não tem como pensar em autoras vivas que me marcaram e não incluí-la. A escrita dela exige do leitor um pacto de atenção. Suas narrativas não se organizam de forma linear nem se entregam de imediato; são construídas por fragmentos, memórias, lacunas e aproximações. Há sempre um jogo entre o que é dito e o que permanece em suspenso, como se a história fosse montada aos poucos diante dos olhos de quem lê. Seus personagens costumam carregar marcas de pertencimento, de herança familiar e de identidade, explorando relações entre gerações e os efeitos do passado sobre o presente. Ler Belmonte é aceitar um percurso menos óbvio, em que o sentido se forma por acúmulo de pistas captadas ao longo das páginas, não por explicações claras ao final da leitura.
Se um livro foi tão importante a ponto de marcá-lo para sempre em minha pele, é claro que a autora se torna uma das minhas favoritas! Sally Rooney escreve sobre jovens adultos que pensam demais e sentem em excesso. Seus romances partem de relações íntimas de amizades, amores e/ou familiares para discutir desigualdade social, solidão e pertencimento. A aparente simplicidade de sua linguagem esconde diálogos sem marcação, porém carregados de tensão e silêncios cheios de significado. Os personagens de Rooney erram muito, se comunicam mal e se ferem sem perceber, como se estivessem sempre aprendendo a existir em conjunto. Sua literatura transforma o cotidiano em campo de batalha emocional, onde pequenas decisões ganham proporções profundas e acabam com a vida do leitor – eu amo!
E para não dizer que eu só indico livro pesado e que deixa a cabeça em parafuso igual o Taz-Mania, aqui vai minha autora favorita de comédias românticas. Emily Henry parte da estrutura de tramas deliciosas já conhecidas de filmes hollywoodianos para explorar escolhas de vida e reinvenção pessoal a partir de casais muito bem construídos e apaixonantes. Alguns dos meus maiores crushes literários vêm das histórias dessa diva! Seus livros brincam com encontros improváveis, diálogos afiados e situações dignas de um tropeço emocional bem calculado, mas nunca se limitam apenas ao romance em si. Por trás das trocas e das tensões amorosas, surgem personagens lidando com frustrações, expectativas e a necessidade de recomeçar. O amor é tanto motor quanto consequência de um processo de amadurecimento e rir junto dos protagonistas acaba sendo uma forma de acompanhá-los na tentativa de reorganizar a própria vida.
Maristela Meireles
Sem medo de ser clichê, minha primeira indicação no mês da mulher só poderia ser a autora do meu livro de cabeceira. Clarissa Pinkola Estés, autora de Mulheres que correm com os lobos, é uma psicóloga americana descendente de indígenas que dedicou sua carreira a estudar mitos ancestrais de diferentes culturas ao redor do mundo. Cada conto traz lições valiosas sobre o arquétipo da mulher selvagem. Suas análises nos ajudam a refletir sobre papéis de gênero determinados socialmente e a descobrir a força que habita cada uma de nós.
Minha segunda indicação é Rosa Montero, a jornalista e escritora espanhola que está sendo super comentada no Brasil, especialmente depois de seus livros aparecerem nas mãos de Odete Roitman (talvez uma tentativa de entender a filha, Heleninha, porém, malsucedida). Dela, só li O Perigo de Estar Lúcida, livro que mistura ensaio, ficção e autobiografia. Nessa obra, Rosa fala sobre os limites entre criatividade e loucura, comentando a biografia e a obra de grandes escritoras, ao mesmo tempo em que reflete sobre sua carreira literária. Um livro para quem se sente deslocada se entender e se gostar um pouco mais.
Minha terceira indicação é Luciany Aparecida, autora de um dos livros que fizeram parte da lista do “matemáticos decoloniais”, tema do nosso grupo de escrita e leitura do ano passado. A construção do cenário de Mata Doce e da personagem da Filinha Mata-Boi foram simplesmente arrebatadoras para mim. Para muito além das questões raciais trabalhadas no livro, a força dessa mulher que transita entre a delicadeza e a violência, amor e vingança, é simplesmente inspiradora.
Elena Oliveira
Leiam:
Luciany Aparecida, por causa de Mata Doce; Alina Torres Monteiro, por causa do livro O Ícone Vazio; e Karherine Arden, pela trilogia Winternigth (Noite de Inverno).
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