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Prescrita · Feb 5, 2026

Quando fevereiro chegar

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Hupokhondría · Prescrita

Táscia Souza

Talvez a literatura não tenha todas as respostas, mas tem muitas.

Estava aqui, na única noite da semana sem bloco na rua, lendo lendas brasileiras para embalar o Tito, quando Clarice Lispector, em seu livro infantojuvenil Como nasceram as estrelas, na fábula escolhida para fevereiro, trouxe a história do sapo que, às vésperas do Carnaval, pega carona escondido no violão do urubu para conseguir ir à festa no céu.

A festa no céu é, desde o início, uma festa feita para quem tem plumas, para quem tem asas, para quem já nasceu com a possibilidade de alçar voo. A música, o convite, o brilho… tudo parece naturalmente destinado aos que podem subir.

O sapo não foi convidado. E não porque não gostasse de festa, mas porque não tinha o atributo certo. Não tinha nem o corpo nem os meios adequados para ocupar aquele espaço. A exclusão não é só pressuposta; é escancarada. É assim que funciona quase sempre.

E, apesar disso, o sapo vai.

Vai não pela via da autorização, mas pela astúcia. Vai pela fresta. Vai escondido no instrumento que faz a festa existir. O violão que acompanha o urubu carrega, sem saber, aquele que não deveria estar ali. O que não voa, mas sabe pular. O que não foi pensado como público, mas se recusa a aceitar que a festa não lhe pertence.

Tanto o conto quanto o próprio Carnaval revelam com precisão como, embora eventos possam ser capturados por quem tem privilégios naturais, festas populares sobrevivem justamente porque alguém insiste em ir mesmo assim.

O carnaval, afinal, não é a festa do céu. É a festa da rua, do chão, do corpo que pula. E se, em algum momento, ela parece elevada demais, distante demais, é porque alguém se esqueceu de a quem ela pertence. E de que pular também é um jeito de chegar.

Mariana Virgílio

O despertador tocou e não o acordou, afinal, só é possível acordar quem dorme e Júnior tinha virado a noite na folia. Trabalhador compromissado, sempre atento aos horários e de pontualidade rígida. Mas era Carnaval. Ou melhor dizendo, até no Carnaval. Isso porque, mesmo nos dias de folia, mantinha o compromisso e, ao toque do despertador, já estava até de banho tomado, passando o café forte. Só o café mesmo para segurar a disposição lá em cima, comum de todos os dias.

“Gabiru trabalha cedo, cata o lixo da maré”, assim descia ele para começar o dia, não para recolher o lixo da maré, mas da folia da noite anterior. Essa era uma das poucas coisas que o deixavam revoltado no Carnaval, a falta de zelo das pessoas. Mas era festa boa, não ia se deixar estressar por isso.

— Tem gente que pensa que jogando lixo no chão vai manter o emprego do gari. Ah, “Freire, ensine um país analfabeto. Que não entendeu o manifesto da consciência social” — dizia para quem quisesse ouvir. E ia seguindo ladeira abaixo.

Na fé de “Yá, Benedita de Oliveira, mãe do Morro de Mangueira”, ia se preparando para mais um dia, sempre lembrando da avó, que dizia que “não há demanda que o povo preto não possa enfrentar”. E ele enfrentava todas mesmo, não havia cansaço maior que a alegria de celebrar uma festa tão importante. Tanta gente reunida no barracão, “é mistura de cultura, multidão de macumbeiro”, era sempre feliz ali.

Na caçamba do caminhão ia conversando com quem encontrasse, mesmo com os olhares atravessados, mesclados com os sorrisos abertos. As senhoras “donas da rua” sempre o acolhiam, riam com ele e ofereciam até café. Os homens não gostavam de papo, viam nele uma afronta, ou será uma ameaça de um padrão que não queria perder? “Olhe em mim eu tenho as marcas, me impuseram sobreviver. Os olhos da fome eram os meus, justiça dos homens, não é maior que a de Deus”.

— Ê, Juninho, sempre feliz — alguém gritava.

— Não podemos esperar “a saudade pra cantar”, dona Ana. Vamos vivendo, cantando e chorando e sorrindo.

Ria saudando sua liberdade de amar. “Independente, fácil de amar, livre de qualquer censura”. Não que isso o isentasse da dor, e a dor tinha vezes que era grande, mas não se permitia chorar mais do que poucas horas. Eles não venceriam, menos ainda no Carnaval. O “padrinho falou, cada um tem seu orí”, e que cada tal cuidassem dos seus. “Ora yê yê ô, Oxum. Kabecilê Xangô”.

Lembrava de dona Jacira, enquanto costurava no barracão, e o menino sambando feliz, sem medo de qualquer repressão, enquanto as plumas e serpentinas pulavam das máquinas das roupas. “Mestra, você me fez amar a festa, reencontrei, no mundo de imaginação memórias que você criou”. Lembrava-se de suas palavras e do dia em que, apesar de lamentar não ter controle do mundo lá fora, garantiu que dentro do barracão Júnior seria sempre o que quisesse. Realmente, “revolucionário é saber escolher os seus heróis”.

Batia o ponto no trabalho e iniciava a outra jornada, a dema festa. Mais um dia de folia em que seria “livre para ser inteiro, pois, sou Homem com H”.1

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Maristela Meireles

— Chegou o Carnaval, fujam para as montanhas!

As montanhas em Minas: tárárárárárá… tárárárárárá…

Gustavo Burla

Bell Marques, do Chiclete com Banana, deixou claro: vou te amar o ano inteiro, menos em fevereiro. No tapete de confetes e sob a abóbada de serpentina, frades e freiras se beijam, Janes e Chitas procuram seus Tarzans, elas e eles se tornam elus e amores vêm e vão e são como o vento.

Guy Debord ficaria até surpreso com o maior espetáculo da Terra, em que todo mundo tem seus cinco dias de fama (o #sextou já conta) antes de mergulhar na ressaca da quarta-feira, quando os celulares voltam a funcionar. Na música do Bell Marques tem o aviso: desliguei meu celular.

É Carnaval, é a doce ilusão, é promessa de vida no meu coração. Promessa não cumprida, porque o celular tá on. Nem tanto para telefonar, quase não serve mais para isso, mas para fotografar. A mãe dançando no calor do meio-dia no bloco com o filho nitidamente incomodado tentando dormir no colo. Um braço no filho, o outro esticado para filmar o balancê, o sorriso, a alegria daquele momento maravilhoso. Se todos fossem iguais a você, que maravilha seria viver.

Terminado o vídeo, sorriso no chão, celular no bolso, criança em outro colo, blasé total. Batuque comendo solto na praça e o resto é esperar pelos likes. Depois. Viver o presente pra quê, se ninguém te ama em fevereiro?

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Táscia Souza

“Em tempos de escancaramento das redes sociais, tem gente que quer ser encontrada no carnaval. É um tal de dizer ‘onde estou’, ‘qual é a minha fantasia’, ‘olhem como estou me divertindo’, ‘que foto bacana’. Brincar é o de menos; fundamental é que as pessoas saibam, em tempo real, que o folião está brincando. Na rua, espaço de subversão do cotidiano, a folia deveria ser o mar aberto do ébrio pirata de nau sem rumo. O carnaval, festa do ‘me esqueçam’, vira a festa do ‘me encontrem, me vejam, me curtam’. Para alguns, é a festa do ‘me patrocinem’. Sinal dos tempos e despotência da força exusíaca do babado. Sem dendê, a rua morre. Olho vivo, rapaziada.”

Preciso dizer mais nada. Pelo amor da festa: leiam Luiz Antônio Simas!

1

Nota ao leitor: todos os trechos grifados são dos samba-enredos das escolas de Samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro em 2026. Se ainda não ouviu, vale a pena conferir.

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