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HIPER-REQUADRO · May 11, 2026

20. A DOR E A DELÍCIA DE LONGAS SAGAS.

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Lucas Fazola Miguel. · HIPER-REQUADRO

Na primeira quinzena de abril, Brian K. Vaughan publicou em sua newsletter, a Exploding Giraffe, um bate-papo curtinho e muito interessante com Fiona Staples. Na conversa, a dupla criadora de SAGA fala sobre a série e também sobre outros tópicos correlacionados. É jogo rápido e vale muito a leitura.

No momento, SAGA está em hiato, pois Fiona está trabalhando em uma graphic novel própria. BKV, por sua vez, menciona estar escrevendo aquela que ele acredita que será sua última série contínua de quadrinhos, enquanto espera Fiona ficar livre para voltar a desenhar SAGA. De acordo com o roteirista, a HQ retorna com novo arco nos EUA ainda em 2026, ou seja, em 2027 teremos mais um volume da série chegando ao Brasil, provavelmente.

O ponto que mais me chamou a atenção nessa conversa, porém, está logo no começo e fala mais sobre o passado do que sobre o futuro. Ao longo do papo, a dupla comenta sobre o vindouro lançamento da quarta Deluxe Edition da série, que reúne os volumes 10-12, e discorre sobre a longevidade de SAGA.

Nesse sentido, BKV discorre sobre como o passar do tempo modifica os personagens e a forma como os próprios autores se transformam durante o avançar dos anos. Fiona se tornou mãe há um tempinho, já durante seu trabalho na HQ, e essa transformação em sua vida pessoal mudou a forma com que ela enxerga seu processo criativo.

A desenhista menciona, inclusive, que gostaria de poder redesenhar os primeiros seis volumes de SAGA a partir de suas experiências recém-adquiridas na maternidade, assimilando as referências que adquiriu no mundo real para transpor para o fantástico universo ficcional que ela e BKV criaram.

Quando Brian e Fiona começaram a trabalhar em SAGA, em idos de 2011, a filha do roteirista era ainda recém-nascida, e ele revela que tinha planos, caso a série fosse bem-sucedida, de fechar a história em 18 volumes, de modo a acompanhar a vida da personagem Hazel desde o nascimento até a chegada à idade adulta.

O que ele não poderia prever, contudo, é que SAGA seria tão longeva, e que, a julgar pelo planejamento de seus criadores de finalizar a história em 108 edições mensais – diluídas entre hiatos recorrentes –, a série acabará durando aproximadamente dezoito anos de fato, se encerrando em exatos dezoito volumes.

Parece que a série deu certo, não é mesmo?!

Era uma quinta-feira qualquer, ali por volta de 2015, quando acordei pela manhã com a campainha tocando: era o entregador trazendo uma encomenda da hoje em dia extinta FNAC Brasil.

Nela, se encontrava um encadernado de uma série então nova no mercado, já aclamada nos EUA e muito comentada na gibisfera BR: SAGA - Volume 1, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples. No boca a boca geral, havia todo aquele papo de “Romeu e Julieta + Star Wars” que todo mundo dizia quando queria explicar do que a HQ se tratava, mas eu não estava MESMO preparado pro que estava por vir.

Na edição que tinha em mãos, havia um pequeno dano na parte superior da capa, porém, eu estava ansioso demais para ler e com paciência de menos para fazer aquele protocolo chato de troca-devolução-reenvio de um novo exemplar da HQ, então resolvi sentar e pegar pra ler.

Nada mais foi como antes desde então.

SAGA virou um dos meus gibis favoritos da vida. Sempre e recusei terminantemente a ler qualquer capítulo de forma antecipada em scan, para poder sentir o frisson do ineditismo a cada novo volume físico lançado aqui no Brasil. O volume 9, que marca a metade da série, é também um dos gibis que mais me fizeram chorar ao longo de todos esses anos como leitor.

A primeira frase da primeira edição de SAGA, já Hazel atuando como narradora de sua própria vida, virou epígrafe da minha tese de doutorado.

Com o longo hiato que se seguiu após o catártico encerramento desse nono encadernado, acabei perdendo o timing de leitura que havia mantido com SAGA desde o volume 1. De acordo com os dados do excelente Guia dos Quadrinhos, o volume 9 saiu por aqui em outubro de 2019, enquanto o volume 10 chegou somente em fevereiro de 2023. Muito tempo, não é?!

Devido ao gap de anos sem novas edições, eu havia então decidido deixar acumular mais edições de SAGA para futuramente lê-las em sequência, maratonando, mas a entrevista que menciono no começo desse artigo vem martelando em minha mente e reacendeu um desejo que periodicamente me bate: revisitar os volumes iniciais da HQ e engatar na leitura dos volumes 10, 11 e 12 mesmo sem perspectiva de um encerramento para a série num futuro próximo. Começarei muito em breve.

Percebi que assim como os autores e seus personagens se transformam com os anos, eu também me transformei. Muita coisa mudou do cara que recebeu o primeiro encadernado de SAGA lá em 2015, ainda na casa dos pais, para o cara que recebeu o décimo segundo volume em seu apartamento, 11 anos depois. Me casei, graduei, mestrei e doutorei, quase morri algumas vezes, mas sobrevivi e segui em frente para contar e ler histórias. Quero reler tudo e ver como a série me impacta, tantos anos depois.

SAGA começou a ser publicada pela Image Comics no começo de 2012. De lá pra cá, tanta coisa aconteceu no mundo que nem dá pra começar a listar. Tanta gente nasceu e morreu desde então. Muitas pessoas não estarão mais aqui e não conseguirão acompanhar o encerramento da história de Hazel, quando BKV e Fiona Staples enfim fecharem a última página do 108º capítulo de SAGA. É, a vida acontece, mas a morte também. O tempo é implacável.

Assim, diante das inúmeras imprevisibilidades às quais estamos sujeitos no decorrer da vida, concluí que ficar esperando o encerramento de uma série longa para só então lê-la é uma bobagem sem tamanho, e não quero tornar a repetir esse erro, nem com SAGA nem com nenhuma outra série que porventura me interesse.

Em tempos tão corridos como os atuais, dominados que somos pela ansiedade e pela correria do dia a dia, quando tudo é pra ontem e queremos tudo de imediato, esperar os capítulos novos de uma HQ interessante é até mesmo uma forma bacana de exercitar a paciência.

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Oi! Tudo bem? Me chamo Lucas Fazola Miguel e sou pesquisador de Histórias em Quadrinhos.

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Te vejo no próximo post.

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