Na última semana, falei longamente sobre O Imortal Hulk e também discuti alguns aspectos característicos do gênero de super-heróis, que se mantém há tantas décadas com uma macronarrativa longeva e contínua.
Pelas mesmas razões, o gênero cativa seus leitores antigos e fiéis, mas afasta potenciais novos leitores diariamente.
Mas o que acontece quando o leitor assíduo de super-heróis quer dar um tempo deles, ou mesmo expandir seus horizontes gibizísticos? Que tipo de HQ pode satisfazê-lo nessas “horas vagas”? E o potencial novo leitor de gibis, que não curte supers de jeito nenhum, mas quer conhecer mais sobre Histórias em Quadrinhos?
Tendo isso em mente, resolvi trazer no artigo dessa semana uma pequena lista com dez indicações de gibis que servem tanto para quem quer fazer um detox de Marvel e DC quanto para quem quer começar a ler mais Quadrinhos.
Gosto muito de receber e dar indicações de gibis, pois dessas trocas de sugestões sempre podemos encontrar preciosidades que por algum motivo fugiram de nossos olhares num primeiro momento. Vamos lá?!
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Se você acompanha essa newsletter há um certo tempo, já sabe que sou devoto de Ed Brubaker e Sean Phillips. Desse modo, seria redundante ficar aqui repetindo os elogios que já tantas vezes fiz sobre o trabalho da dupla em seus gibis autorais.
Em The Fade Out, publicado no Brasil pela Editora Mino e traduzido por Dandara Palankof, um roteirista frustrado se vê envolvido na morte de uma atriz e precisa descobrir o que aconteceu antes que seja responsabilizado por esse crime.
Brubaker e Phillips trabalham com a histeria anticomunista que dominou os EUA pós-segunda guerra mundial, espiralando os acontecimentos em um grande efeito cascata numa Hollywood permeada pela corrupção e pela ambição.
Considero esse gibi uma boa indicação por causar menos estranhamento ao leitor de supers, até mesmo estilisticamente, já que ainda se mantém dentro do padrão da cena estadunidense e é feito por dois autores com lastro nos gibis de Marvel e DC, o que os torna familiares para quem só lê HQs desse gênero.
É um bom desmame, por assim dizer.
Há algo de incrível no trabalho de Marcello Quintanilha, que salta aos olhos desde seus primeiros álbuns: a facilidade com a qual ele consegue representar a realidade cotidiana do brasileiro.
Em Sábado dos meus amores, tal característica se evidencia sobremaneira, através dos seis contos que compõem o formato antológico dessa premiada HQ publicada pela Conrad (e depois republicado pela Veneta na antologia Alimenta estes olhos) e que é essencial para a compreensão das mazelas e contradições que forjam o tecido social do Brasil, um espelho que mostra facetas do país que por vezes são apagadas e silenciadas pelos discursos hegemônicos.
O olhar apurado de Quintanilha atravessa as décadas e a extensão territorial nacional para entregar histórias ambientadas nos mais diferentes cantos do Brasil, sem perder de vista o foco na vivência do cidadão comum, pertencente em sua maioria às classes periféricas.
A narrativa visual de Quintanilha aposta em um traço realista, refinado, firme e potencializado pelo virtuoso uso de aquarela na colorização. Dono de um apurado senso estético, o autor dialoga com o neorrealismo italiano e com a ficção brasileira contemporânea, exibindo um poder de síntese e de crítica social não só brilhante como necessário.
Indicar Quintanilha é uma tarefa fácil, pois seus trabalhos são de leitura fácil e identificação instantânea. Sabe a chamada “bola de segurança”? Pois é…
No dia em que completa meio século de vida, o melancólico arquiteto e professor Asterios Polyp vê sua casa pegar fogo. Desnorteado pelo ocorrido, ele parte sem rumo e sem destino, sem saber direito o que esperar dali pra frente.
Nessa jornada insólita, Asterios entra em uma típica crise de meia idade, refletindo sobre sua vida e suas escolhas, enquanto parte rumo ao interior, experimentando uma faceta da vida que ainda não conhecia.
Publicado pelo selo Quadrinhos na Cia, da Cia das Letras, e traduzido por Daniel Pellizzari, Asterios Polyp é a obra-prima de David Mazzucchelli, que boa parte dos leitores de Marvel e DC provavelmente conhecem dos trabalhos em Demolidor e Batman.
Dispondo de uma estrutura narrativa não linear e fragmentária, narrada pelo gêmeo natimorto do protagonista, Mazzucchelli vai e volta entre o passado e o presente da história para mostrar o já taciturno Asterios em contraponto à sua vivacidade e soberba típicas da juventude.
Mazzucchelli explora as possibilidades que a narrativa gráfica lhe confere, trabalhando ângulos, estilos e composições de cena num jogo de sofisticadas metáforas verbo-visuais, entregando uma obra inventiva, dramaticamente equilibrada e tecnicamente brilhante.
Sabe o tipo de HQ que ao final te dá aquela sensação de “valeu a pena gastar meu tempo lendo isso aqui”? Asterios Polyp é exatamente esse tipo de gibi.
Emílio levava uma vida pacata como gerente de banco, criando seus filhos e atendendo seus clientes, enquanto via o tempo passar. Tudo ia bem, até o momento em que o tempo deixou de correr e passou a se repetir na mente de Emílio.
Atingido pelo Alzheimer, ele é levado por seus familiares a um asilo para passar seus últimos anos, e nesse lugar procura encontrar um novo jeito de viver, conhecendo outros idosos e descobrindo histórias que o tempo, sempre ele, insiste em apagar.
Junto de seu companheiro de quarto Miguel, Emílio precisa lidar com a aceitação do passar do tempo, com a chegada da velhice e o iminente fim da vida, buscando sentido para o que lhe resta de tempo, ressignificando sua visão de mundo no processo.
Em Rugas, publicada pela Devir e traduzida por Marquito Maia, o quadrinista espanhol Paco Roca apresenta uma HQ inspirada e carregada de sentimento sobre vida, morte, envelhecimento e o passar do tempo.
É um gibi de leitura bem tranquila, tão bonita quanto pungente, daquelas que te deixam a pensar durante um bom tempo.
Dois soldados entram em um bunker para fugir desesperadamente da guerra. Um deles está ferido, enquanto o outro tenta sucessivamente contato com o mundo exterior. Confinados e desprendidos de qualquer referência de tempo, espaço ou algo que o valha, esses dois homens encaram uma experiência claustrofóbica, intensa e transformadora, levados a encarar o "real" sob um novo prisma.
Em Sob o solo, Bianca Pinheiro e Greg Stella desenvolvem um thriller psicológico minimalista, apostando em uma narrativa perturbadora e intimista. Sem maiores informações, somos apresentados a personagens feitos de palitinhos, sem rosto e visualmente bidimensionais, numa estrutura de painéis que oscila na diagramação de modo a conduzir, de forma ritmada, o fluxo narrativo.
A escolha por um aspecto visual genérico para os personagens se mostra acertada na medida em que essa artimanha permite que o tom alegórico do roteiro se imponha em meio ao entrelaçamento soberbamente realizado pela dupla de autores. Por trás da aparente simplicidade se esconde uma história pesada, densa e que aos poucos se descortina de modo visceral, mesmo sob uma representação visual tão econômica quanto brilhante.
Essa HQ é boa demais e deveria ser mais conhecida, sobretudo por mostrar o quão rico de possibilidades é o quadrinho nacional.
Em Intrusos, HQ publicada pela Nemo e traduzida pelo Érico Assis, o multipremiado quadrinista norte-americano Adrian Tomine apresenta uma série de contos independentes entre si, mostrando diferentes facetas do cotidiano norte-americano.
Alternando as histórias, Tomine modifica também o estilo de sua arte a cada conto, ainda que seu desenho penda para uma óbvia influência da linha clara franco-belga e do indie noventista norte-americano, apresentando clareza, limpidez e dinamismo como elementos basilares de sua narrativa visual.
Muito do que o autor quer dizer não se encontra verbalizado na superfície de cada conto, de modo que cabe ao leitor a tarefa de encarar a narrativa visual e identificar os subtextos que seu belo traço esconde. Em comum, os contos possuem a mesma sensação de angústia e de inadequação, um sentimento de desacerto com o mundo e com a própria existência diante das intempéries da vida.
Tomine apresenta nesse gibi uma série de contos episódicos que dialogam sobremaneira com o asfixiante sentimento de frustração que paira sobre toda uma geração, em contraponto com o conformismo que nos leva a seguir em frente mesmo diante do inexorável peso da realidade que se impõe sobre nós todos os dias.
Há dias em que tudo que precisamos é ler um gibi rápido e rasteiro, daqueles que se lê numa sentada, na fila do banco ou na sala de espera do consultório médico, e agrada de imediato.
Após a morte de seu primogênito, a matriarca Regina Segal retorna à Polônia junto de sua neta, Mica, para recuperar uma propriedade de sua família, perdida décadas antes, durante a Segunda Guerra Mundial.
Na medida em que ambas conhecem a Varsóvia do pós-guerra, Regina se depara com memórias dolorosas de seu passado, enquanto Mica descobre que a história de sua família não é bem como ela imagina.
Em A propriedade, HQ publicada pela WMF Martins Fontes e traduzida por Marcelo Brandão Cipolla, a quadrinista israelense Rutu Modan narra um conto sobre amores perdidos, histórias marcadas pela intolerância e pela guerra, por meio de um roteiro elíptico e intrincado, que subverte expectativas a cada virada de páginas. Através de diversas camadas de complexidade, Modan trabalha de forma perspicaz tanto a personalidade irascível de Regina quanto a resiliência de Mica.
A propriedade conduz o leitor, com elegância e sutileza, por uma jornada permeada de amores mal resolvidos e segredos de família, numa cativante dramédia familiar brilhantemente quadrinizada.
A adoção é uma HQ conduzida por olhares, e é através deles que se chega à chave de leitura que desvela os pequenos mistérios ali contidos, evidenciando a sutileza e o brilhantismo dos autores, do início ao desenlace da trama de amadurecimento e aceitação protagonizada pelo rabugento francês Gabriel e sua neta adotiva, a peruana Qinaya.
Família e paternidade são os eixos centrais dessa história, que investe em um encontro certeiro do desenho fluido e dinâmico de Arno Monin com a prosa concisa e inspirada de Zidrou. Há nessa HQ um nível de sincronicidade entre os eixos verbais e visuais que seu charme e frescor transcendem o caráter emocional da trama, se sustentando também em relação ao grau de sofisticação da narrativa gráfica ali empreendida.
A arte de Monin ressoa a um encontro entre Studio Ghibli, Jordi Lafebre e Juanjo Guarnido, tanto no que se refere ao potente uso de cores quanto à singeleza e expressividade do traço, seja na ambientação ou mesmo na construção de personagens. Há vida saltando dos requadros dessa HQ.
Zidrou, como de costume, segue como um alquimista das palavras e diz muito com pouco, criando rimas poéticas que entrelaçam pontas e costuram um tecido narrativo consistente, familiar e real, ainda que demasiado otimista às vezes.
Publicada pela Editora Nemo e traduzida por Renata Silveira, A adoção é daqueles gibis que aquecem o coração, por apresentarem uma reconfortante história de família e escancarar as imperfeições das pessoas e das relações ao reafirmar a força do amor enquanto agente transformador de nossas vidas.
Clichê? Com certeza, mas quando funciona tão bem, quem liga?
Em Pílulas Azuis, publicada pela Editora Nemo e traduzida por Fernando Scheibe, Frederik Peeters apresenta sua história de amor particular, abre o coração e traduz todo o misto de emoções que viveu ao se envolver com sua esposa, então mãe solo e soropositiva, encarando os olhares e julgamentos de uma sociedade preconceituosa.
Desse modo, aspectos psicológicos são colocados na mesa, com destaque para os momentos de incerteza, os sustos, aprendizados e subsequente amadurecimento que uma relação tão testada pela vida poderia acarretar. A humanidade contida no relato do autor cativa e impacta pela naturalidade com a qual ele percorre os momentos dolorosos e desafiadores pelos quais o casal teve de passar até conseguirem ter paz e tranquilidade para viverem seu amor em plenitude.
Com uma narrativa visual fluida e bem estruturada, aliada a uma escrita tão imersiva e densa quanto intimista, o quadrinista suíço se expõe diante do leitor, reafirmando a força que solidificou seu casamento. O encantamento de um com o outro fica evidente no passar das páginas, criando uma atmosfera calorosa e familiar para o enredo.
Esse é o tipo de gibi que emociona, encanta e inspira. Se você estiver procurando uma HQ para dar de presente para alguém que não lê quadrinhos, essa talvez seja a melhor indicação possível.
Em Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias, HQ publicada pela Pipoca & Nanquim, Jefferson Costa concebe um tocante relato sobre a história de sua família, tecendo uma narrativa de resistência, ancestralidade e respeito, ambientada no interior do Nordeste do Brasil.
Perpassando sonhos, medos, alegrias e frustrações, Jefferson tece uma colcha de retalhos a partir das memórias de seus antepassados, homenageando vivências que o antecederam e o permitiram ser quem hoje é. Ao esmiuçar a vida de seus antepassados, Jefferson evoca um Brasil que hoje em dia poucos se lembram (ou querem lembrar), um país ainda em busca da industrialização, desigual, – ainda mais – pobre e com muitos dos seus vivendo à própria sorte.
Com uma narrativa poética, repleta de simbolismos e rimas visuais poderosíssimas, Jefferson Costa investe na força da prosa regionalista, concebendo diálogos ágeis e repletos de marcas de oralidade, gerando fluidez e organicidade para sua trama.
Nesse gibi, Jefferson estreia como roteirista, mantém seu estilo característico de narrativa visual, compondo painéis belíssimos e fazendo uso das cores e da diagramação inventiva para alternar o enfoque narrativo. O resultado é uma HQ paradigmática, magistral e emocionante, daquelas que serão estudadas e apreciadas durante muitos e muitos anos.
Como bem sabemos, toda lista fala tanto do que entra quanto do que fica de fora, e não dá pra se pretender absoluto com listagem alguma. Essas são apenas dez HQs que escolhi, a partir de diferentes critérios, para trazer opções de leitura a quem estiver interessado em fugir das majors.
Você deve ter reparado que não trouxe nenhum gibi que integre uma série, escolhendo HQs fechadas, e também optei por buscar autores de diferentes origens, geográficas, raciais e de gêneros distintos, para tentar oferecer um leque diversificado e o mais abrangente possível,
O bacana é saber que ainda há muito território inexplorado lá fora, gibis dos mais diferentes gêneros e estilos, somente a espera de serem descobertos.
Mas diga aí, qual seria a sua lista de indicações? Deixe nos comentários desse artigo!
Oi! Tudo bem? Me chamo Lucas Fazola Miguel e sou pesquisador de Histórias em Quadrinhos.
Esse foi o texto de hoje da HIPER-REQUADRO, uma newsletter para se ler nas horas vagas e, sobretudo, nas pagas!
Deixe seu like, comente suas impressões e, se possível, compartilhe na bolha gibizeira em que você habita.
Te vejo no próximo post.
Até a próxima!
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