Na última semana, o ReadComicsOnline, a Biblioteca de Alexandria dos gibis norte-americanos, caiu.
Com ele, sumiu da rede do dia pra noite um acervo gigantesco de quadrinhos que não estão disponíveis em nenhum outro lugar, em nenhum outro formato, físico ou digital, bem como todo o arcabouço de gibis atualmente em publicação nos EUA.
No momento em que esse artigo foi redigido, o site voltou ao ar, após quase uma semana off, mas não é possível garantir que ele continuará funcionando por muito tempo.
De qualquer modo, esse breve período de ausência trouxe à baila um assunto que muita gente na gibisfera foge de debater de forma sincera: a pirataria. A disponibilidade de gibis pirateados nas redes não surgiu ontem, é um fato de conhecimento público e até mesmo quadrinistas já recorreram ao site em questão para apresentarem páginas de seus trabalhos nos debates on-line com a comunidade de leitores.
A pirataria de gibis é o elefante na sala da gibisfera global, e muita gente não consegue – ou não quer – tratar do assunto de forma ampla e aprofundada, sem falso moralismo. Curiosamente, coube a um profissional da indústria, o quadrinista indiano Ram V, apresentar aquele que considero o melhor posicionamento possível sobre o tema.
Ram V@therightram
Ha, the comic book piracy discourse has made it to my doorstep. Was discussing with a comics-adjacent friend who wanted my thoughts on piracy in comics. Specifically mine. And weirdly, though I have thought about it. I'd never articulated up until today. But first...
6:59 PM · May 12, 2026 · 213K Visualizações
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Caso você não tenha uma conta no Twitter, dá pra ler a thread inteira escrita pelo quadrinista por aqui. Se estiver utilizando o navegador e não consiga ler em inglês, dá para clicar na opção de traduzir os tweets.
P.s.: É válido ressaltar que a discussão tratada aqui refere-se ao caso dos gibis das editoras grandonas do mercado estadunidense e não de quem pirateia gibis nacionais e/ou de baixa circulação. Piratear quadrinista independente e editora nacional é golpe baixo, não é a mesma coisa que fazê-lo com megacorporação bilionária. Tome vergonha na cara!
Autor de HQs como The Many Deaths of Laila Starr e Rare Flavours, além de escrever uma série de gibis para DC e Marvel, como The Swamp Thing, New Gods e Venom, Ram V discorre nessa thread sobre suas origens, sua formação como leitor e quadrinista para então incidir o olhar sobre a natureza caótica da cultura de gibis, destacando a origem contracultural e disruptiva do meio, para então fazer um contraponto entre os problemas da indústria dos quadrinhos com a pirataria e a forma com que esta trata os quadrinistas, que são a mão de obra que sustenta esse prédio em pé.
É interessante pontuarmos aqui que nos dias que se seguiram, surgiram reações extremadas aos tweets de Ram V. Muitos estadunidenses reagiram negativamente, com argumentos do tipo “se quer ler é só comprar” ou “se não tem dinheiro pra pagar, não leia”, enquanto leitores de outros países saudaram suas declarações e o trataram como um ícone pró-pirataria.
Essa distinção de visões não é por acaso, há questões geopolíticas diretamente relacionadas à forma com que públicos tão distintos enxergam uma mesma argumentação.
Ram V, é oriundo de um país de terceiro mundo e, como tal, sabe que a vida real não funciona sob diretrizes tão maniqueístas, que a dinâmica basilar do capitalismo não consegue dar conta das particularidades de cada ponto do globo e que há tons de cinza bem evidentes quando tratamos desse assunto.
É interessante quando ele pontua que a pirataria não é boa ou ruim, ela apenas é.
Ela existe, faz parte do sistema tal como está posto e não pode ser vista nem como a heroína de leitores sem dinheiro nem como a vilã que tira grana das editoras. Não somente. Existem diversos ângulos que podemos observar ao tratarmos dessa questão, e considero que o pior possível é o que reside nos absolutos.
O leitor mais assíduo de gibis sabe que semanalmente saem centenas de novas single issues no mercado estadunidense. Assim, nas quartas-feiras, as comic shops de lá são invadidas por novas edições de séries dos mais diferentes segmentos, para além de Marvel e DC, a preços que não atingem os dois dígitos em dólares.
É um sistema que funciona há décadas, com alguns avanços em novas práticas aqui e acolá (vide a consolidação dos TPBs nas lojas virtuais ao longo da última década), mas mantendo uma estrutura já cristalizada e difundida de um mercado plenamente solidificado e desenvolvido durante décadas a fio. A realidade deles em nada se compara com a dos demais mercados do planeta.
No mesmo dia em que novos quadrinhos chegam às comic shops por lá, determinados sites de lá são alimentados com esses mesmos gibis, sendo acessados por milhares de leitores mundo afora.
E assim, a roda gira, com mais gente descobrindo HQs que de outro modo não conheceriam, seja por restrições orçamentárias ou mesmo falta de interesse em pagar pra ver. Muitos retornam a esses quadrinhos somente por meio de sites piratas, mas muitos passam a se tornar leitores consumidores dentro das vias legais.
O start, contudo, por vezes se dá a partir desse movimento fora das regras.
Aqui no Brasil, tal como na Índia de Ram V, a existência de comic shops não é tão comum. Compro quadrinhos há uns 25 anos e a única loja do tipo que conheci aqui em Juiz de Fora fechou as portas há 4 anos. Desde então, não soube de nenhuma outra a surgir nas redondezas.
Segundo o Smartscrapers, existem cerca de 265 lojas físicas de quadrinhos no país, e quase metade delas se encontram em São Paulo. O país tem mais de 5500 cidades. Considerando as dimensões continentais do Brasil, não é preciso ser um gênio pra perceber que esse quantitativo de lojas não poderia dar conta de cobrir toda a extensão territorial do país.
Algumas editoras e comic shops até vendem suas HQs diretamente, mas o custo do frete pode por vezes igualar o valor do gibi em questão, dependendo do local de entrega pretendido. Assim, o leitor de quadrinhos no Brasil dificilmente consegue fugir da Amazon e sua já consolidada rede de distribuição como principal via de acesso legal a gibis.
Morando na Zona da Mata mineira, ao longo da infância e adolescência, comprei meus gibis em bancas de jornal. O diálogo com o jornaleiro era crucial para garantir que no mês seguinte a edição que eu queria seria disponibilizada ali. Eu não fazia ideia de quantos % do leque de quadrinhos disponíveis da época chegavam às prateleiras da banca. Nem sabia que existia um mercado possível para tal, só via Marvel, DC e mangás rivalizando com Turma da Mônica e Disney no canto reservado para gibis, e olhe lá.
A chegada das lojas virtuais foi crucial para expandir meu leque de acesso a quadrinhos diversos, pois passei a conhecer a uma gama de HQs que não encontrava nas bancas da minha cidade e nem fazia ideia que existiam. Saraiva, Fnac, Cultura e Amazon foram fundamentais para a expansão de meus horizontes de sensibilidade enquanto leitor, assim como o foram, admito, alguns sites que disponibilizavam gibis piratas.
(Nesse insight, passo a pensar: eu teria me tornado o pesquisador que me tornei sem esse tipo de acesso? Jamais saberei…)
Essa realidade que relatei aqui é semelhante à de muitos outros leitores espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Possivelmente, a sua também não foge muito desse caminho. Na falta de acesso a comic shops ou mesmo a bancas de jornal e/ou lojas on-line, qual seria o outro meio que uma boa parte de leitores poderia recorrer para acessar os gibis se não existissem sites como o ReadComicsOnline?
Atire a primeira pedra aquele que em algum momento não recorreu a esse método, diante da impossibilidade de ler algum gibi que queria muito e não tinha como adquirir. Não há como lidar com o problema fingindo que ele não existe e não soluciona certas demandas, ainda que por vias não ideais.
É fácil dizer “é só pagar” quando temos disponibilidade financeira para tal. Quando era estudante, mal tinha dinheiro pra tirar xerox diariamente ou comprar o lanche do dia, como poderia enfiar gibis em um orçamento tão paupérrimo?
O tempo passou, a vida aconteceu, comecei a trabalhar e isso me permitiu manter um volume considerável de gibis em casa, mas não consigo esquecer de quando tudo era mais difícil e eu era só um estudante querendo conhecer mais, aprender mais, mesmo sem ter condições para custear esse desejo.
É por ter essa autoconsciência que não me sinto bem de pensar que tem gente que queria ler gibis e não consegue pagar por isso. Por razões assim que considero o tema uma zona acinzentada, tendo claro em mente as implicações levantadas por cada lado dessa balança.
Também por isso fiquei muito satisfeito com o lançamento do MEC Livros, que mencionei aqui:
18. A IMORTALIDADE DAS HISTÓRIAS E DOS HULKS...
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Apr 27
A última semana se iniciou com o feriado de Tiradentes e isso desregulou meu cronograma por aqui. Com isso, resolvi trazer no artigo de hoje um papo um pouco mais longo que o usual. Vem comigo que você vai entender!
Como disse alguns parágrafos acima, tem gente que diz que a pirataria funciona como uma porta de acesso aos gibis, assim como tem uma galera que alega utilizá-la como um filtro antes de se decidir sobre quais gibis comprar – na impossibilidade de comprar todos os quadrinhos desejados –. De igual modo, há sempre uma parcela de pessoas que diz que jamais irá pagar para ler HQs. Cada um tem um grau de envolvimento e de linha ética, afinal.
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Diante disso, o que as editoras precisam fazer? Tentar extirpar a pirataria do jogo ou utilizá-la a seu serviço, sabendo que nem todos poderão comprar todos os gibis que estão sendo disponibilizados, considerando daí fisgar potenciais compradores?
Nesse sentido, como as editoras podem subverter a subversão a seu favor sem estimular o consumo ilegal, desvalorizando seu próprio produto? Talvez seja o caso de fazer vista grossa e fingir que eles não existem, ao menos enquanto servirem de algum modo para a difusão dos gibis e dos profissionais envolvidos?
Sem ter em mãos dados que legitimem uma argumentação bem embasada, não me considero apto a sugerir qualquer solução para esse dilema e por isso apenas especulo. Ram V, por sua vez, me parece ter mais acesso aos números de vendas, acessos e valores pagos do que qualquer um de nós que está fora desse jogo, por isso considero pertinente saber o que ele tem a dizer.
O posicionamento dele é interessante sobretudo por trazer a perspectiva de um quadrinista apaixonado pelo meio que assume preferir o lado dos leitores a defender o interesse das editoras, mesmo sabendo que, dentro da ética de mercado, essa não é a postura mais aconselhável a se tomar.
O ponto-chave na fala do quadrinista indiano é: antes de se ver como um profissional, ele se vê como um leitor, e como tal, prefere torcer para que mais pessoas leiam gibis do que pensar nos lucros e dividendos das editoras.
Ram V chega a mencionar, inclusive, que muitos de seus quadrinhos autorais foram pirateados e isso ajudou a divulgar seu nome entre o público, aumentando seus ganhos de modo incidental, dado que mais leitores passaram a comprar seus gibis após lê-los de forma pirateada.
Certamente existem os profissionais da indústria que não enxergam essa dinâmica de forças da mesma forma, e que, se questionados, sairão em defesa das editoras e se posicionarão contra quem está acessando seus trabalhos de forma ilegal. Convenhamos, não dá pra dizer que esses profissionais estão errados em seus posicionamentos né?!
Dito isso, em pleno 2026, não dá mais para fingirmos que a pirataria não está presente, de uma forma ou de outra, na comunidade gibizeira de modo geral. Não será demonizando-a que os problemas da indústria serão solucionados, então é preciso que o assunto seja discutido de forma mais realista e menos idealista, tanto para um lado quanto para o outro.
Se você leu o artigo da semana passada, sabe que comecei a releitura de SAGA, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples. O gibi é ainda melhor do que eu me lembrava. O capítulo um, equivalente aos “episódios piloto” das séries televisivas, reúne tudo que faz dessa HQ sucesso de público e crítica há tantos anos.
Dei uma passada na casa dos meus pais, onde se encontra boa parte da minha biblioteca que não coube no meu apartamento, e peguei alguns encadernados Marvel que estavam por lá e que eu ainda não havia lido, como a fase de Mark Waid escrevendo o Doutor Estranho e algumas mensais do Homem-Aranha ainda de quando ele era escrito pelo Nick Spencer. Intercalar esses gibis com SAGA é o tipo de relação que só beneficia a HQ da Image.
Tô uns cinco anos atrasado e quero ficar em dia pra poder reclamar com propriedade dos rumos que a editora vem dando pro meu personagem favorito, então não vejo a hora de finalizar a fase do Spencer, pra ler a do Wells e então acompanhar a fase escrita pelo Joe Kelly. A fase do Waid escrevendo o Doutor Estranho é esquecível, só vale pelo primeiro e pelo último encadernados, por isso não me espanto em saber que os próximos encadernados são os que contam a morte do personagem. Deixei estes na estante esperando, daqui uns dias sento e leio.
Vi muita gente odiando o segundo arco de Jason Aaron á frente de Absolute Superman, mas não entendi bem o que motivou a galera a reclamar tanto. Tenho lido uma single issue aqui e outra acolá quando sobra um tempinho, cheguei na edição 11 e até aqui gostei bastante da abordagem proposta pelo roteirista. Não tá no meu Top3 de favoritos da linha Absolute, mas ainda considero um bom gibi.
Oi! Tudo bem? Me chamo Lucas Fazola Miguel e sou pesquisador de Histórias em Quadrinhos.
Esse foi o texto de hoje da HIPER-REQUADRO, uma newsletter para se ler nas horas vagas e, sobretudo, nas pagas!
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Te vejo no próximo post.
Até a próxima!
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