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HIPER-REQUADRO · Apr 27, 2026

18. A IMORTALIDADE DAS HISTÓRIAS E DOS HULKS...

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Lucas Fazola Miguel. · HIPER-REQUADRO

A última semana se iniciou com o feriado de Tiradentes e isso desregulou meu cronograma por aqui. Com isso, resolvi trazer no artigo de hoje um papo um pouco mais longo que o usual. Vem comigo que você vai entender!

Nas últimas duas semanas, retomei a leitura de O Imortal Hulk, de Al Ewing, Joe Bennett e cia limitada, após mais de três anos de interrupção. Por qual razão fiquei tanto tempo com essa leitura em hiato? É, eu sei, tem algumas decisões que eu tomo como leitor e também não entendo.

Duas semanas e oito encadernados depois, cheguei ao apoteótico clímax da saga do Golias Esmeralda em batalha contra seus muitos inimigos internos e externos. Quando a imortalidade é tida como âncora de uma existência atribulada, o Hulk passa a enfrentar problemas surpreendentemente bem maiores do que vida ou morte.

Ao longo dessa fase, Ewing e Bennett revisitam vilões icônicos e passagens mais e menos obscuras do passado de Banner para construírem uma jornada intrincada e intimista dentro da mente de seu atormentado protagonista.

Séries mensais podem funcionar de diferentes formas, ora mais episódicas, ora mais contínuas. As melhores, contudo, conseguem intercalar esses aspectos e trazer continuidade mesmo em capítulos aparentemente fechados em si, bem como conseguem trazer histórias bem contadas mesmo em capítulos que compõem uma parte do todo diegético.

O equilíbrio entre progressão narrativa e digressão é algo que poucas HQs conseguem manter, sobretudo em fases longas.

O Imortal Hulk é uma dessas séries. Ao longo de suas cinquenta edições mensais (além de alguns especiais publicados aqui e ali no decorrer da publicação regular), Ewing e Bennett conseguem estabelecer uma narrativa macro que demanda a continuidade para adquirir sentido amplo, mas não deixam de lado pequenas doses episódicas que dão respiro para o leitor enquanto se estabelecem muito bem também a partir de sua individualidade.

É interessante a forma como o tormento de Bruce Banner é bem calculado em cena pela equipe criativa, dada a consciência deste acerca de sua condição dicotômica em relação ao seu monstruoso alter ego: Bruce vive durante os dias, mas as noites pertencem ao Hulk.

Essa dualidade é bem traduzida desde as primeiras páginas da primeira edição da série, e é devidamente trabalhada e ressignificada com o avançar da história, sobretudo através das estratégias discursivas que a equipe criativa lança mão para conectar o público com a trama.

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A figura da jornalista Jackie McGee funciona como o elo entre o leitor e a trama, atuando como fio condutor da narrativa desde as primeiras edições e conectando os eixos da trama de diferentes maneiras. Seu trauma de infância com o Hulk reverbera os dilemas pelos quais o próprio grandão passa ao tentar se entender e se situar no mundo.

Curiosamente, a jornalista é levemente inspirada em Jack McGee, personagem da série de televisão do Hulk dos anos 1970. O mesmo ocorre com outros coadjuvantes, como Del Frye e Charlene McGowan. Voltaremos nesse tópico daqui a alguns parágrafos.

Ao longo de cinquenta capítulos, Ewing aborda personagens como o Abominável, o Líder, Sasquatch, os Alienígenas, Dr. Samson, Betty Ross, Brian Banner, Mulher-Hulk e demais esteios do Universo Marvel, como os Vingadores e o Quarteto Fantástico, de forma orgânica e coerente dentro de seu percurso narrativo.

Todas essas peças são dispostas sobre o tabuleiro na concepção de uma narrativa macro que aborda a psique de Banner ao mesmo tempo em que discute o que o Hulk significa para si e para o mundo, indo do universal ao particular, do terror ao épico super-heróico com pitadas de drama familiar de alto calibre.

De igual modo, é discutido na HQ o efeito que a existência de alguém como o Hulk causa na sociedade, a partir da forma como seus atos são lidos e repercutidos entre a população. Dessa maneira, Ewing traça uma analogia para denunciar como os grandes conglomerados agem como ventríloquos e mexem seus pauzinhos para controlar os rumos da civilização a partir da manipulação de informações e algoritmos em um mundo cada vez mais hiperconectado.

Assim, acompanhamos a jornada tortuosa de Banner, que sai de presa para caçador, se torna um ícone revolucionário para a juventude ao desafiar as Big Techs, até se ver refém de inimigos íntimos em meio às artimanhas de Samuel Sterns em seu subconsciente, travando uma batalha eterna contra Aquele Que Está Abaixo.

É interessante o contraste entre escala e tom que vemos nessa HQ. A grandiosidade dos conflitos e do alcance de cada batalha travada no decurso da história se choca de forma contundente com a potência dos momentos mais intimistas e mais emocionais da trama. A maior força de O Imortal Hulk reside na densidade psicológica de seus protagonistas e coadjuvantes, dispostos sempre de forma crua e visceral em cena.

A sacada do roteirista de abordar profundamente o Transtorno Dissociativo de Identidade como base para explicar as diversas variações de personalidade de Banner e do Hulk ao longo dos anos é de uma perspicácia rara. Assim, ele parte de um plot já trabalhado anteriormente por Bill Mantlo (cof, cof, Barry Windsor-Smith!) e Peter David, mas refinando-o ao trabalhar essa condição com maior precisão e coerência frente às informações que possuímos na contemporaneidade.

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É esse recurso que permite a amarração de anos e anos de uma cronologia vasta e tão diversificada em abordagens, ao mesmo tempo em que possibilita um olhar mais profundo para os traumas de Bruce desde a infância.

É uma fase espetacular, daquelas que marcam época e merecem ser revisitadas de tempos em tempos. O sexto volume, Manifesto Banner, funciona quase como Lições de Anatomia se situa para A Saga do Monstro do Pântano de Alan Moore, dada a forma com que a trama passa por uma guinada radical em termos de tonalidades e consegue capturar o zeitgeist da década, imersos como estamos na chamada era da pós-verdade.

Se Ewing está em alta conta nessa saga, dá para dizer que Bennett o acompanha em grande estilo na empreitada. O trabalho de composições de páginas e a narrativa visual engrandecem a série, potencializando suas camadas e dando o ar épico que o enredo requer, seja em planos mais abertos e épicos ou em sequências mais fechadas e intimistas. Não dá para imaginar O Imortal Hulk tendo o mesmo sucesso narrativo sem a contribuição do brasileiro, que posteriormente se envolveu em problemas externos e foi desligado da editora.

É válido destacar que o desenhista brasileiro foi acompanhado de gente muito competente na arte-final e na colorização, como Ruy José, Belardino Brabo, Marc Deering, Mark Morales e Paul Mounts. A sincronia da equipe criativa foi tão grande que a série rapidamente adquiriu identidade própria, se consolidando como o grande gibi de super-heróis de seu tempo.

É, realmente eu nunca vou entender o que me deu na cabeça ao ter interrompido a leitura dessa série lá atrás, após os três primeiros volumes. Enfim, que bom que deu tempo de correr atrás do prejuízo e finalmente dar cabo das edições seguintes!

As edições nacionais de O Imortal Hulk contam com a tradução de Leo “Kitsune” Camargo e Diogo Prado (este somente no último volume). A série toda é composta por 11 encadernados, sendo os 10 primeiros a reunião das cinquenta edições mensais, enquanto o décimo primeiro traz um compilado de histórias curtas que complementam o escopo da saga do Hulk que nunca morre.

Um pequeno ponto negativo desses encadernados é a escolha editorial da Panini por repetir o padrão estabelecido pela Marvel nos TPBs estadunidenses, optando por uma folha inicial com os créditos listados de forma resumida, ao invés de trazer cada história com sua creditação devida, logo abaixo do título, sempre ao final de cada capítulo, como foi feito durante a publicação das edições mensais dessa fase.

Considero essa escolha ruim, pois acaba tirando parte do caráter episódico de cada edição da série, cada capítulo do desenvolvimento dessa grande narrativa. Bem, se o ponto negativo é só esse, dá pra perceber que estamos tratando aqui de um clássico contemporâneo dos supers né?!

Durante a leitura de O Imortal Hulk, me peguei pensando na já reconhecida ciclicidade das histórias de super-heróis.

Sabemos que super-heróis efetivamente nunca morrem pra valer (exceto o Capitão Marvel). Sabemos também que esse gênero sobrevive da longevidade de seus ícones, de sua lore em contínua expansão e constante ressignificação.

De tempos em tempos alguém precisa colocar ordem na casa, mas no geral, esses personagens estão por aí há décadas, com seus conflitos e idiossincrasias bem estabelecidos para seu público leitor. Sendo assim, mudanças drásticas não são recomendadas, quase sempre rejeitadas e, consequentemente, contornadas com o passar dos anos.

Ao lidar com personagens tão longevos e consagrados, diante de tantas amarras e imposições editoriais, não resta outro caminho para os roteiristas que não o de reaproveitar plots e ideias de outrora, como quem reorganiza os móveis de uma casa para conseguir mudar um pouco o ambiente mas ainda mantê-lo familiar.

Isso vale para o Hulk de Al Ewing, para o Monstro do Pântano de Ram V, para o Demolidor de Chip Zdarsky e tantos outros incontáveis exemplos dentre os gibis de super-heróis de ontem, hoje e sempre. Novas roupagens para abordar temáticas já anteriormente trabalhadas por outros autores são a mola propulsora desse segmento, juntamente da eterna sensação de mudança que nunca sai de fato do lugar.

Tais características, como tudo na vida, apresentam aspectos bons e ruins. Por um lado, é muito bom ter o reconforto de ler personagens que são estáveis e que, de uma forma ou de outra, estão sempre ali, mais ou menos da forma que você se lembra deles. Por outro, é o tipo de leitura que você sabe que no final das contas, não mudará nada de muito significativo, quando no muito vai até certo ponto-limite, consciente de que essa rota pode – e deve – ser corrigida muito em breve, de acordo com a flutuação natural da linha editorial à qual essas histórias se encontram subjugadas.

A previsibilidade dos gibis de supers é um fato, o que muda é a forma com que você a encara. Eu particularmente gosto, mas em alguns casos entendo que pode ser realmente pouco estimulante.

O sucesso da linha Absolute da DC (voltarei a esse tópico nessa newsletter em breve), por sinal, mostra como parte do público se encontra aberta para novas abordagens fora do padrão já estabelecido e cristalizado para o gênero. E olha que boa parte do que acontece nessa linha é muito mais próximo do reaproveitamento de ideias e releituras de personagens que citei alguns parágrafos acima do que um exercício puramente criativo dos autores.

Nesse sentido, cabe o questionamento: até que ponto dá pra ser essencialmente original quando se escreve super-heróis? Seria o roteirista nesses casos mais um designer de interiores do que um arquiteto propriamente dito?

Não é por acaso que, com a ampliação de horizontes de mercado para os quadrinistas publicarem seus trabalhos autorais, as melhores ideias destes, as mais inventivas, sejam concentradas nas obras que lhes são integralmente de direito e não mais colocadas em prática em propriedades intelectuais controladas pelas majors do mercado estadunidense.

Desse modo, da forma como estão postas as condições do gênero, qual seria a abertura real para exercícios criativos mais radicais com personagens tão bem fundamentados no imaginário popular? Por outro lado, será que é preciso de fato que tenhamos inovações e reinvenções da roda de uma engrenagem que, mal ou bem, funciona há tanto tempo?

Ora, a ciclicidade desses personagens e o reaproveitamento de ideias em novos contextos é a fonte de imortalidade do gênero, dado que os supers conseguem, por meio dessa estratégia tão clara quanto longeva se ressignificar para novos públicos, se reposicionando com o passar do tempo.

Vejamos o caso de O Imortal Hulk, por exemplo. Possivelmente, uma boa parte das novas gerações de leitores jamais leu uma página sequer dos trabalhos de Bill Mantlo, Peter David e toda uma vasta gama de autores que precederam Al Ewing. Quando muito, essa galera leu alguma edição aqui e outra ali ao longo dos anos, tendo conhecimento meramente superficial acerca do background do Golias Esmeralda.

Para esse leitor, o trabalho de Ewing não é somente impactante e de altíssima qualidade, mas também inovador dentro de seu segmento, afinal, seu recorte de conhecimento do personagem é relativamente curto. É nessa toada que o segmento se imortaliza no imaginário popular, funcionando a partir de camadas de significação para diferentes públicos, independentemente dos gaps geracionais.

Assim, da mesma forma com que o Hulk de Al Ewing consegue sobreviver mesmo quando é cortado em pedacinhos, também os gibis de super-heróis conseguem se manter vivos, ainda que com quedas significativas de público ano após ano, através da força de suas potencialidades e particularidades.

A seu modo, Hulk e as Histórias Super-Heróicas desafiam os limites da morte e do ocaso, seguindo em frente.

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No começo do mês de abril, o Governo Federal lançou o MEC Livros, uma biblioteca pública e on-line que concede acesso gratuito a livros e quadrinhos em formato digital. Tem de tudo, de clássicos consagrados a publicações contemporâneas, tanto de literatura quanto de HQs.

A ideia é democratizar o acesso a leitura em nosso país. Como educador, leitor e pesquisador, eu não poderia ficar menos empolgado e feliz com essa iniciativa.

O acesso é feito por meio de login na conta do Gov.br, tanto pelo navegador do seu PC/Notebook quanto pelo app para smartphones e tablets. Uma vez logado, você pode pegar emprestado o livro ou gibi escolhido e tê-lo disponível para leitura durante determinado período de tempo.

Agora ficou um pouco mais fácil (ou menos difícil) para quem quer ler, mas está sem orçamento para comprar livros e gibis e não quer recorrer à pirataria no momento.

Num mercado editorial cada vez mais proibitivo para a maioria de um país que lê tão pouco, esse é o tipo de projeto que merece ganhar visibilidade e ser celebrado, independentemente de qual seja seu lado no espectro político.

(P.s.: a conclusão da saga d’O Imortal Hulk de Al Ewing e Joe Bennett está disponível na plataforma do MEC Livros. Quem sabe daqui a alguns dias os demais volumes também não apareçam por lá?!)

  • The Immortal Hulk #33”, por Al Ewing, Joe Bennett, Ruy José, Belardino Brabo, Marc Deering, Mark Morales e Paul Mounts.

Oi! Tudo bem? Me chamo Lucas Fazola Miguel e sou pesquisador de Histórias em Quadrinhos.

Esse foi o texto de hoje da HIPER-REQUADRO, uma newsletter para se ler nas horas vagas e, sobretudo, nas pagas!

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Te vejo no próximo post.

Até a próxima!

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