Ao longo dos últimos dias, tive um acúmulo de trabalho e tarefas domésticas que me impediram de manter o tempo de leitura que vinha conseguindo sustentar durante as últimas semanas.
Recentemente, vi um conhecido mencionando numa roda de conversa que estava comprando um determinado gibi que o marcou na adolescência para ler junto com o filho. Sim, a ideia era lerem simultaneamente e não o pai ler para o filho, uma vez que o garoto já é alfabetizado e também gosta de HQs.
Achei bacana a atitude, fofa até, mas me pareceu irrealizável na prática, afinal, ler quadrinhos é um hábito essencialmente solitário. Não é por acaso, inclusive, que leitores costumam se isolar dos demais quando querem ler e são, por característica, mais afeitos a ficarem sozinhos. Não é nada pessoal nem desapreço em relação àqueles que nos cercam, mas sim meramente consequência natural do processo pelo qual todo leitor precisou passar ao longo da vida, enquanto se forjava como tal.
É difícil imergir em uma leitura e se concentrar na história propriamente dita quando se fica no meio da galera ou de frente pra TV. O celular, por sinal, é o maior inimigo contemporâneo da leitura. Já reparou como ele sempre aparece como grande tentação quando você se senta pra ler? Eu percebi que facilita muito colocar o aparelho pra carregar quando quero ler. Tenho tentado fazer isso quando quero me desligar do mundo exterior e focar na leitura. Recomendo.
Sei lá, esse não é um grande questionamento nem uma grande resposta a um dilema da humanidade, apenas um pensamento que ficou martelando na cabeça ao longo dos últimos dias e que me pareceu interessante para começarmos os trabalhos por hoje.
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Não é exatamente novidade pra ninguém que Alejandro Jodorowsky é um escritor provocador e excêntrico. Quem leu Incal sabe disso, e olha que ali o velho Jodo até que pegou bem leve. Em Juan Solo, dá pra dizer que ele estava especialmente decidido a chocar, na mesma medida em que Georges Bess se dedicou a impressionar com uma narrativa visual deslumbrante.
Nessa HQ, intitulada a partir do nome de seu protagonista, a dupla narra a vida de um bandido meio Stallone Cobra meio Tony Montana, mas inteiramente desprezível e abjeto. Sério, poucas vezes vi um personagem tão asqueroso quanto Juan Solo. A grande ironia é que ele é tão fascinante quanto infame.
Não dá vontade de parar de acompanhar sua história, não importa o quão em choque se fique a cada nova perversão vivenciada por Solo. É quase como se fosse firmado um pacto entre leitor e história depois de cada nova obscenidade, à espera de que ele finalmente se dê mal ao final.
A surpresa, no entanto, reside no brilhantismo de Jodorowsky e Bess, que conseguem extrair beleza e significado do absurdo, delineando a jornada de ascensão, queda e redenção de Juan em sua solitária e pérfida existência.
É interessante notar como a HQ é permeada pelo realismo mágico latino-americano ao mesmo tempo em que remonta às tragédias gregas. Desde o protagonista que nasceu com um inexplicável rabo, passando pelo convívio dos vivos com os fantasmas de seus familiares, relações incestuosas, presença indiscriminada do sexo como meio de controle, até chegarmos na fé e no sacrifício como formas de remissão dos pecados.
Juan Solo tem de tudo, é quase como se Gabriel García Márquez e Sófocles sentassem num bar para tomar uma e resolvessem escrever juntos uma história durante a bebedeira, sem qualquer pudor ou filtro moral.
A estrutura narrativa não-linear desde as primeiras páginas tira o leitor de seu eixo ideal e o coloca diante de um estado de desconforto e desorientação imediatos. Essa estratégia discursiva não é incomum, porém, a forma como Jodo a articula é minuciosa e muito bem pensada.
O contraste de tons entre esse começo (que temporalmente se situa no ato final da trama) e o restante da narrativa, que apresenta a jornada do personagem até chegar nesse cenário quase bíblico, é flagrante. São texturas diferentes, e até mesmo o uso de cores indica essa distinção no ponto de vista emocional do enredo.
O processo de origem, desenvolvimento, auge e degradação de Solo é satisfatoriamente descortinado ao longo das mais de 200 páginas da HQ. Dessa forma, a brutalidade que marca a história de Juan é jogada na cara do leitor de forma crua e visceral, sem dar tempo para maiores lamentações ou suspiros. Assim, a trama permite somente que se escancare uma realidade cruel e pungente que explicam, ao menos em parte, a natureza amoral da consciência do protagonista-título, sem tentar justificá-lo ou atenuar quaisquer atos reprováveis que ele acumula ao longo de sua trôpega existência.
A arte de Bess é um assombro, tanto quanto o é sua capacidade de forjar composições de páginas que conduzem o olhar sem que o leitor tenha de fazer o mínimo esforço, somente se deixando levar pelo fluxo dos requadros em meio à página.
Na página a seguir, por exemplo, temos um trabalho preciso e que exemplifica essa clareza da narrativa visual. Observe como o primeiro quadro abre a página com uma tomada aberta panorâmica, com um abutre em primeiro plano.
Na sequência, temos Juan Solo em destaque por meio do processo de incrustação, em que os requadros se sobrepõem ao requadro maior, construindo uma conexão semântica que ressalta a solidão e apatia de Juan Solo nesse momento de peregrinação pelo deserto. Tal postura cabisbaixa e derrotada é destacada nos três requadros seguintes, que compõem o terço final desse hiper-requadro.
O abutre que abre a página, então, retorna em posição de ataque, extravasando os limites do requadro enquanto fecha essa sequência de forma ameaçadora. Como sabemos, abutres não significam exatamente boas notícias quando aparecem em uma história.
Dessa forma, podemos observar o modo como Bess consegue construir tensão e delinear a atmosfera psicológica da narrativa com sofisticação e um bom uso de layout e composição diegética.
Traduzido por Eduardo Nasi, Juan Solo foi publicado pela Conrad Editora, em 2022, e é o tipo de leitura que não funciona para quem tem paladar infantil com gibis. Recomendo, mas não para todos.
A sempre boa Sete ponto nove, do Fábio Ochôa, retornou no começo desse mês com mais um artigo excelente. Dessa vez, o assunto foi a seminal EC Comics.
Gosto de como o Fábio destrincha uma história curta de 1954 publicada pela editora, pois ele não se resume a decupar os mecanismos narrativos empregados como também oferece um belo panorama da linha de publicação da EC como um todo.
Estudar a EC Comics foi uma das partes mais interessantes do apanhado historiográfico que fiz durante mestrado e doutorado, e revisitar esse período da trajetória dos quadrinhos estadunidenses é sempre um deleite.
Esse é o tipo de artigo que não tenho como deixar de recomendar. É satisfação garantida pra quem é nerd de gibis como eu. O Fábio ainda oferece uma canetada daquelas como encerramento de sua pensata:
“A coragem tem um preço alto. Mas sua recompensa é a longevidade.”
Não sou um especialista em EC Comics, mas do que tive contato até hoje, gostei bastante.
Bernie Krigstein, por exemplo, é um quadrinista da EC nesse período do qual gosto muito. Ele surgiu para o mundo como um dos grandes (senão o maior) expoentes da a EC Comics, a editora mais arrojada e ousada da cena estadunidense de quadrinhos em seu tempo.
Bode expiatório da indústria durante a caça às bruxas do Comics Code Authority, a EC angariou prestígio e popularidade com suas histórias de terror, guerra e ficção científica, e nessa onda o virtuosismo de Krigstein se destacou sobremaneira.
Trabalhando para a EC durante os anos cinquenta, o artista arrebatou a crítica e fez fama com traço versátil e inventividade como narrador visual. Culto, Krigstein fugia dos padrões da época e inseria em suas histórias diferentes técnicas de desenho e enquadramento, adquiridas através de seus estudos sobre arte e representação visual.
Em O perfeito estranho temos uma reunião de pouco mais de trinta contos de Bernie Krigstein originalmente publicados pela EC Comics. Em formato antológico, clássicos como Monotonia e Raça Superior dividem espaço com histórias de qualidade irregular, mas soberbamente ilustradas pelo genial quadrinista.
Com sofisticação e brilhantismo, o visionário Krigstein inspirou diversos artistas ao longo dos anos, como Frank Miller, e foi responsável por diversas inovações dentro da narrativa gráfica contemporânea.
Miller, por sua vez, é notório por inserir em seus trabalhos referências daqueles que o antecederam. Há muito de Eisner e Krigstein em seu trabalho ao longo dos anos. Vejamos a seguir um exemplo muito interessante.
Na sequência abaixo, temos um fragmento de Raça superior, HQ de Krigstein de 1955. Esse conto seminal apresenta um comandante nazista refugiado nos EUA, fugindo de um judeu que lhe jurou de morte dez anos antes, durante a Segunda Guerra.
A sequência abaixo, extraída da cultuada fase de Miller à frente das mensais do Demolidor, é de 1980 e apresenta o herói cego de Hell’s Kitchen em início de carreira, correndo atrás do homem responsável pela morte de seu pai. Eu sei, o cara parece o Foggy, mas não é ele.
Nos dois casos, temos a morte dos perseguidos, seja o nazista ou o mafioso: um caiu nos trilhos do trem e o outro teve um ataque cardíaco, sem que as mãos do judeu e do demolidor fiquem sujas de sangue.
A disposição de vários requadros retangulares estreitos horizontalmente e esticados verticalmente é uma sacada de Krigstein que comprime a narrativa e expande a tensão dramática na página. Miller, como bom conhecedor das tradições dos quadrinhos, se apropria desse recurso e o incorpora em sua narrativa visual não de forma gratuita, mas com uma função bem definida no esquema diegético.
Em um grande resgate histórico, a Editora Veneta publicou por aqui, em 2018, O perfeito estranho, com tradução de Dandara Palankof. O encadernado conta com um projeto gráfico belíssimo, apresenta pouquíssimos erros de revisão e conta com textos de apoio realmente elucidativos de Rogério de Campos, Greg Sadowski, entre outros.
Krigstein é o tipo de artista que todo aficionado por Histórias em Quadrinhos deveria conhecer. Torço para que a Veneta republique, pois a HQ O perfeito estranho está esgotada no momento.
Oi! Tudo bem? Me chamo Lucas Fazola Miguel e sou pesquisador de Histórias em Quadrinhos.
Esse foi o texto de hoje da HIPER-REQUADRO, uma newsletter para se ler nas horas vagas e, sobretudo, nas pagas!
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Te vejo no próximo post.
Até a próxima!
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