E então que no último sábado, dia 14 de março, faleceu Jürgen Habermas. Não pretendo aqui fazer nada parecido com uma análise de sua obra, encômios ou repassar sua vida “que se confunde com os grandes acontecimentos do século XX” - como você pode ler em qualquer jornal ou portal de notícias. Quero registrar apenas dois aspectos pelos quais Habermas entrou há alguns anos, de maneira intermitente, nas minhas leituras e, mais recentemente, de um modo mais presente.
Quando ainda estava na graduação, agora há mais de 20 anos, li algumas coisas esparsas no contexto das leituras da Escola de Frankfurt e tudo me interessou muito pouco. Fui atraído muito mais por Adorno e Benjamin. A única coisa que a mim ficara como sendo mais digna de nota fora a leitura de sua conferência “Arquitetura moderna e pós-moderna” porque eu, ingênuo, puro e besta, nunca havia pensado na arquitetura como fonte de questões filosóficas. Um pouco mais tarde Habermas voltou ao meu horizonte, agora de maneira mais positiva, por conta do ótimo O discurso filosófico da modernidade, que li em algum momento entre o fim da graduação e o mestrado. Até hoje volto à exposição que Habermas faz ali da caracterização da modernidade por Hegel.
Mas o primeiro grande momento em que Habermas se tornou realmente mais saliente para mim foi quando soube do debate, ocorrido em janeiro de 2004 na Academia de Ciências da Baviera, entre Habermas e o então cardeal Joseph Ratzinger. Olhando em retrospectiva, o que primeiro me chamou a atenção foi o fato de que Ratzinger - a quem eu já admirava - estava debatendo com um dos maiores expoentes do pensamento filosófico não-religioso. De fato, ainda estou convencido que hoje, mais de 20 anos depois daquele encontro, a Igreja não produziu um outro intelectual capaz de discutir em pé de igualdade com alguém da envergadura de Habermas. Desse modo, Habermas ali era, para mim, a hipóstase do pensamento iluminista em colisão com o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Como indica o organizador do livro, Florian Schuller, o tema estabelecido para a conversa eram as “bases morais pré-políticas de um Estado liberal”. E Habermas me impressionou porque, de certo modo, suas conclusões não são tão distintas daquelas de Ratzinger. Embora Habermas se afirme como um defensor do liberalismo político de matriz Kantiana, entendido como devendo ser um estado constitucional construído sobre bases “não-religiosas e pós-metafísicas”, ele reconhece que uma solidariedade moral entre as pessoas depende de que “princípios de justiça tenham penetrado mais profundamente no complexo das orientações ética de uma dada cultura”. Assim, próximo à conclusão de sua fala, Habermas faz uma afirmação que para mim foi central quando da leitura e, muitos anos depois, voltou a sê-lo através do prisma de problemas que me interessam agora, 20 anos depois:
For the citizen who is “unmusical in religious matters, this entails the demand - which is not in the least trivial - that he identify self-critically the relationship between faith and knowledge, on the bases of what all the world knows. This is because the expectation that there will be continuing disagreement between faith and knowledge deserves to be called “rational” only when secular knowledge, too, grants that religious convictions have an epistemological status that is not purely and simply irrational. And this is why, in the public political arena, naturalistic world views, which owe their genesis to a speculative assimilation of scientific information and are relevant to the ethical self-understanding of the citizens, do not in the least enjoy prima facie advantage over competing world views or religious understandings (Habermas e Ratzinger, The Dialectics of Secularization, 50-51).
Ao fim e ao cabo, Habermas está dizendo que, se por um lado exige-se que o cidadão religioso esforce-se para traduzir suas crenças em fórmulas que possam ser justificadas a um número maior de pessoas, por outro o cidadão secularizado deve abandonar a ideia - fruto de uma deformidade moderna - de que o discurso religioso é eo ipso, irracional.
Esse feixe de questões voltou a me interessar agora sob uma nova forma e me fez reencontrar Habermas em seus trabalhos mais importantes. Um dos meus interesses filosóficos atuais é o estatuto da racionalidade pública. Isso evidentemente me fez voltar a ele, agora em sua teoria do agir comunicativo e a sua tese de habilitação que é um estudo seminal sobre as origens e condições de possibilidade da esfera pública. E penso que uma de suas mais importantes contribuições para o problema acima é justamente sua concepção de racionalidade que, alinhada às suas posições do debate de 2004, afirma uma visão frontalmente contra a atrofia da razão (pública) que se tornou uma posição que, na prática, é hegemônica:
Well-grounded assertions and efficient actions are certainly a sign of rationality; we do characterize as rational speaking and acting subjects who, as far as it lies within their power, avoid errors in regard to facts and means-ends relations. But there are obviously other types os expressions for which we can have good reasons, even though they are not tied to truth or success claims. […] We even cal someone rational if he makes known a desire or an intention, expresses a feeling or a mood, shares a secret, confesses a deed, etc., and is then able to reassure critics in regard to the revealed experience by drawing practical consequences from it and behaving consistently thereafter (Habermas, The theory of communicative action - I, 15).
E como é evidente para quem conhece um pouco das posições de Robert Brandom sobre racionalidade, o que Habermas diz aí é extremamente inspirador. De fato. o que para mim era apenas um insight, transformou-se em objeto de análise precisamente porque Habermas escreveu uma excelente resenha crítica de Making it Explicit que foi respondida por Brandom em um texto especialmente iluminador para uma leitura sob a ótica da filosofia prática de seu inferencialismo.
A discussão em si fica para outro texto. O importante aqui é apenas registrar como Habermas apareceu, e ainda aparece, como um gigante - do qual se pode e se deve discordar - tanto na história da filosofia contemporânea quanto no desenvolvimento da minha própria história intelectual.
Requiescat in pace.
Text within this block will maintain its original spacing when published
O Metaphi é um substack de filosofia pública apoiado por seus leitores.
Considere apoiar este projeto.
Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.