Em um trecho que ocorre logo após o pacto entre Fausto e Mefistófeles, Goethe coloca um diálogo especialmente interessante. Um jovem bate à porta de Fausto, à procura de orientações sobre os estudos e é recebido, na verdade, por Mefistófeles disfarçado com a toga daquele.
O diálogo todo é interessante porque, da Metafísica à Medicina, Mefistófeles ironiza e esvazia todas as possibilidades de faculdades que o jovem apresenta como possibilidades a seguir. Mas ao final da conversa, diz Mefistófeles o seguinte verso:
Ein jeder lernt nur was er lernen kann;
(Cada um aprende apenas o que pode aprender)
(Goethe, Fausto, Studierzimmer II)
Pois bem, por esses dias tive uma conversa rápida e por acaso com uma aluna no café da universidade. Ela reclamava de como sentia que, por vezes, alguns colegas atrapalhavam o desenvolvimento de outros. O desinteresse de alguns consistia num obstáculo extra para outros. E me lembrei desse fragmento. E de como ele exprime a tensão fundamental da educação.
Isso porque, à primeira vista, Mefistófeles parece dizer uma obviedade (que talvez não seja mais tão óbvia hoje em dia, mas divago…): as pessoas têm os seus limites. E assim como há limites físicos, por que não haveria de haver os intelectuais? No entanto, assim como nos físicos, não é possível sabê-los a priori. E assim como - parafraseando Hegel - não há como aprender a nadar sem entrar na água, não há como saber o que alguém pode ou não pode aprender antes de que, de fato, tenha tentado. E praticado. E se esforçado. E, portanto, talvez até empurrado para mais além aquilo que julgava ser o seu próprio limite.
Por outro lado, isso impõe igualmente outras perspectivas àquele que tem a tarefa de ensinar. Qualquer um que tenha tentado ensinar qualquer coisa a alguém, já experimentou certa frustração quando encontra resistência ou dificuldade. E a tentação de sucumbir à ideia de que se está, então, frente ao limite intransponível da capacidade de aprender, é grande e sedutora. Ao mesmo tempo, é parte inerente do ofício forçar o limite. E a resposta à pergunta “Até que ponto?” é simplesmente irrespondível a priori e, quiçá, irrespondível tout court.
Ao longo de quase 20 anos de atividade docente, experimentei no fundo do meu coração inúmeras sensações quanto a isso. Desde a alegria imensa quando alunos dizem ter modificado a própria vida por conta de algo que eu disse ou expliquei, quanto a tristeza profunda e dolorida da constatação de que não havia ali nenhuma possibilidade de uma interação genuína. Simplesmente, por vezes, não há nem sequer o compartilhamento de condições básicas de inteligibilidade; seja por questões psicológicas ou factuais, seja simplesmente por falta de vontade.
O fato é que Mefistófeles tem e não tem razão.
E o que fazer, mais exatamente, não é claro. Assim, o mais prudente é, simplesmente, continuar tentando. E sobretudo tentar individualmente, como tentei fazer estimulando a aluna aquele dia no café. Mais do que isso, talvez apenas com um pacto…
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