Na liturgia da última quinta-feira, a leitura do Evangelho era uma das minhas passagens favoritas. Neste ano, na versão de Marcos, mas que também encontramos no capítulo 15 do evangelho de São Mateus. Neste, a mulher é cananéia, naquele é sirofenícia. De qualquer modo, os dois evangelistas reforçam que se trata de uma mulher gentia, não-judia. Segue o trecho na versão de São Marcos:
Naquele tempo, Jesus saiu e foi para a região de Tiro e Sidônia. Entrou numa casa e não queria que ninguém soubesse onde ele estava. Mas não conseguiu ficar escondido. Uma mulher, que tinha uma filha com um espírito impuro, ouviu falar de Jesus. Foi até ele e caiu a seus pés. A mulher era pagã, nascida na Fenícia da Síria. Ela suplicou a Jesus que expulsasse de sua filha o demônio.
Jesus disse: “Deixa primeiro que os filhos fiquem saciados, porque não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos”.
A mulher respondeu: “É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem as migalhas que as crianças deixam cair”.
Então Jesus disse: “Por causa do que acabas de dizer, podes voltar para casa. O demônio já saiu de tua filha”. Ela voltou para casa e encontrou sua filha deitada na cama, pois o demônio já havia saído dela. (Marcos 7,24-30)
E aqui na versão de São Mateus:
Partindo dali, retirou-se Jesus para a região de Tiro e de Sidónia.
E eis que uma Cananeia, que tinha saído daqueles arredores, gritou: “Senhor, Filho de David, tem piedade de mim! Minha filha está miseravelmente atormentada do demônio.”
Ele, porém, não lhe respondeu palavra. Aproximando-se seus discípulos, pediram-lhe: “Despede-; porque vem gritando atrás de nós.”
Ele respondeu: “Eu não fui enviado senão às ovelhas desgarradas da casa de Israel.”
Ela, porém, veio, prostrou-se diante dele, dizendo: “Senhor, valei-me.”
Ele respondeu: “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães.”
Ela replicou: “Assim é. Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos.”
Então Jesus disse-lhe: “Ó mulher, grande é a tua fé! Seja-te feito como queres.” E, desde aquela hora, ficou sã a sua filha.
Não quero fazer uma grande exegese ou nenhum comentário especialmente sofisticado. Até porque não sou biblista ou teólogo. Mas desde quinta tenho relembrado o trecho porque, como disse, é uma das minhas passagens favoritas e porque há alguns elementos que sempre me cativam nos relatos. E apenas fiquei com vontade de escrever aqui algumas coisas que sempre penso sobre os relatos.
Segundo Marcos, Cristo queria esconder-se, mas não consegue. As pessoas simplesmente vêm e atiram-se a seus pés. Segundo Mateus, os discípulos querem que o Senhor a mande embora porque gritava atrás deles. A mulher é claramente um estorvo. Segundo os dois, Jesus primeiramente a ignora e, talvez, até tenha desdenhado dela. Assim, é comum encontrar comentários ressaltando a rispidez de Jesus ou até mesmo sua rudeza ao compará-la com cães. Eu, que escrevo este pequeno texto ao lado do Argos, me importo pouco com isso. O óbvio é o contraste que Cristo faz entre os judeus, que teriam a primazia e a prioridade sobre seus feitos, e os gentios.
Mas para mim, o ponto central é sempre a sagacidade, a perspicácia e, de fato, a ousadia da mulher. A negativa de Jesus é rebatida de uma maneira especialmente sofisticada. É evidente que o traço central é a humildade e a fé exposta pela mulher. Talvez seja este o “teste” pretendido por Jesus. Mas a mulher não apenas usa a metáfora de Jesus contra Ele mesmo, mas entra no (meu) seleto grupo daqueles que discutem e disputam com Deus. De Abraão, que pechincha com Deus sobre o número de justos para livrar Sodoma da destruição (Abraão consegue um baita desconto; de 50 saiu por 10 - cf. Gn. 18) a Jonas, que tenta fugir da missão em Nínive e depois ainda fica bravo porque Deus resolve ser misericordioso (veja-se Jn. 3 e 4), passando por Jacó, que literalmente luta contra o anjo do Senhor. Pra não dizer da viúva que importuna o juiz até que ele a atenda, nem que fosse para que ela parasse (Lc. 18).
O que me toca de modo especial nesse relato é o fato de que ela argumenta com Cristo. E Cristo “cede”. Sua “oração” não manifesta apenas o reconhecimento de sua dependência e humildade, assumindo como verdade inclusive a distinção entre os filhos e os cachorrinhos, mas disputa com Jesus precisamente o ponto central da misericórdia, que é seu imerecimento. Como no quadro de Last acima, os cachorrinhos pulam por atenção, por um olhar e, literalmente, por migalhas. A passagem é, para mim, portanto, repleta de sentido quaresmal. Ela mostra Deus aberto inclusive à nossa natureza interrogante, como um pólo legítimo no “jogo de pedir e dar razões”. Parece ser possível penetrar no coração de Cristo também por argumentos, justificativas e razões. Talvez então seja o caso de pensar como podemos refinar nossas “disputas” para com Ele. Mas ao mesmo tempo, a imagem dos cãezinhos propõe um caminho radicalmente diferente. A submissão e a confiança caninas nada têm de racional. Ao contrário, são até injustificáveis muitas das vezes. Então, talvez seja o caso de pensar em como ser mais “canino”. De qualquer forma, parece-me que se pode surpreender a Cristo apelando como a alguém sensível a razões, mas também como alguém sensível súplicas humilhadas. Para além disso, apenas a misericórdia. De qualquer modo, há muito o que aprender aí.
Ótima quaresma pra vocês.
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