Os primeiros dias de 2025 vieram acompanhados de muita reflexão sobre como quero construir minha rotina no ano que se inicia. Passando por um grande processo de transição, me coloco a contemplar possibilidades antes não existentes e a rever aquelas que abracei nos últimos anos. A verdade é que muitos anos de trabalho interno e externo me trouxeram mais clareza sobre o que funciona e não funciona pra mim, e sigo aprendendo sobre isso a cada dia. Na escuta dos meus clientes, me encontro com várias versões de vidas que buscam mais autenticidade, mais consciência e melhores relações (consigo e com os outros) e isso me (re)lembra como estamos sempre em processo de transitar.
A impermanência é palavra de ordem em uma vida humana que se constrói em movimento. É um abrigar acompanhado de um desabrigar, uma desconstrução e uma reconstrução de modos de ser e estar no mundo que nos convida a nos olhar com mais compaixão, reconhecendo nossos desafios e dando espaço para o respiro.
Sinto que quando nos permitimos a pausa consciente e um olhar para dentro de forma cuidadosa, encontramos fonte de cura para muitas dores da alma. Nos últimos anos tenho facilitado processos de encontros de centenas de pessoas, e que honra é ver o florescer do poder que cada um guarda dentro de si. É como testemunhar o desabrochar de um jardim que passou a ser cuidado com a atenção que merece, recebendo os nutrientes que precisa para dar ao mundo todas as cores, cheiros e beleza que vem junto das primaveras e podem alegrar um lugar inteiro. Dar ao mundo sua medicina.
Quando falo em medicina, falo daquilo que pode ajudar a atravessar sofrimentos muitas vezes indizíveis, que pode resgatar a humanidade as vezes perdida no automatismo dos dias, que pode nos relembrar sobre a beleza que é viver, mesmo que a vida seja acompanhada de adoecimentos.
Eu acredito que cada pessoa carrega consigo um poder único de cura, seja pelos seus talentos, habilidades, ou pela sua presença, seu jeito de ser e se relacionar. Quantas vezes passei por transformações que sanaram partes de mim só pelo fato de estar na presença de alguém? muitas! Presença essa que não precisa ser física, as vezes é através de palavras, de sons, de imagens, de sabores, de cheiros. Medicina em forma de escrita, em forma de música, em forma de arte. Tem livros que tocam partes de mim que nem sabia que precisavam ser tocadas. Tem música que me faz sentir emoções que precisavam de espaço para ocupar. Tem cheiros que me fazem relembrar momentos bonitos da infância. Qual é a sua medicina? o que é tão natural pra você que não precisa de tanto esforço para trazer ao mundo? Se for difícil encontrar respostas para isso, pensa sobre como você era quando criança..o que gostava de fazer? ou o que você queria ser quando chegasse a adultez? e o que nisso te fazia querer esse caminho?
Sempre quis comunicar, queria ser jornalista, escritora..falar pro mundo o que via, constar histórias, compreender o mundo, ensinar sobre o que aprendia e impulsionar pessoas a encontrarem seus próprios caminhos, sua própria voz. Virei psicóloga, pesquisadora, professora…que, de certo modo, também conta histórias e mais importante: ouve muitas histórias. Encontrei na psicologia uma forma de facilitar o encontro consigo, achei na meditação um meio para a construção de uma vida mais autêntica. Uso a escrita como modo de integração de sentires.
Ontem recebi uma mensagem de uma aluna de um dos meus cursos de meditação que me lembrou de uma das minhas medicinas. A mensagem tinha uma foto que registrava uma mesa com uma xícara de café a direita, uma prensa francesa no centro, uma plantinha sobre a mesa a esquerda e um lugar bonito ao fundo, com plantas nas paredes e luz que convidava a uma leitura. A foto veio junto com palavras que diziam: “Presença, solitude e contemplação.. seus ensinamentos vieram e ficaram”. Ao ler suas palavras, respirei como quem deseja o ar do mundo inteiro, me enchendo de alegria por estar presente na vida dela mesmo estando distante fisicamente. Agradeci por ela me lembrar do quão potente é o que fazemos com o coração. Me orgulhei das escolhas dos últimos anos e na persistência que tive ao começar a ensinar sobre meditação e mindfulness em um lugar que poucos sabiam a respeito.
A meditação como uma das minhas medicinas vem se transformando com os dias, com as práticas e experiências que tenho. Meditar, na forma que apresento para aqueles que me buscam, não é apenas sobre sentar e respirar. Muito menos sobre limpar a mente de pensamentos ou sobre parar de sentir. Meditar é viver de forma intencional, reconhecer o que acontece enquanto acontece e como nos sentimos a cada vez. Reconhecer nossas possibilidades e ter ciência das nossas relações. Isso pode ser feito de muitas formas, e deve ser feito na vida. Podemos meditar enquanto deitamos, corremos, andamos, conversamos, escrevemos, lavamos louça. Meditar é sobre presença. E ter a possibilidade de trazer essa medicina para o mundo, do meu jeito, tem sido de uma beleza que toca profundo em meu ser.
Te pergunto novamente e te dou espaço para refletir caso tenha passado pelas palavras acima e não se demorado nelas: Qual é a sua medicina? o que é tão natural pra você que não precisa de tanto esforço para trazer ao mundo? Se for difícil encontrar respostas para isso, pensa sobre como você era quando criança..o que gostava de fazer? ou o que você queria ser quando chegasse a adultez? e o que nisso te fazia querer esse caminho?
Pega um papel e escreve sobre isso… se ainda assim não for possível acessar qualquer resposta, pergunta para alguém que te conhece a muito tempo sobre o que ela admira em você e preste atenção a como você se sente ao se encontrar com essa resposta. As vezes a visão do outro pode nos ajudar a clarear o que é difícil enxergar por nós mesmos.
Para sua contemplação, deixo aqui uma foto que tem muito a contar: Um círculo de pedras com uma fogueira no meio em frente a um lago que congelou com a temperatura fria do inverno. Esse lugar fica no Picnic point em Madison-Wisconsin e foi renovado e ofertado pela família de Elsie Iwen Eblingde, uma mulher promotora de iniciativas relacionadas a arte. Arte era sua medicina. Fico pensando quantas pessoas passaram por aqui, conversando sobre tudo, apreciando uma vista bonita que em tempos de verão guarda animais aproveitando a água, e em tempos de inverno se solidifica e dá lugar para caminhadas sem pressa.

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