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o diário · Mar 10, 2025

os sons dos dias

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Geissy Araújo · o diário

Hoje saí para caminhar pelo bairro. Com o fim do inverno e início da primavera no hemisfério norte, as temperaturas são mais convidativas a estar fora de casa. Coloquei uma jaqueta quentinha (nessa hora estava em torno de 5 graus), um calçado confortável e animada saí de casa como quem vai encontrar. É interessante demais perceber a mudança de perspectiva sobre "quente” e "frio” quando a gente conhece as profundezas do inverno (que tem sua beleza, mas sua força faz doer o corpo).

Isso me faz pensar como tudo é mesmo uma questão de ponto de vista, e todo ponto de vista é a vista de um ponto. Como nossa perspectiva muda ao ter mais repertório de experiências e, o que antes era de um jeito pode passar a ser de outro. Isso acontece todo dia na vida, já reparou? Vejo esse processo como um convite a ser mais flexível nas verdades que muitas vezes teimamos em sustentar (reflexão aqui pra não perder o costume).

Bem, fui então começar minha caminhada matinal e a primeira coisa que notei foi o som da rua. O inverno tem um tanto de quietude, uma espécie de silêncio e ausência de cores. Poucas pessoas se aventuram nos ares gelados (com exceção daquelas que, mesmo a -15 graus estão correndo de short - eu não compreendo como isso é possível e tenho respeito demais pela coragem de tal feito hahaha), a tendência é ficar em casa e até os carros parecem descansar nas garagens. Nesse início de primavera, ouço os pássaros. Parecia uma orquestra que ensaiou os últimos meses e se aquece para uma grande apresentação. Sons de diferentes aves que cantam em alegria, voando e assentando nas árvores ainda sem folhas, celebrando o sol e os dias que estão por vir. Paro um instante, respiro e noto uma agradável sensação de ar que passa pelas narinas e expande os pulmões que se preenchem como se tivessem todo o espaço do mundo. Ainda não sinto o cheiro das flores típicas dessa estação, afinal, elas ainda dormem. Ano passado esse era o cheiro da cidade que tinha flores por todos os cantos, casas e parques

Vejo mais pessoas na rua com seus cachorros, se demorando nas caminhadas já que o vento não tem mais aquela ponta afiada que parece cortar a pele. Vejo mais pessoas se exercitando e me animo para retomar minhas corridas pelos parques. O comum entre elas é o fone de ouvido que parece estabelecer um limite entre o espaço e elas mesmas. Algumas estão em conversas com conhecidos, outras ouvem músicas para passar o tempo. Mas poucas são as que ouvem a rua. Um pensamento surge me contando o quanto que deixamos de perceber por não prestar atenção. Um sentimento de gratidão (sei, parece clichê) me invade por poder ouvir o que ouço e perceber o que percebo nesse dia de hoje. Penso também sobre a forma como as coisas funcionam por aqui nas terras do norte. Isso vai ser material para outro texto, quando ele quiser nascer.

Volto pra casa, faço um café e o cheiro quente invade a sala, que me é espaço agora para essa escrita. Fazia dias que queria escrever, abria o computador e sentia que não tinha muito a dizer. E quando esse sentimento vem, o silêncio guia os passos.

Vou finalizando por aqui, deixando em registro os sons, cheiros e sentimentos de um dia que começou. Deixando também o convite para prestar mais atenção ao que acontece ao seu redor, ao que seu corpo percebe e ao que sua mente te conta e dois lembretes abaixo…

Para sua contemplação: a foto de um rio que metade está congelado e a outra metade segue correndo. Mais um convite a mudança de perspectiva dependendo do que se olha e se enxerga.

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Até já!

Read the original on geissy.substack.com

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