Eu e o João terminamos.
Sim, é sério. Seríssimo. Por quê?
Por causa daquele negocinho do pão. Aquele aramezinho que serve para fechar a embalagem, sabe? Pois é. Eu pedia, pedia, pedia e ele não fechada direito. Aí o pão secava e o João nunca comia a pior fatia. Aquela bundinha que fica em contato com oxigênio o tempo todo. Aí, além de não comer, ele também não jogava fora. Sempre acabava sobrando para mim. Só que se comer era um suplício, descartar ía contra todos os meus princípios. Tanta gente passando fome no mundo...
Mastigava aquele pão desgraçado todas as vezes sozinha.
Tinha outra coisa que me deixava louca com o João. Eu temperava o frango direitinho, com suco de limão galego, páprica defumada, pimenta preta, um molhinho meio doce, meio salgado que eu trouxe do Peru. A mistura ficava marinando de um dia para o outro dentro da geladeira. Na hora de fritar, deixava o fundinho da panela bem caramelizado, depois ia colocando água bem aos pouquinhos para não queimar, nem perder o sabor. Sabe o que o João fazia quando servia o frango no prato? Tacava ketchup e maionese Hellmann's por cima e ainda repetia com um sorriso no rosto.
Pior é a mania de fazer absolutamente tudo menos sentar na mesa na hora de comer. Gritava "já tô indo” quando o almoço estava servido, mas eu ficava ruminando uma folha de alface por cinco minutos até o bonito aparecer na sala de jantar. E não era só na área alimentícia que ele andava me irritando.
Tu acredita que quando eu dizia que tinha sonhado com ele, o João nunca perguntava os detalhes? Tá, eu sei que ninguém gosta de ouvir os sonhos dos outros, mas que criatura no mundo não vai ter querer saber um pouquinho mais sobre si?
Aaaah, mas tu não conhece o João. Ele se faz assim de evoluído, mas não se importa com nada além do rabo dele.
Outro dia, eu ía viajar por uma semana e ele foi comigo até a garagem para pegar um negocinho que tinha ficado no carro. A gente se despediu, ele disse que sentiria saudades e tal, mas enquanto eu esperava o portão abrir, olhei pelo retrovisor e o João já tinha subido para o apartamento. Que casamento é esse que a pessoa não pode nem esperar um minutinho para se despedir de longe?
E se eu tivesse capotado o carro na estrada?
O João disse que eu estava ficando louca. Louca e neurótica com essa história de morrer na rua. Mas isso não é loucura, é precaução. Ele que não se importa se continuo viva ou morta. Um dia desses, disse que ía me atirar pela janela. Foi brincando, eu sei. Ficou rindo disso por horas, depois falou que eu tenho tanto medo de morrer na rua, que é bem capaz de morrer dentro de casa.
Fechei os vidros, as cortinas e nunca mais cheguei perto de nenhuma janela. As plantinhas ficaram meio borocoxôs, tive que transportar todas elas para a casa da minha mãe. Quando chegava do trabalho, aquele cheiro de coisa abafada me dava um abraço estranho e o João nem aí. Sempre gostou do escuro, até preferia. Só não gostou quando comecei a inventar desculpas para ficar zanzando pelo prédio.
A rua me dava calafrios, a casa me sufocava. Descobri que o corredor é ótimo para colocar a cabeça no lugar.
Alguns vizinhos começaram a me olhar feio. Fui para as escadas, ninguém usa.
No fim do segundo mês vivendo igual uma morcega, sentei entre o quarto e o quinto andar, em um degrau gelado, meio úmido, mexi na bolsa procurando as gotinhas de Rivotril e encontrei um bloquinho de notas todo amassado, cheio de folhas em branco. Fiz uma lista de pós e contras do nosso relacionamento.
Acredita que ficou empatado?
Entrei em casa, decidida a dar mais uma chance para o João. Antes de falar com ele, fui na cozinha tomar um gole de água e guardar o frango na geladeira. Quando vi a embalagem do pão de um lado e o aramezinho atirado em cima do fogão, mudei de ideia.
Apesar de todos os contras, era aquele maldito aramezinho que mais me incomodava no João.
Amigos artistas fizeram uma apresentação belíssima de monólogos em uma noite de sábado chuvoso.
A parte mais legar de escrever é conhecer pessoas talentosas e cultivar novas amizades. Esse mês, participei do encontro online do Sofá da Surina (coisa fina) e recebi esse postal precioso diretamente da Holanda e da Nó na cabeça:
Ensinei a minha mãe a usar cupons de frete grátis na Shopee e ela ficou realizada.
Antes que o inverno chegue e torne o banho em dupla uma missão impossível aqui em casa, aproveitei o meu "João” embaixo do chuveiro para trocar ideias sobre o texto de ficção ali de cima. Inventar histórias em equipe (e pelada) é sempre mais gostoso.
Vocês já tentaram controlar uma crise de tosse sentados na plateia silenciosa (e lotada) de uma peça de teatro?
O Youtube me ofereceu o canal National Geografic de bandeja e passei uns dias viciada em comer tragédias históricas.
Comprei um jogo de frigideiras antiaderentes e adivinha? Não eram.
Homo restus (Leonilda Ribeiro) - nem todo super herói usa capa (risos).
Assim na terra como embaixo da terra (Ana Paula Maia) - o pau torou no fim do mundo.
As coisas (Tobias Carvalho - quando não há nada para fazer, jogue no Grindr.
Noite devorada (Mar Becker) - entre o fim e o (re)início do sol, há muita fome.
Cabeça, ombro, joelho e pé (Elisabeth Ferroni) - o abuso de um amor em um corpo dolorido.
Bati três vezes na madeira e mesmo assim você morreu (Marcos Morelli) - bater ou morrer, dá tudo no mesmo.
Como parar o tempo (Matt Haig) - vampiros que compram leite e pagam boletos.
Fazer listas de prós e contras. Nem sempre obedecer ao resultado.
O áspero das faltas é meu primeiro livro e foi indicado ao Prêmio Jabuti 2025. Além de chique e gostosinho de ler, ele ficará belíssimo na sua estante. Você pode comprá-lo aqui ou falando diretamente comigo pelo Substack ou Instagram.
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