Se a minha mãe não ficasse tão chateada toda vez que apareço com uma nova tatuagem, poderia facilmente gravar a seguinte frase da María Negroni no meu antebraço:
Eu assino com o sobrenome materno quando começo a escrever.
Porque sim, sou o tipo de escritora (e filha) obcecada pela própria mãe. Mas não só por ela, por todas as outras também.
Geriátricas, modernas, arrependidas, tentantes, adolescentes, chatas, desapegadas, adotivas, as que não estão mais nesse plano. Mães das nossas mães, dos nossos pais. Aquela bisavó, mãe de dez filhos, com quem não houve contato e a história acabou-se perdendo por aí. Aquelas que batem. Amam demais. Sujeitam à tratamentos de silêncio. Mandam memes pelo Instagram o dia inteiro.
Traumatizando. Às vezes se arrependendo. De vez em quando pedindo desculpas. Algumas horas acertando. Quase sempre perdendo a paciência, pensando em colocar a bolsinha no ombro e abandonar tudo.
Não podemos esquecer que elas, por mais bonitas ou horrorosas que sejam, também são, PASMEM, pessoas. E, sendo seres humanos como nós, sanguessugas de mamãin, matá-las metaforicamente pode ser um caminho possível para andar em paz (seja lá o que essa palavra signifique para vocês) com aquela pessoa que NUNCA vai achar que seu cabelo está bonito o suficiente. Principalmente, se um dia você ficou loira contra a vontade dela e isso destruiu o seu cabelo até então virgem (insira aqui risos e figurinhas de 🆘).
Minha mãe ainda reclama dos meus fios e é única para mim, mas mães e filhas e suas relações polêmicas são todas meio iguais. E, para comemorar esse segundo domingo de maio, ao invés de enumerar dez coisas que amo ou odeio na minha mamis, remexi os caderninhos, livros físicos e digitais, e encontrei dez citações literárias que me lembraram nos últimos anos que todas nós somos um pouco filhas da mãe, inclusive elas, as próprias mães:
Dou-me conta dos meus odores e consigo perdoar o fedor de minha mãe. (Unhas que rabiscam espirais - Tatiana Barbosa)
O medo de desejar estar com o filho mais do que sozinha consigo mesma e, portanto, o medo de esquecer de si e daqui cinco anos não lembrar mais o que você gostava de fazer aos sábados. (A mulher de dois esqueletos - Julia Dantas)
Gritei mãe assim que voltamos para casa depois do enterro (dela), pois tinha esquecido a toalha de banho. (Um prefácio para Olívia Guerra - Liana Ferraz)
Porque até Deus, que não foi parido, sabe que uma mãezinha ameniza tudo, inclusive a cruz. (O amor e sua fome - Lorena Portela)
Não amo esta filha nem um pouco, você diz para a professora. É a tua maneira de dizer que me ama muito. (O coração do dano - María Negroni)
Seu fluxo de comentários acerca da vida do lado de fora da janela foi o primeiro gostinho que tive dos frutos da inteligência: minha mãe sabia como transformar fofoca em conhecimento. (Afetos ferozes - Vivian Gornick)
“Estou enciumada”, desabafa minha mãe. “Tenho ciúme porque ela viveu a vida dela. Eu não vivi a minha.” (Afetos ferozes - Vivian Gornick)
Durante um café da manhã, curiosa, perguntei à minha mãe:
— Quando é que você se percebeu velha?Aos 77 anos, e surpresa com a questão, ela encerrou a conversa:
— Nunca! Eu ainda não sou velha!(Velhos são os outros - Andréa Pacha)
Mãe é uma mulher que ficou louca. (Miguel Sokol)
Ela era, às vezes, burramente sincera, dizia as maiores besteiras para algumas pessoas que, de certa forma, se ofendiam. Eu chamava a sua atenção e ela dizia: “Que que tem? É verdade", como se o que ela classificava como verdade fosse uma urgência absoluta que precisasse ser dita. Eu aprendi a usar o silêncio para não me incriminar. (Lili: a novela de um luto - Noemi Jaffe)
E você? Também é obcecada pela sua mãe?
Manda um oitudobem?!, vou adorar saber se ela ainda pega no seu pé por coisas que você aprontou na década passada.
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