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Fernanda Neute · Jul 10, 2026

A minha história hormonal (e tudo que eu queria ter sabido antes)

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Fernanda Neute · Fernanda Neute

Não tenho como falar da minha experiência com a reposição hormonal sem antes te dar um contexto de como eu cheguei até aqui.

Minha primeira menstruação aconteceu no dia 4 de março de 1994, um pouco antes de eu fazer 14 anos. Como eu sei? Eu tenho anotado no meu diário 🤓!

Desde então, ela sempre foi muito intensa e acompanhada de cólicas debilitantes que eu fui influenciada a acreditar que eram normais (tenho certeza de que não sou a única).

Porém, passado um ano e meio de dores, menstruação desregulada e acne severa, aos 16 anos eu fui ao ginecologista pela primeira vez e, depois de uma ultrassom abdominal, saí com o diagnóstico de síndrome do ovário policístico, até pouco tempo conhecida como SOP.

A SOP é, no fundo, um problema de ovulação com raiz metabólica. A resistência à insulina faz o ovário produzir hormônios masculinos demais, os folículos não amadurecem o suficiente para ovular e se acumulam no ovário (os tais "cistos", que nem são cistos de verdade).

Ela causa ciclos irregulares, acne, aumento de pelos, além de dificuldade para emagrecer. O nome fala em ovário, mas o problema é do corpo inteiro (falarei mais sobre isso).

Na mesma consulta, a médica disse que o tratamento era com anticoncepcional e, como eu tinha muita acne, o melhor era o Diane 35 (acetato de ciproterona 2mg que é uma progesterona com forte ação antiandrogênica que bloqueia a ação dos hormônios masculinos + etinilestradiol 0,035mg, um estrogênio sintético).

Daquele dia em diante, eu passei a tomar o anticoncepcional religiosamente, mas ainda assim, as cólicas e as espinhas continuavam sendo um problema que eu fui aprendendo a conviver.

Nessa época eu já trabalhava e me lembro de tomar Buscopan compulsivamente para aliviar as cólicas porque eu tinha não só que trabalhar, mas também ir para a escola enquanto a minha vontade era deitar na cama em posição fetal.

Dez anos depois, aos 26 anos, logo após a morte do meu pai, a acne estava fora de controle e eu não aguentava mais aquele rosto vermelho e inflamado. Sempre cuidei, fiz limpeza de pele, skincare todos os dias (mesmo antes disso ser moda), já tinha tomado alguns antibióticos, mas nada resolvia.

Depois de muito relutar, decidi tratar com Roacutan e, pela primeira vez na vida, eu tive um rosto claro e sem as marcas vermelhas.

Na mesma época, eu também descobri um nódulo de 5cm de diâmetro na minha tireoide, consequência de uma doença autoimune chamada Hashimoto, que eu não sabia que tinha até então.

Quando recebi esse diagnóstico, a médica disse que não tinha nada a ser feito a não ser esperar até a minha tireoide falhar ou crescer ao ponto de ter que ser retirada completamente e foi isso que eu fiz, continuei vivendo a minha vida como se nada fosse, esperando esse dia chegar.

A mesma médica também me orientou a trocar o anticoncepcional, dizendo que o Diane 35 era muito antigo e existiam opções mais modernas e melhores como o Yasmin e Yaz.

Decidi tomar o Yasmin (drospirenona 3mg, uma progesterona sintética de nova geração que possui propriedades parecidas com a progesterona natural do corpo com efeito diurético e ação antiandrogênica + etinilestradiol (0,03mg), mas depois de alguns meses tendo as piores enxaquecas da minha vida, decidimos mudar.

Comecei com o Gracial, um anticoncepcional bifásico em que as doses dos hormônios mudam ao longo da cartela para tentar imitar o ciclo menstrual natural (comprimidos azuis 7 primeiros dias 0,025mg de desogestrel que é um progesterona sintética + 0,040mg de etinilestradiol, um estrogênio sintético e comprimidos brancos nos outros 15 dias 0,125 mg de desogestrel + 0,030 mg de etinilestradiol) que tomei por mais 10 anos, até decidir parar completamente aos 36 anos.

Em um exame de rotina aos 30 anos, descobri que tinha um cisto no ovário que precisava ser retirado imediatamente e uma semana depois eu fiz minha primeira cirurgia, sem nem perguntar para a médica por que, que tipo de cisto ou em qual ovário.

Até então, nada disso me preocupava. Eu não achava que a acne, as cólicas debilitantes, o inchaço nas pernas e na barriga, as varizes, a celulite persistente mesmo em pernas muito finas e quase sem gordura, o excesso de pelos, as dores de cabeça, as micro verruguinhas brotando em toda parte do meu corpo eram sintomas de algo acontecendo no meu corpo.

Eu achava que eu tinha que buscar o remédio. Para a acne, Roacutan; para as cólicas, Buscopan; para as varizes, escleroterapia; para a celulite, cremes; para as verrugas, dermatologista; para o excesso de pelo, depilação a laser.

Eu nunca me questionei ou questionei os médicos sobre nada, eu apenas seguia ordens.

Olhando pra trás, é isso que mais me impressiona (e de certa forma me entristece): por vinte anos, cada pedaço do meu corpo foi tratado como um problema isolado, por um especialista diferente. Nenhum dos médicos parou pra olhar pra mim como um sistema inteiro, conectado. E eu, obediente, também não.

Foi mais ou menos com 33-34 anos que a coisa começou a ficar insustentável. Eu não conseguia me concentrar, minha memória — que sempre foi excelente — estava péssima, eu não me sentia eu mesma, mas não sabia explicar exatamente o que estava acontecendo.

A minha primeira hipótese foi a tireoide. Eu já sabia que ela seria um ponto de atenção em algum momento e talvez tivesse chegado a hora, mas eu não queria fazer outra cirurgia, ainda mais estando de casamento marcado.

Em 2017, aos 36 anos, depois de começar a finalmente estudar um pouco mais sobre as minhas questões de saúde, eu decidi que era a hora de parar de tomar anticoncepcional.

Foi a primeira vez que eu entendi os efeitos colaterais e perigos do uso prolongado e achei que eu deveria ver como o meu corpo se comportaria sem esses hormônios.

Na época, eu imaginei que o resultado seria positivo. Mal sabia eu que essa decisão pioraria muito a minha qualidade de vida.

No ano seguinte, em 2018, eu tive que fazer a tireoidectomia (remoção total da tireoide) e também passei a tomar o hormônio (levotiroxina) que não estava mais sendo produzido pelo meu corpo.

De lá para cá (e eu nem vou entrar no mérito do explante de silicone porque já falei bastante disso AQUI, e continua sendo a melhor coisa quer eu fiz pela minha saúde) a minha vida virou de cabeça para baixo.

Há quase 10 anos eu lido com sintomas que são totalmente ligados à minha saúde hormonal (e comuns na perimenopausa) como: suadeira noturna, fogachos, névoa mental, alterações de humor, dores articulares e musculares, problemas de memória, boca seca, insônia, urgência para urinar no meio da noite, ansiedade, para nomear alguns.

Tudo o que eu ouvia dos vários médicos que procurei ao longo desses anos era: seus exames estão normais.

Quando algum marcador estava alterado, como foi o caso de algumas vitaminas e minerais, eu suplementava, mas nada melhorava.

A minha frustração me fez querer estudar, aprender e testar. Foi assim que nos últimos 6 anos eu me formei Health Coach pelo Institute for Integrative Nutrition (IIN), li dezenas de livros, assisti palestras, paguei por muitos exames do meu próprio bolso e testei vários protocolos por minha conta e risco.

Alguns ajudaram muito, outros não, mas pelo menos eu sinto que eu tomei a frente da minha saúde e entendi que eu precisava ser a CEO, a pessoa que comanda e contrata os profissionais para me auxiliarem, e não para me darem ordens do que fazer.

Foram vinte anos seguindo ordens, mas agora, eu finalmente me sinto a principal guardiã da minha saúde, além de ter aprendido a fazer as perguntas certas e a conversar com os médicos de “igual para igual”, já que eles podem até ser especialistas em determinadas doenças, mas a única especialista no meu corpo sou eu.

Nos últimos dois anos, a minha obsessão virou hormônios e, consequentemente, perimenopausa.

Quanto mais eu estudava, mais eu entendia que meu problema era uma grande bagunça hormonal que piorou muito quando eu parei de tomar o anticoncepcional.

Nos meses depois de parar com a pílula eu comecei a fazer testes de ovulação e percebi que eu não estava ovulando. Eu nunca tinha pensado nisso porque essa é exatamente a função da pílula, mas se eu não estava tomando, então por que a minha ovulação não estava acontecendo?

Procurei uma ginecologista e a primeira pergunta que ela me fez foi: “Você está tentando engravidar?”, no que eu respondi: “Não, só estou tentando entender porque minha ovulação não voltou depois de parar com o anticoncepcional.”

Sabe o que ela me disse? “Quando você quiser engravidar eu te indico um médico de fertilidade, mas por ora, não tem nada que eu possa fazer.”

Por anos, eu fui a diversos médicos sempre reclamando dos mesmos sintomas e ninguém, NINGUÉM ligou o lé com cré: “Se você tem SOP e não está ovulando, sua progesterona está baixa porque não recebe o sinal pela ovulação e esses sintomas que você sente estão relacionados a isso.”

Depois de anos sofrendo eu entendi que desde a adolescência eu treinei o meu corpo para funcionar “artificialmente” com os hormônios do anticoncepcional. Quando eu tirei o estímulo, meus hormônios naturais viraram uma montanha russa, exatamente o que acontece na perimenopausa.

O problema é que eu estava em um grande limbo na visão dos médicos.

Eu não tinha mais os microcistos que caracterizavam o ovário policístico, eu nunca tinha engravidado e nem estava interessada, e eu era muito nova para estar em perimenopausa, ou seja, ninguém sabia o que fazer comigo.

Além disso, existem três usos claros para os hormônios: prevenção de gravidez, estímulo de ovulação para tratamento de fertilidade ou reposição, mas nunca ouvi ninguém falar sobre essa organização hormonal que eu claramente precisava.

A sensação que eu fiquei é: se você não quer evitar gravidez, ter um filho ou se não está velha o suficiente, ninguém se importa com você.

Vocês devem ter percebido que eu fiz questão de colocar qual era o princípio ativo de cada um dos anticoncepcionais que eu já tomei.

Por anos, eu acreditei que reposição de estrogênio na perimenopausa causava câncer. Tinha pavor de pensar em fazer e vi minha mãe e minhas tias passarem por todos os sintomas sem fazer nada por causa desse medo.

O primeiro clique veio quando fui pesquisar sobre os anticoncepcionais que eu tomei ao longo da vida e vi que eles eram cheios de (pasmem!) estrogênio.

Adolescentes tomam anticoncepcional aos montes, que nada mais é do que hormônio na forma sintética, muitas vezes em dose acima do que o corpo produz, com a função de passar por cima do sistema e desligar a ovulação.

Mais tarde, mulheres se submetem a vários ciclos de FIV, injetando uma quantidade absurda de hormônios para turbinar os ovários e produzir o máximo de óvulos possível, sem pensar muito nos efeitos a longo prazo.

E ninguém se questiona se esses hormônios fazem mal ou não.

Mas é na reposição, que faz o oposto das outras duas e só devolve (em doses fisiológicas) o que o corpo está perdendo, usando moléculas idênticas às que o próprio ovário fabricava, que mora o “perigo”.

Só para dar um pouco mais de contexto e eu não passar raiva sozinha:

A pílula combinada é classificada como carcinógeno do Grupo 1 pela IARC, o braço de câncer da Organização Mundial da Saúde (a categoria de risco mais alta que existe, a mesma do cigarro, do álcool e do amianto).

Isso não é sensacionalismo de internet: está nas monografias da OMS desde os anos 1990. E, mesmo assim, muitas de nós tomou essa pílula por décadas sem nem pensar a respeito.

E, pra ser justa, eu tomaria tudo de novo. O risco absoluto é pequeno e a pílula ainda protege contra uma gravidez indesejada e outros cânceres. O ponto é: o benefício é maior do que o risco, então a gente aprendeu a conviver com o risco.

Já a reposição virou sinônimo de câncer por causa de um único estudo.

Em 2002, o Women’s Health Initiative, um dos maiores estudos de saúde da mulher já feitos, foi interrompido no meio porque os dados sugeriam aumento de risco de câncer de mama e problemas cardíacos.

A informação correu o mundo, os médicos pararam de receitar e as mulheres largaram a reposição da noite pro dia.

O detalhe que quase ninguém conta: o estudo foi contestado por especialistas desde o começo.

A idade média das participantes era 63 anos — bem depois da transição menopausal, que costuma acontecer entre 45 e 55 — e a formulação usada era um estrogênio sintético antigo, nada parecido com o estradiol bioidêntico de hoje.

Várias análises mostraram que, para a mulher que começa cedo, os benefícios superavam os riscos. Ou seja: a ciência se corrigiu, mas o mito já tinha se instalado e o medo ficou no inconsciente coletivo por mais de vinte anos.

A correção institucional só veio em novembro de 2025, quando a FDA anunciou que ia retirar a tarja preta dos produtos de reposição hormonal, e em fevereiro de 2026 essa mudança virou realidade nos rótulos.

A sensação que dá é que nunca foi pelo risco. A pílula serve à mulher jovem que não quer engravidar. A FIV serve à mulher que quer reproduzir. As duas servem a um corpo que ainda interessa ao projeto reprodutivo.

A reposição serve à mulher que já saiu dessa equação. O mesmo tipo de risco foi tolerado, normalizado, engolido sem reclamar enquanto o corpo “servia pra alguma coisa”, mas virou terror no instante em que beneficiaria a mulher que deixou de servir.

Depois de já ter passado por tantas questões, eu sabia que queria começar a reposição hormonal, mas queria ter o acompanhamento de um médico que realmente estivesse aberto e disposto a trabalhar comigo, do meu jeito.

Como eu moro nos EUA, isso é um desafio, já que os médicos aqui mal olham na sua cara, não querem ir além do escopo mínimo, e os planos de saúde também dificultam os pedidos e aprovações de exames.

Foi quando, no final do ano passado, eu fui convidada para um evento em uma clínica que estava sendo inaugurada, totalmente focada na saúde da mulher 35+, e conheci uma das cofundadoras, uma médica especializada em hormônios e gerenciamento de estresse.

Com ela, nós pensamos em um protocolo para que eu começasse a reposição hormonal. Lembrando aqui que meu quadro é complexo:

  • Não tenho tireoide e já faço uso de hormônios “externos” para uma função extremamente importante.

  • SOP, que em 2026 foi renomeada como síndrome ovariana metabólica poliendócrina (PMOS), ou seja, é uma condição metabólica e multissistêmica, que envolve o ovário, mas não se define por ele — embora influencie diretamente os hormônios (por quase cem anos, essa condição que mexe com coração, metabolismo, humor e pele foi catalogada pelo ovário e isso atrasou diagnóstico e tratamento de uma em cada oito mulheres no mundo).

  • Adenomiose, que é quando o tecido que reveste o útero por dentro (o endométrio) invade a parede muscular do útero, causando cólicas e sangramento intenso (a endometriose é a versão em que esse mesmo tecido cresce para fora do útero).

  • Prolactina alta e aumentando nos últimos 5 anos.

  • Sintomas claros de perimenopausa.

Eu tinha altas expectativas, porque depois de ter passado anos tentando absolutamente tudo o que eu podia, eu estava desesperada para voltar a ser eu mesma, dormir, ter qualidade de vida e aproveitar todo o meu potencial e os privilégios que eu demorei tantos anos para conseguir.

Read the original on feneute.substack.com

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