[Edição #88]
Um conhecido meu conta uma história engraçada. Ele se inscreveu numa oficina de escrita criativa porque acreditou que ela o ajudaria a desbloquear a escrita da tese de doutorado. A experiência foi bem diferente do que havia imaginado. Entrou na sala inocente, convencido de que só assistiria às aulas e levaria o aprendizado consigo. Não sabia que teria de ler em voz alta parte do que escreveu, diante dos professores e dos demais inscritos. Até pensou que teria uma escapatória, um espaço para inventar uma desculpa e não ler. No fim das contas cedeu e até saiu da sala mais leve. Ninguém correu atrás dele para dizer que o texto estava ruim no fim da aula. Pegou gosto por essa dinâmica e meteu-se logo em outras duas oficinas de escrita. No meio de uma delas, viu uma chamada aberta para uma premiação literária. Um certo Prêmio SESC. Inscreveu-se e saiu vitorioso na categoria conto.
Nos conhecemos numa dessas oficinas, conduzida por Marcelino Freire, numa leitura que ele fez de um dos contos que entraria na coletânea. Àquela altura eu ainda não sabia, mas acompanhava o nascimento de um escritor e de um livro. O texto em questão foi inspirado em “Noiva na favela dos Alagados”, fotografia de Walter Firmo, que o fez pensar na mãe dele. Em algum momento do passado, um grupo de alunos andava por Massaranduba, bairro de Salvador onde ela morava à época. Uma das meninas ficou impressionada com a barriga dela, gravidíssima, e pediu para tirar uma foto.
Abáz, inspirado pela história da mãe e pela fotografia de Walter Firmo, escreveu1 “Modelo da Maré”. No desenrolar da oficina, o que mais cativava na escrita do Abáz era essa especificidade: os detalhes que geravam reconhecimento universal. Era algo que ele parecia fazer com muita facilidade. Eu nunca visitei Massaranduba, mas, por meio de elementos familiares ao cotidiano, Abáz me levou até lá. Outro elemento que pode ter contribuído para minha conexão foi um ponto em comum entre nossos projetos: o desejo de deixar de lado a vergonha das nossas origens e, por meio da escrita, fazer as pazes com o lugar onde crescemos.
“A literatura é diferente da vida porque a vida é cheia de detalhes, mas de maneira amorfa, e raramente ela nos conduz a eles, enquanto a literatura nos ensina a notar - a notar como minha mãe, por exemplo, costuma enxugar a boca antes de me beijar; o som de britadeira que faz um táxi londrino quando o motor a diesel está em ponto morto; os riscos esbranquiçados numa jaqueta velha de couro que parecem estrias de gordura num pedaço de carne; como a neve fresca “range” sob os pés”
James Wood em Como funciona a ficção
Mantive o radar aceso para acompanhar a maior parte dos meus colegas de turma, e o anúncio dos vencedores do Prêmio SESC 2025 veio quando a oficina já havia acabado. Vibrei como se fosse alguém da família; às vezes sinto que estar na mesma oficina nos torna, em certa medida, irmãos de escrita. Empolguei tanto com o lançamento que, antes mesmo de ler a coletânea, já tinha recomendado para uma das leituras de 2026 do Clube Dedo de Prosa. Mal disponibilizaram a versão digital e eu já tinha garantido minha compra.
A coletânea abre com “Os caixões de Cristódio”. Nas primeiras linhas descobrimos que Cristódio era pouco apreciado pela comunidade. “Quando Madá ameaçou um choro, Maria Pequena até baixou a cabeça para não rir. Ninguém gostava do desgraçado.” Logo pensei na vida nas cidades do interior, com Cristódios que não seguram a língua na boca, que todo mundo odeia, do tanto que é inconveniente, mas que tolera e não deixa de velar quando bate as botas.
Li “A bença” com vovó em mente. O personagem principal quer se mudar para Brasília para buscar trabalho e melhores oportunidades. Antes de partir, pede a bênção da mãe, que recusa. Ele cancela os planos e só sai de onde mora no último dia de vida da mãe. “Organizamos o enterro, falei a bença, mãe, pela última vez e só então pude ir embora”. Eu, que nem religiosa sou, senti, do lado de cá, o peso deste aval da mãe do personagem — que, para mim, vinha na figura da minha avó materna, que partiu no ano passado.
Um dos melhores exemplos do humor em meio à tragédia, para mim, é “Boca-de-me-dê”. Boca, protagonista do conto, é um garoto carismático que me lembra os moleques com quem brincava na rua quando morava no interior de Mato Grosso do Sul. Bom de boca e de coração, ele protagoniza um episódio em que é usado como instrumento de vingança por uma tia e quase tem o destino condenado.
Meu conto favorito é “Sangue, mulher”, que abre com Nininha mostrando os seios siliconados e soltando a frase “Se eu morrer nova, quero morrer com os peitos de fora”. Ela entra em cena com as melhores amigas, Babalu e Danda. Elas se conheceram na infância e cresceram juntas, chegando a fazer aquele famoso pacto de sangue com um furinho na ponta do dedo. A vida segue hostil, bruta, mas elas caminham juntas e uma ajuda a outra a se reerguer. É uma linda lição de amizade, que se fecha com a filha de uma delas, com o joelho ralado e sangrando, acolhida por Babalu, que limpa aquele sangue que também é de Nininha e de Danda.
Para Abáz, a literatura é uma festa: e é isso que encontramos nos 18 contos de Massaranduba. As personagens desconhecem o conforto, mas resistem. Ele quer nos levar ao microcosmo de Massaranduba sem vitimizar quem vive por lá. Usa a ficção para mostrar gente de carne e osso, que não se dobra diante dos desafios e aprende a rir apesar da dor. Eu lia pensando em “O Ninho", de Bethânia Pires Amaro (outra vencedora do Prêmio SESC), “Erva Brava”, de Paulliny Tort, em “Ninguém quis ver”, de Bruna Mitrano, e até em Caio Fernando Abreu. Nessa brincadeira de não ter a intenção de escrever um livro e fazê-lo “por acidente”, Abáz usa e abusa da liberdade criativa e nos entrega uma obra plural.
Participar de oficinas de escrita colocou muita gente incrível no meu caminho. Me ajudou a obter mais referências e a ampliar minhas habilidades como escritora. Só que, pela primeira vez, vi um escritor nascer durante uma oficina, e essa foi uma das coisas mais legais do meu 2025. O conto que fecha a obra dá título ao livro e é uma caminhada por esse bairro de Salvador que nunca visitei, mas que agora me parece muito familiar.
O vídeo novo do canal é sobre Massaranduba :) Confira, assine, compartilhe e espalhe a palavra de Abáz por aí:
Comecei a ler Famesick, da Lena Dunham. Girls me marcou muito e, apesar da decepção com Too Much, série que ela produziu e lançou na Netflix, o fenômeno Lena Dunham me intriga muito. É insano pensar que ela escreveu e dirigiu a primeira temporada inteira antes mesmo de completar 25 anos. Luisa Manske contou como foi rever esse clássico.
Gregório Duvivier me fez companhia nas férias com o recém-lançado Aos pés da letra. Um verdadeiro presente para celebrar a língua portuguesa, ainda mais depois de sair da peça “O céu da língua” doida para conversar sobre os pormenores da língua-mãe. Munike Ávila listou e comentou seis livros para entender nossa língua. Gregório está por lá em excelente companhia. Um texto valioso para quem tem curiosidade e paixão pelo português.
Você pode responder direto nesta mensagem ou enviar um e-mail à parte para lidycomisso@gmail.com :) A resposta costuma demorar, mas chega.
Assinou a newsletter recentemente? Te convido a conferir as publicações anteriores. Se você comentou nas edições antigas, obrigada! Às vezes enrolo um pouco, mas também respondo. É que sou da turminha do slow content.
Não hesite em deixar comentários ou em me escrever sobre textos antigos. Amo ver como envelhecem e continuam se espalhando por aí <3
Um cheeeiro e até a próxima!
Abáz também está no Substack e contou essa história nesta edição.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.