[Edição #89]
Sem a bênção da vó, a nossa viagem não poderia começar. Verdadeiro empecilho se considerarmos que tanto eu quanto N., meu marido, perdemos as nossas. Antes de fechar as malas e cair na estrada, combinei com o meu marido de passarmos no columbário onde as cinzas da avó dele estavam para contarmos dos nossos planos e, claro, pedir a benção antes de me tornar um “sac de sable” (saco de areia). Esse é o nome carinhoso dado a quem não sabe conduzir uma moto e ocupa a posição privilegiada de passageira, papel que assumi ao longo de 2617 km no ano passado.
Essa história começou em 2019. Conhecia N. há três meses, nem isso, quando me perguntou se eu já tinha andado de moto. Informei que não. Perguntou se eu tinha interesse e, diante da resposta positiva, arranjou um capacete e uma jaqueta emprestados de uma colega de trabalho, me colocou na garupa da Ducati HyperMotard e me convidou a desbravar as imediações de Annecy, a cidade onde morávamos na época, palco do nosso primeiro encontro.
O meu budget no início de 2019 era limitado. Era uma estudante brasileira (nem tão jovem) que morava na França e se instalou em Annecy para fazer um estágio, sem saber que o turismo já tinha feito o valor do metro quadrado explodir naquela cidade. Passava meus fins de semana escrevendo meu relatório de estágio e enfiado em alguma sala de cinema; às vezes saía para caminhar ou tomar uma cerveja com amigos, mas nunca saía de Annecy. Quase não dava para viajar naqueles tempos.
N. e a moto me mostraram bocadilhos escondidos nos caminhos que contornavam Annecy. O capacete era pequeno demais para a minha cabeça e os termômetros ultrapassavam os 30 graus. Apesar das circunstâncias desconfortáveis, amei a sensação de liberdade na garupa da moto, passando tão pertinho das formações montanhosas, absorvendo todos os cheiros e sentindo o cabelo bagunçar debaixo do capacete.
Quis a vida nos levar a viver num país plano demais para ter montanhas. Morar na Holanda cortou nosso barato de passar por estradas sinuosas; até a Ducati foi vendida. Cinco anos depois daquele primeiro passeio de uma tarde pelos Alpes, N. me apareceu com um roteiro curto de três dias, saindo da casa dos pais dele, perto de Annecy, em direção ao sul da França. Era um teste para saber como reagiríamos a um trajeto com tão pouco a bordo, pois o improviso significava embarcar só com um top case minúsculo. Tem relato do passeio aqui:
Quando dois amigos queridos anunciaram que se casariam em Guimarães, no interior de Portugal, encontramos a ocasião para pôr na estrada um sonho de longa data: fazer uma longa viagem de moto. Jogamos o ponto de partida e o destino desejado numa ferramenta que nos ajudou a visualizar as possíveis rotas para chegar a Guimarães e, a partir daquele rascunho, preparamos o que se transformaria numa das experiências mais doidas & incríveis da minha vida.
Com a bênção da avó de N., concedida em um cemitério de Seyssel, partimos. Saímos do cinza, com clima de chuva, rumo ao sul da França. Atravessamos uma manhã fria para queimar o cocuruto em Saint-Marcellin, no Vale de Isère, onde, no almoço, paramos para abastecer o corpo com um pratão de ravioli recheados de queijo, que dá nome à cidade. Em poucos quilômetros, ainda no mesmo país, a vegetação mudou de cara, tornando-se mais árida; notei que a textura das folhas parecia mais rígida. A temperatura subia, mas as colinas e as curvas seguiam conosco, repaginadas.
Nosso hotel ficava no coração do Parque Nacional de Ardèche. Privas estava deserta naquele fim de agosto; demoramos até encontrar um restaurante aberto. Só serviam pizzas. Foi o suficiente; já tínhamos combinado de ter um primeiro dia mais suave para sentir o clima da viagem, estimar quanto tempo o nosso corpo aguentava em cima da moto. Era a primeira vez que viajávamos com a BMW S1000XR, recente aquisição do meu marido e do pai dele.
O dia dois nos levou para Le Caylar, na Occitânia (sim, é daquelas imediações a marca de cosméticos). Eu continuava alucinada com as formações rochosas. É que morar num país inteiro construído sobre água, onde o ponto mais alto tem 322,4 metros de altitude, deixa a pessoa facilmente emocionada com qualquer montanha pelo caminho. Alguns trechos no caminho de Privas a Le Caylar me lembravam obras de tapeçaria - de longe, as árvores e a relva pareciam macias, um edredom da natureza. Estávamos nas últimas semanas do verão, dando as boas-vindas ao outono: os tons terrosos começavam a dar as caras. Le Caylar teve gosto de aligot, um purê de batatas preparado com queijo de textura puxenta, terror dos intolerantes à lactose.
O próximo destino foi ideia minha, e a motivação não poderia ser mais sem graça: as apostilas da Aliança Francesa. Comecei a estudar francês em 2010 e tinha a lembrança muito presente de um diálogo sobre Carcassonne, na região de Languedoc, um nome que deve ter me marcado pela sonoridade estranha aos meus ouvidos, ainda desconfortáveis com o francês. Antes de chegar, passei frio na estrada. O terceiro dia foi marcado por céu fechado e até choveu um pouco, e eu vi naquela estrada lá em Languedoc, no sul da França, estradas de vegetação pesada, de asfalto escuro de chuva, que me lembraram muito a Serra Gaúcha. Fiquei receosa, com exceção da roupa que precisava usar todos os dias para andar de moto, só tinha vestimentas para clima tropical.
Planejamos nosso roteiro tendo em mente que ficaríamos alguns dias sem pegar estrada; queríamos dar um descanso à moto; ela também merecia. Éramos duas pessoas, mas só uma conduzia; não conhecíamos a maior parte das estradas, e o calor de início de setembro pode ser intenso. Também preferimos nos hospedar em hotéis porque não tínhamos espaço para levar todos os itens necessários para acampar. Carcassonne foi uma dessas paradas e, por lá, passamos nosso quarto dia, tendo apenas nossos pés como meio de transporte.
Viajar de moto pode ser inconveniente para quem adora se emperiquitar. Tínhamos pouco espaço; não deu para levar muita roupa; quem dirá uma nécessaire cheia de produtos de pele e maquiagem. Por isso, todos os dias de folga serviam também para ir até uma lavanderia dar jeito nos nossos trapos. Ao menos dava para tomar um café da manhã tranquilo enquanto as máquinas trabalhavam. Carcassonne era bem mais legal do que nos livros da Aliança Francesa, uma cidade medieval que poderia proporcionar uma viagem no tempo — não fossem os comércios voltados a turistas que tomavam conta de todos os cantos.
É isso mesmo, uma turista se queixando de outras coisas feitas para turistas. Mas é positivo que tenham mantido a estrutura da cidade antiga intacta. Arrastei meu marido para o cinema porque, além de cinéfila doida, eu não vivo sem um drama familiar ficcional e não me aguentava mais de curiosidade para conferir Valor Sentimental, do Joachim Trier. A melhor parte foi conversar sobre nossas impressões enquanto jantávamos um farto cassoulet, prato típico da região de Languedoc-Roussillon. A base é feita com feijão branco e carne seca e acrescentam-se confit de ganso ou de pato, salsichas, linguiça e carne de porco. Talvez eu diga algo criminoso, mas é a feijoada deles. Um prato bem levinho para digerir o dramalhão familiar de Trier.
Tenho experiência limitada como motorista. Sou do grupo que tirou a carta, dirigiu por um tempo só na cidade e nunca mais tocou um carro. Em termos práticos, isso significa que só descobri a diferença entre autoestrada e rodovia quando voltei a dirigir na Holanda, em 2024. Era esse o meu nível de conhecimento. Estar mais próximo da paisagem é uma das maiores vantagens da moto, o que permite, inclusive, pegar estradas onde os carros não passam. Para cruzar a fronteira entre a França e a Espanha, N. comentou que seguiríamos uma rota um pouco mais longa para visitar a gruta de Mas d’Azil. Ele só esqueceu de mencionar que passaríamos pelo meio dela, algo que eu nem imaginava ser possível. Até então, só tinha visitado grutas acompanhada de guias e, em todos os casos, tínhamos uma pequena trilha a percorrer antes de entrar.
Além de pegar estradas alternativas, passamos por cidades que talvez eu não tivesse motivos para conhecer. Para quem viaja muito, é comum visitar capitais e grandes cidades. Quando surge a oportunidade de conhecer a Holanda, a maioria das pessoas quer ir a Amsterdã e não a Gouda. É normal; olha o tamanho do mundo em que vivemos. Fazer uma road trip não te dá a opção de ficar só em cidade grande. Por uma questão logística, você tem que achar um canto para dormir em cidadezinhas e vilarejos no meio do nada. Para mim, o ponto alto da viagem foi poder degustar um pouco da vida cotidiana de quem vive longe dos grandes centros.
Cruzamos a gruta rumo a Aínsa, nos Pireneus, na Espanha. Tenho critérios específicos — gosto de praias, sobretudo as brasileiras. Associo praia a calor, cheio de creme solar, espetinho de queijo e água de coco fresca. Há praias lindas na Europa, mas encará-las com temperaturas abaixo de 2 dígitos e sem poder entrar no mar é uma experiência diferente. Quanto mais pego estrada na Europa, mais me convenço de que minha preferência é pelas montanhas. Aprecio o quanto é mais fresco, e sobretudo o quanto são imponentes.
Como um bom relato de viagem que se preze, precisei dividir o texto em duas partes. Quinta que vem tem mais! Convido vocês a passearem comigo pelos Pireneus, na Espanha, e por um pedacinho de Portugal. Uma foto de San Sebastián para deixar um gostinho do que vem por aí:
Hoje tem vídeo novo sobre Cantagalo, da Fernanda Teixeira Ribeiro.
Também teve vídeo sobre minha passagem mais recente do Brasil:
O primeiro romance da Gabriela Zambiazi, Durou um momento, não teve fim, será publicado pela Todavia em breve, e já dá pra adquiri-lo na pré-venda.
Li e me diverti muito com Aos Pés da Letra, do Gregório Duvivier.
Uma das minhas newsletters favoritas chegou à edição número 300.
Aline Valek me levou para os Lençóis Maranhenses.
Tô amando essa leva recente de filmes de terror. Paula Maria escreveu sobre Obsessão.
Você pode responder direto nesta mensagem ou enviar um e-mail à parte para lidycomisso@gmail.com :) A resposta costuma demorar, mas chega.
Assinou a newsletter recentemente? Te convido a conferir as publicações anteriores. Se você comentou nas edições antigas, obrigada! Às vezes enrolo um pouco, mas também respondo. É que sou da turminha do slow content.
Não hesite em deixar comentários ou em me escrever sobre textos antigos. Amo ver como envelhecem e continuam se espalhando por aí <3
Um cheeeiro e até a próxima!

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