[Edição #87]
Sonhei que estava num open space. Escritório cheio, eu digitava algo no computador, levantando os olhos entre um toque de teclado e outro para olhar as duas telas. Donald Trump aparecia na sala, parava atrás das telas, me olhava e anunciava: “Chegamos ao último dia de abril, que também é o seu último dia; não precisa mais voltar ao escritório”. A fala dele se transformava em monólogo. Ele explicava que o meu medo de ser substituída pelo cara que fez o trabalho dele e o meu durante o meu afastamento se concretizou. Ele concluía com uma pergunta retórica: se queria uma recomendação para futuras experiências. Dizia que precisava ser mais Demi Lovato e menos Selena Gomez. Que isso de querer ser latina não era uma vantagem. Ainda penso nesta colocação final, hilária se considerarmos que só conheço ambas pelo nome.
Ele saía da sala e eu rompia o silêncio, perguntando se a minha amiga, Milena — que nunca trabalhou comigo e não vejo há mais de um ano — poderia me ajudar a levar minhas coisas embora, pois tinha um móvel com quatro gavetas cheias que precisava esvaziar antes de sair. Minha última lembrança desse sonho doido em que Trump era meu chefe foi a sensação aflitiva de não saber por onde começar diante do aviso súbito de que a minha trajetória naquela empresa havia acabado.
Comecei a dissecar o sonho enquanto fazia meu treino de membros inferiores na academia. Este foi um dos elementos fundamentais da minha rotina de desempregada. Pelo menos uma hora de academia todo santo dia. A princípio, achei que era para esvaziar a cabeça, mas acabou sendo meu jeito de organizar as ideias longe das distrações. Achava que era luxo poder ir a qualquer horário, inclusive às dez da manhã, mas agora enxergo isso como uma necessidade para manter a cabeça no lugar.
O sonho carregava elementos que, misturados num liquidificador, viraram um suco espesso da minha situação atual. Coisas que ouvi de chefes e de pessoas próximas se encapsularam nas falas do chefe. Nos últimos quatro anos, tive chefes holandeses que não eram muito chegados a imigrantes, e isso poderia explicar por que Trump aparece na figura do chefe — e a fala sobre não querer parecer latina. Ou ele foi uma mera representação do meu medo toda vez que vejo o nome do presidente dos Estados Unidos no título de uma notícia. O lance das gavetas era simples. Tenho bagagem, e muita, e a sorte de não precisar carregá-la sozinha.
Ficar desempregada duas vezes num intervalo de cinco meses, ambas em situações constrangedoras, massacrou um ego que já começava em desvantagem: feito de material sólido, mas fácil de quebrar. Por muitos anos trabalhei o emocional para aumentar a resistência desse material. Puxava minhas histórias trabalhando como assessora de imprensa em São Paulo, me transformando em guia de museu, fazendo uma transição de carreira na França, capaz de transitar facilmente entre português, inglês e francês. Qualidades robustas, aspectos que entendo como diferenciais. Mas, neste momento, não me servem de nada.
Entre a recente ascensão da extrema-direita e a presença massiva da inteligência artificial, que tomou o corpo do mercado de trabalho feito metástase, viver na Holanda e ter um emprego ficaram mais desafiadores do que há quase sete anos, quando cheguei. Não digo isso como justificativa e nem para me fazer de vítima. Basta conversar com quem vive por aqui e trabalha com tecnologia por alguns dias. É uma constatação de fatos.
Agora, como isso me afeta, já é outra história. Disparar currículos e, em troca, receber silêncio ou recusa é um golpe violento na vida de quem nunca teve dificuldade em conseguir trabalho. Ter recebido seguro-desemprego e saber que meu parceiro pode me ajudar é um privilégio, mas fere meu ego de quem um dia teve independência financeira.
Tem quem me diga que tudo isso aconteceu para me mostrar que o meio corporativo não é pra mim. As inúmeras aplicações rejeitadas não são um sinal de que não sou “boa o suficiente” ou de que não estou aplicando “da forma certa”, mas sim um sinal divino para seguir o meu chamado, fechar a cara para o trabalho tradicional e arriscar uma vida em que a arte é o meu sustento. Nos anos de construção de casca grossa e de resistência, aprendi também a tratar minhas habilidades artísticas com respeito. Escrevo bem, faço fotos bonitas e tenho um olhar apurado para a literatura, a música e o cinema. Qualidades que estudei na faculdade, em cursos livres e oficinas e que pratico há mais de quinze anos.
Inspirada numa sugestão da Júlia Palhardi, criei uma planilha para organizar e registrar o tempo dedicado a todos os meus projetos de escrita, que incluem o Substack e a escrita do romance. Em menos de uma semana, o número de horas chamou minha atenção. A melhor parte foi visualizar algo concreto: o tempo investido na escrita registrado como horas de trabalho, tal qual em um trabalho corporativo. Que é legal, claro, eu amo escrever, mas também é trabalho e exige um esforço mental que muita gente enxerga como menor porque, bem, tem quem diga que artista nem é gente.
Não sei o que será da minha pessoa jurídica ao longo deste 2026 penoso. Penso em alternativas um tanto contrariada, pois me desanima a ideia de enterrar mais uma profissão. No dia em que completo 35 anos me sinto frustrada por ter investido em duas carreiras que não vingaram. Por enquanto, ocupo os meus dias com a escrita, agora mais estruturada; invisto no aprendizado do holandês, agora com mais seriedade. Sigo em busca de pistas para conseguir um trabalho remunerado. No meio tempo, resolvi esticar a prosa que começo por aqui no Youtube. O intuito é usar o canal como uma sala de estar de Estrangeirismos: um espaço para explorar melhor os temas que abordo por aqui e para compartilhar meus processos de escrita e o que li nos últimos tempos.
Para quem é do vídeo, convido a conhecer minha segunda casa na internet, a assinar, a compartilhar e a sugerir temas para as próximas publicações. A ideia é sentar e conversar; dá para ouvir como um podcast também.
Estou na edição #24 da revista australiana Pure Slush. :D Vi a chamada aberta no ano passado e traduzi um dos meus contos para o inglês, sem muitas esperanças. Fiquei bem feliz ao receber um e-mail informando que gostariam de incluir Farewell Party na antologia. Eles trabalham com o formato print on demand, então dá para encomendar uma cópia física de qualquer lugar do mundo. A versão digital também está disponível.
Vi todos os episódios de “O Testamento: O Segredo de Anita Harley”, série documental que estreou neste ano no Globoplay. Anita está em coma desde 2016 e o patrimônio dela, estimado em R$ 2 bilhões, é alvo de uma disputa que nem o melhor roteirista do mundo poderia ter inventado.
O texto é de fevereiro, mas, vez por outra, o revisito. Lalai fez uma análise de como estava a cena musical em 2016 e de como reagíamos a ela, e traça um paralelo com a nossa nostalgia agora, dez anos depois.
O Jabuti abriu uma categoria para influenciadores que incentivam a leitura e isso, claro, gerou todo um burburinho. O texto mais lúcido que li sobre o assunto foi o do Élvio Cotrim, uma das pessoas que mais tenho curtido ler por aqui esses tempos.
Em agosto minha newsletter completa cinco anos e já estava na hora de organizar melhor meus textos. Para quem chegou agora, além do arquivo geral, fiz uma nova seleção por categorias. Tá no menu inicial, mas dá pra conferir aqui também.
Você pode responder direto nesta mensagem ou enviar um e-mail à parte para lidycomisso@gmail.com :) A resposta costuma demorar, mas chega.
Assinou a newsletter recentemente? Te convido a conferir as publicações anteriores. Se você comentou nas edições antigas, obrigada! Às vezes enrolo um pouco, mas também respondo. É que sou da turminha do slow content.
Não hesite em deixar comentários ou em me escrever sobre textos antigos. Amo ver como envelhecem e continuam se espalhando por aí <3
Um cheeeiro e até a próxima!

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