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Estrangeirismos · Jul 2, 2026

Diários de um saco de areia - parte 2

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Lidyanne · Estrangeirismos

[Edição #90]

Para ler a primeira parte:

Aínsa, Espanha. Setembro 2025. Acervo pessoal.

Aínsa é um antigo vilarejo medieval; as construções são quase todas de pedra. Descobri por lá a existência da associação “Los Pueblos Más Bonitos de España” (as povoações mais bonitas da Europa), e Aínsa honra o título. Parece uma viagem no tempo, um conforto aos olhos habituados a ver casas de tijolo aparente na Holanda. Parecia uma locação cinematográfica. O medo de passar frio se desfez na passagem de um país a outro. A Espanha não perdoa quando faz calor. Seguimos para Zarautz, no País Basco, no dia seguinte. Tinha me esquecido de que o nosso hotel ficava perto da praia, e a surpresa de mergulhar no Oceano Atlântico num dia quente, depois de muitas horas de estrada, foi bem-vinda.

Zarautz, País Basco. Setembro, 2025. Acervo pessoal.

Algo na Espanha bagunçou meu sono. Dormi mal em Aínsa e também em Zarautz, outro destino escolhido para uma pausa estratégica. No sétimo dia de viagem, deixamos a moto no estacionamento e pegamos um trem para Donostia-San Sebastián. Um verdadeiro desbunde em forma de cidade, acho que gastei metade de um filme tirando fotos de cada cantinho. Compensou pelas bolhas no pé que levei de volta para o hotel em Zarautz e por cada gota de suor que escorria pelo meu corpo. O calor tava de matar, mas, para minha sorte, o vermute espanhol desce suave com uma pedrona de gelo.

Donostia-San Sebastián, País Basco. Setembro, 2025. Acervo pessoal.

Ainda enebriada pelo Oceano Atlântico, subi na moto derretida no oitavo dia. Precisávamos chegar a Reinosa, mas queríamos parar primeiro em Bilbao, que ficava no caminho. Foi nosso trajeto mais curto, mas também o mais pegajoso e irritadiço. Nossos ânimos fritos não ajudaram a curtir a experiência do Museu Guggenheim, ou apenas fui vítima das minhas altas expectativas. Com exceção da arquitetura, que é impressionante, achei todas as exposições horríveis. Absolutamente nada me pegou, nem nas mostras temporárias, tampouco no acervo permanente.

Bilbao é fotogênica, isso é fato. Setembro, 2025. Acervo pessoal.

Saí pronta para mais uma decepção quando entramos num restaurante perto do museu para almoçar, mas acabou sendo nossa melhor surpresa. Combustível de qualidade para nos jogarmos mais uma vez na estrada quente até Reinosa. O desespero foi tanto que até paramos num vilarejo no meio do nada só porque vimos uma fonte. Molhamos nossas nucas e as camisetas e aproveitamos para tomar uma água bem gelada num boteco ao lado, onde dois casais enchiam a cara e falavam alto no meio da tarde.

Estivemos muito perto de cancelar a etapa seguinte do roteiro. O Parque Nacional Picos de Europa sofreu com queimadas e achamos que a estrada poderia estar bloqueada na direção do hotel onde nos hospedaríamos. Confiamos nas atualizações do Google Maps e partimos. Era um dos lugares mais lindos que já vi. Conforme avançávamos, pensei muito sobre a minha descrença. Não acredito na existência de um Deus criador todo-poderoso, mas devem existir forças divinas da natureza responsáveis pelas formações rochosas tão fabulosas. Nunca me senti tão bem quanto naquele momento, rodeada por uma natureza que me parecia irreal de tão linda. Confesso que chorei um pouquinho por emoção.

Picos de Europa, Espanha. Setembro, 2025. Acervo pessoal.

Tampouco pensei que percorrer tantos quilômetros na garupa de uma motocicleta seria um exercício de mindfulness. Diferentemente de uma viagem de carro, é impossível recorrer ao celular quando o tédio toma conta. Sem ter a responsabilidade de conduzir o veículo e prestar atenção na estrada, só me restava observar a paisagem e usar e abusar da errância dos pensamentos. Tive ideias para textos e para o meu romance; às vezes, aproveitava nossas pausas no meio da estrada para tirar o caderno do bolso e anotá-las. Em termos criativos, essa foi a viagem mais produtiva da minha vida.

Almoçamos num restaurante que ficava no caminho até o hotel e paramos em Potes para um sorvetinho. Já não fazia tanto calor quanto em Bilbao ou em Zarautz, mas estava quente o suficiente para um refresco. Dormimos no meio das montanhas, em Posada de Valdeón, que deve ter, no máximo, três ruas. Não sei explicar como isso é possível, mas aquele vilarejo realinhou meus chakras — e, embora eu ainda não soubesse, me preparou para nosso primeiro percalço da viagem.

Para chegar a León, no norte da Espanha, planejamos um desvio para visitar um pedacinho das Astúrias. Talvez por estar chapada pela força mística das montanhas e ter deixado que isso escoasse no meu marido, não reparamos no contador da moto. Só no dia seguinte nos demos conta de que chegamos em Posada de Valdeón com o tanque quase vazio e de que o posto de gasolina mais próximo ficava a quarenta quilômetros de distância. Tínhamos autonomia para cinquenta. N. nunca conduziu uma moto tão devagar em toda a sua vida. Perto do posto, ainda fizemos uma piada: imagina se a gente chegar lá e descobrir que não tem gasolina?

Era segunda-feira, e o posto de gasolina de Riaño estava zerado. O gerente não sabia informar se haveria gasolina dali a uma hora ou só no dia seguinte. O próximo posto ficava a 30 quilômetros. Avistamos um café aberto e fomos lá encher a barriga, dar um tempo para o caminhão chegar com o líquido precioso que nos permitiria seguir viagem. Passou uma hora, duas, nada. A dona do café chegou à nossa mesa duas vezes para perguntar se queríamos mais alguma coisa. Aquela senhora não tinha piedade de nós, viajantes sem gasolina.

Fui a uma garagem perguntar se não tinham, pelo menos, uma garrafa para nos vender, qualquer coisa. Nada. Nesse meio tempo, outros motoqueiros começaram a conversar com N. Eram três rapazes portugueses que, comovidos com a nossa situação, se ofereceram para ir até o próximo posto pegar gasolina para nós. Descolamos um galão de água de cinco litros vazio, um deles prendeu na mala da moto, trocamos WhatsApp com eles e sentamos no meio-fio para aguardar.

Outro trio de motoqueiros puxou conversa enquanto esperávamos e um deles comentou que tinha acabado de abastecer e poderia nos passar um pouco de gasolina, pelo menos o suficiente para irmos até o próximo posto. Um verdadeiro lorde inglês, aquele senhor foi um anjo. Foi pouco; desta vez, só conseguimos uma garrafa de 1,5 litros de água, mas, se a gente rodasse devagar, daria tudo certo. Avisamos os colegas portugueses de que não precisavam mais voltar e seguimos, prontos para cruzar com o caminhão da companhia de gás no meio do caminho. Já passava das 13h, cancelamos o desvio para as Astúrias, achamos um vilarejo para almoçar; de lá, seguimos para León.

Momento de glória recuperando um pouco de gasolina. Riaño, Espanha. Setembro, 2025. Acervo pessoal.

O senso de comunidade entre os motociclistas é forte, e isso me tocou muito. Tinha essa imagem de que quem anda de moto é meio bruto e de cara amarrada, mas só encontrei gente animada e sempre disposta a ajudar. Eu não tinha medo de viajar de moto, mas a proatividade e empatia de nossos camaradas motoqueiros me tranquilizaram ainda mais.

Na adolescência, lembro de ir com os meus amigos até a Sweet Sweet Way do Shopping Campo Grande, pegar um saquinho de plástico, encher de doces, pesar e passar o resto da tarde de sexta-feira comendo. Prefiro nem saber do que eram feitas aquelas jujubas, mas os tubos ácidos eram meus favoritos: vermelhos por fora, cheios de açúcar e recheados de uma espécie de marshmallow. Em León, enquanto esperava o jantar, vi um grupo de adolescentes com os mesmos saquinhos em mãos, só que cheios de azeitonas verdes grandes e vistosas. Mais saudáveis ao menos neste quesito.

Em geral, a massa turística de León era composta por idosos e pessoas mais velhas que percorriam o Caminho de Santiago. Mas à noite a juventude espanhola enchia as ruas. Fiquei um tanto impressionada ao ver meninas jovens vestidas como adultas; a quantidade de rapazes com patinetes elétricos era escandalosa.

Em todos os vilarejos espanhóis por onde passamos, fosse para um café ou para o almoço, havia uma máquina de jogo de azar e adesivos da famosa loteria de Natal (o equivalente deles à Mega-Sena da Virada). Em León, para minha surpresa, o padrão se repetia. Me passou uma energia de Brasil. No nosso dia livre, visitamos a Casa Botines, de arquitetura assinada por Gaudí, andamos sem destino definido e usamos o SPA do hotel pra relaxar. Para fechar, na janta, experimentamos os embutidos locais no bar Ezekiel.

León, Espanha. Setembro, 2025. Acervo pessoal.

León fica no noroeste da Espanha e foi a nossa última parada hispanohablante. Aproveitei para gastar o que restava do meu estoque de portunhol. De todos os lugares por onde passamos, foi o destino ao qual mais me apeguei. Fiquei numa fixação doida; queria até me mudar para lá.

Acordei com um sentimento agridoce no décimo segundo dia de viagem: já estava um pouco cansada de dormir em um lugar diferente a cada dia; sentia falta da minha rotina. Ao mesmo tempo, estava um pouco nostálgica pela viagem, tão próxima do fim. Deixamos León com céu nublado e um pouco de chuva para trás. Tivemos uma parada estratégica antes de cruzar a fronteira com Portugal: a Bodega El Capricho.

Bodega El Capricho, Espanha. Setembro, 2025. Acervo pessoal.

Antes do almoço, fizemos uma visita à fazenda deles. A especialidade da casa são os bois da raça Ox, animais que, devido à castração e à consequente ausência de estímulos hormonais, são mais gordos e calmos. Pensei que só veríamos do carro, uma Land Rover Defender estilosa, mas ficamos no meio deles; N. até deu umas folhinhas para os bois comerem.

As cavernas! Bodega El Capricho, Espanha. Setembro, 2025. Acervo pessoal.

El Capricho começou como vinícola. Perto do restaurante, há uma série de cavernas nas colinas, e algumas delas pertencem aos donos da bodega. Após uma temporada focada na produção e na venda de vinhos, um dos donos provou a carne do boi Ox e teve um grande surto. Saiu daí o desejo de investir na criação do animal e de torná-lo uma especialidade da casa. Optamos pelo menu essencial, luxo escolhido por nós com muito cuidado para coroar os quilômetros finais do nosso passeio. Nunca vou me esquecer da textura da cecina, que desmanchava na boca. De longe, a melhor experiência gastronômica da minha vida.

Saímos mais pesados rumo à fronteira de Portugal, que nos recebeu com muito vento, daqueles que dão dor de cabeça. N. encontrou um quarto no Vale de Porco, numa residência calma e com vista estonteante para o Vale. Chegamos quebrados.

Vale do Douro, Portugal. Setembro, 2025. Acervo pessoal.

No décimo terceiro dia, nos preparamos para nos despedir da moto e nos desprender do sonho, pois o veículo seria levado de volta à França por uma transportadora. Zigue-zagueamos pelo Vale do Douro e pegamos um pouquinho de chuva no trecho final, quase como um batismo para lavar a alma após 2617 quilômetros. Chegamos a Guimarães no fim da tarde. Exausta, a sac de sable finalmente pôde colocar os pés no chão, com a mala leve e o coração cheio, pronta para celebrar o casamento de L. e M.

Guimarães, Portugal. Setembro, 2025. Acervo pessoal.


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