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Estrangeirismos · May 1, 2026

Em busca da personagem imperfeita

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Lidyanne · Estrangeirismos

[Edição #86]

Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya) no set de O Drama, de Kristoffer Borgli

[Alerta: O texto pode apresentar spoilers do filme O drama, de Kristoffer Borgli]

Antes de escrever ficção pela primeira vez, ficava intrigada ao ler entrevistas de pessoas que descreviam a experiência de escrever ficção como uma deixa para o estrago. Terreno livre para fazer o que bem entender com um personagem em desenvolvimento. Eu, autora iniciante, tratei minha personagem da mesma forma que uma mãe de primeira viagem trata o bebê: com receio de deixá-la cair e quebrar. Eu achava que, se ela fosse perfeita, teria com quem sentar no recreio. O que é uma grande palhaçada vindo de mim que, antes de escrever um capítulo inteiro de um romance, acumulava mais de vinte anos como leitora que adora personagens que cabem na categoria “gente que amamos odiar”.

Precisei de muita reescrita para entender a importância de mergulhar minha personagem tão limpa e certinha num caldo de chorume. Ela só teria carne no corpo se tivesse imperfeições; é por meio dessas falhas que quem lê consegue se conectar de alguma forma. O pensamento intrusivo que vence, uma resposta atravessada, espremer espinhas na frente do espelho. Tudo isso é construção e vai ajudar o leitor a fazer cara de nojo, a julgar ou até mesmo a reagir com um “quem nunca”.

Trabalhar esses aspectos teve consequências, pois a leitura por diversão deixou de existir. Aliás, com livros e filmes é raro que eu consiga desligar o cérebro e apenas curtir a experiência. Virei aquela pessoa que, muitas vezes, perde o foco enquanto lê ou assiste porque tá encrencada com personagens mal desenvolvidos ou histórias que não se sustentam.

Um exemplo recente em que me decepcionei como espectadora foi O Drama, do diretor Kristoffer Borgli, no qual o desenvolvimento dos protagonistas ficou de lado para dar espaço ao desconforto da discussão. Antes mesmo dos créditos subirem, o protagonismo se volta para a pior coisa que você já fez e se bancaria as consequências de confessá-la a pessoas em que até então se confiava. Foi difícil me conectar ao filme porque achei os personagens rasos. Me passou a impressão de que o diretor concentrou toda sua energia na provocação. Ele abre a discussão sobre questões morais e questiona se estamos mesmo dispostos a amar alguém em sua integralidade, com as feridas abertas e quaisquer atos condenáveis que sujam a biografia da pessoa.

Só que, da ficção, quero substância, contexto e nuance. O filme começa com Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) num vai-e-vem narrativo que funciona bem como introdução. No desenrolar da história, contudo, tive a sensação de que, apesar de terem passado três anos, eles continuam sendo as mesmas pessoas. E o barato da ficção está em acompanhar a transformação do personagem. Alguma coisa deve mudar. Até mesmo a decisão de não mudar de opinião ou de atitude passa por uma transformação.

Borgli não compartilha o meu medo de deixar os personagens quebrarem, pelo contrário. Ele coloca Emma e Charlie em situações cada vez mais constrangedoras. Mas parece esquecer de fazer algo com as peças espatifadas: tenho a impressão de ver os mesmos personagens no final e no começo.

Ver filmes e ler livros é um exercício precioso porque me ajuda a ver a técnica na prática e a entender minhas preferências enquanto me descubro como escritora de ficção. Nessa fase de prática, uso minhas referências para me desapegar e perder o medo de criar uma protagonista detestável. Me sinto mais confortável ao deixá-la cair. Agora resta ver o que consigo fazer deste amontoado de caquinhos.


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Um cheeeiro e até a próxima!

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