Há muito tempo a mulher vem sendo cerceada. Dediquei grande parte do meu livro Quem Tece o Mundo? descrevendo como isso aconteceu (comigo e com as mulheres de forma geral) e demonstrando como o têxtil, embora originalmente venha do fio, que como forma e matéria é pura fonte criativa, foi tecnicamente codificado e domesticado para tirar a nossa autonomia.
A Revolução Industrial e, em especial a criação do Tear de Jacquard, selaram a separação do padrão da execução. Portanto, a inteligência já não era mais um requisito para o fazer. Uma sequência de instruções passaria a ser responsável pela materialização de um tecido, independente do tear (ou corpo) que o executasse.
Nas casas da burguesia, paralelamente, o aprendizado humano, que antes acontecia por contato e espelhamento, passou a acontecer também por instruções. Como a máquina, os tecidos, bordados e rendas deveriam surgir exatamente conforme o determinado, independentemente de quem os produzia. E assim, mulheres passaram de criadoras a executoras (de avessos perfeitos)
Diante de tal agressão, algumas de nós embotaram, perdendo a sensibilidade e cedendo à domesticação, enquanto outras reagiram, responderam a tal violência de forma política.
Muito bem, séculos de história. Corta para mim, tecendo.
Eu faço parte, sem sombra de dúvida, do segundo grupo: o político. Desde o meu dia dois com o fio nas mãos (porque o primeiro foi o da revelação, da epifania) busco responder a tentativas de dominação. Só que há pouco tempo me dei conta de que, fazendo isso, não estou fazendo nada mais do que ocupar o outro extremo do espectro.
Explico.
Eu milito todos os dias pelo direito ao erro. Quando fujo do padrão, sinto nas mãos a liberdade que me foi tirada. Ao fazer os meus trabalhos sem compromisso com o padrão estético estabelecido, eu me expresso e devolvo ao mundo, esteticamente, a energia opressora que ele me entrega. Faço um trabalho importante com isso? Sim. Porque de alguma forma, equilibro a balança. Mas a pergunta é: eu quero fazer isso? Tecendo, descobri que não.
Quando faço algo sendo direcionada, isso me irrita profundamente. Detesto ser instruída, porque percebo toda essa opressão que sinto em meu corpo, e venho estudando por anos, caindo sobre os meus ombros. Por outro lado, quando estou tecendo livremente, e me expressando sem amarras, apesar de essa atividade ser terapêutica e significar muito para mim, o resultado final nem sempre me satisfaz. Porque, embora, isso dê conta de emoções reprimidas e carregar uma potência política gigante, ainda assim, não responde por algo eu prezo muito.
Forma e beleza.
Sei que o tópico é sensível, porque a beleza é algo subjetivo, mas arrisco dizer que ela também é coletiva. Não no sentido universal, mas quando voltamos à ancestralidade, percebemos que existem “padrões”, estruturas de beleza estabelecidas para a arte produzida em cada povo. No entanto, são padrões que nascem a partir do corpo, ao longo do tempo, e da conexão com a cosmologia em questão, e não de máquinas, livros e revistas.
Estão entendendo onde quero chegar?
Há alguns meses venho conduzindo dois grupos de estudos sobre cosmologias têxteis uma tentativa, ainda muito embrionária, de descobrir essa beleza comum que nasce dos fios. Ainda não tenho, não temos respostas. Ainda assim, sinto que é hora de sair em busca dela. Tendo estudado e sentido por muitos anos a domesticação, e praticado pelo mesmo tempo a expressão como resposta a esta violência, quero agora ir atrás da beleza. Uma beleza que agrade os meus sentidos, mas que também possa reunir, pelos fios, na reativação dos seus saberes, novas propostas de compreensão lógica e estética para a vida.
E no fundo, talvez seja isso que o fio sempre tenha tentado me ensinar: que entre a obediência e a rebeldia existe o ENTRE (entre o peixe que sente e a aranha que trama, existe o vazio, o zero, da criação). Eu não preciso escolher entre o padrão imposto ou a ruptura como fim em si mesmo, eu posso optar, a partir da presença que ele me oferece, a reorganização.
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