Admiro a obra de artistas que viveram e produziram sob o signo do sofrimento, mas detesto a romantização do “artista sofredor”. Quem gosta de loucura é quem nunca flertou com ela. E aqui, por favor, não me entendam mal, eu não sou a favor da normatização da vida. Desejo apenas que possamos aprofundar sentidos, acolher outras lógicas e permitir que cada um apresente a sua. Afinal, não é porque determinada perspectiva não cabe na ordem vigente que ela deixa de existir.
Quem já assistiu a um curso meu sabe da minha revolta com o fato de Arthur Bispo do Rosário não ter sido enterrado com seu Manto da Apresentação, um desejo manifesto em vida. Bispo não passou uma vida inteira materializando sua visão de mundo para o bel-prazer de gerações futuras ou para a produção de acervo museológico. Nem artista ele dizia ser. Seu intuito era organizar aquilo que via, ouvia, sentia. O mundo sutil que sua carne porosa era capaz de perceber. Mas as instituições artísticas adoram as obras da loucura na mesma proporção em que rejeitam e desrespeitam quem as produz.
O grande mal disso é a herança recebida. Muitos de nós, cuja percepção vai além dos sentidos comuns (o que por si só já gera bastante sofrimento), passam a acreditar que o sacrifício é o pedágio da arte. Adotamos o arquétipo marginal do desencaixe e do sofrimento como se a dor fosse a única lente capaz de nos fazer enxergar o invisível.
Sem nos darmos conta, assumimos o papel que os outros desejam para nós. No livro A estetização do mundo: Viver na era do capitalismo artista, Gilles Lipovetsky e Jean Serroy apontam que reproduzimos nos museus o comportamento que temos nos templos, como a contemplação e o silêncio. Eu digo mais: nós admiramos as obras de centenas de Jesuses, cordeiros-artistas entregues ao sacrifício no altar do deleite emocional alheio.
Na verdade, nós (e aqui falo de um grupo tão extenso e cujas classificações são tão diversas que chamarei de “os sensíveis”), operamos a partir de outras lógicas. Mas há sempre uma lógica.
No meu trabalho de pesquisa sobre o fio, o estudo de outras filosofias foi um divisor de águas. Compreender o pensamento estruturado de outros povos me fez perceber que tudo tem um porquê. Qualquer grupo conectado ao mistério, para além do humano, vai criar uma cosmologia: um sistema de ordenação do universo. As lógicas podem ser diversas, conter múltiplos sentidos, mas nunca são vazias.
O artista pode até ser aquele que tem acesso ao caos, desde que entendamos o caos como a fenda primordial, o espaço de onde as coisas “começam” a existir. É ali que ele, através de sua capacidade sensível, traduz novas ordenações do universo, que se manifestam primeiro em seu próprio corpo, e depois naquilo que ele devolve ao mundo.
A gente olha muito para aquilo que se repete no trabalho de um artista e chama de “estilo”, como se fosse pura escolha estética, mas deveríamos entender que, na maioria das vezes, essa repetição é a própria estrutura do artista, a sua fôrma única para aquilo que nasce do caos.
É por isso que me interesso tanto pelo urdume, pelo fio como ossatura, pelo que é denso, oculto e profundo. Aquilo que nem sempre precisa aparecer, mas, sem ele, a superfície, o objeto e o tecido deixariam de existir. Eles são o lugar da ancoragem.
Sim, em momentos muito recentes da história, as estruturas foram muito rígidas. E para alguns com tendência a elas, elas ainda podem ser (como no caso da turma do desempenho a todo custo), mas dificilmente esse será o caso de nós, sensíveis. Pelo contrário, o mundo em que vivemos nos convida, por cada um dos nossos poros, à dispersão. Algo que para alguns, mais encouraçados, pode ser riquíssimo. Já aqueles que precisam de peles para sobreviver podem simplesmente fenecer da capacidade de ver, ouvir, sentir, cheirar e saborear aquilo que é desmedido.
Diferente de quem só consegue caminhar em linha reta, nós não precisamos cultivar o delírio. O que precisamos é de ritmo. Precisamos de rito. O delírio já habita em nós.
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