A definição clássica nos diz que a cosmologia trata da origem, da estrutura e da relação da humanidade com o cosmo. Mas essa é só uma meia verdade, porque uma cosmologia faz muito mais, ela nos situa na vida. É ela que dita o que devemos considerar vivo ou morto, o que é caos ou ordem, e de que maneira nos posicionamos no tempo, por exemplo. Afinal de contas, o universo não é um dado neutro. Ele (ou o pluriverso), como muitas cosmologias ancestrais nos contam, é uma teia viva de relações, tecida por fios diferentes em cada cultura.
Portanto, a cosmologia não é só um ramo da ciência ou da filosofia, mas a forma como um povo articula o sentido da existência. É o mapa poético, técnico e filosófico que cada cultura cria para costurar a origem das coisas, o movimento do tempo e a estrutura da realidade, definindo o lugar do ser humano dentro dessa grande teia. Ou seja, o universo nunca esteve esperando ser descoberto pela ciência ocidental, mas foi e segue sendo fabricado o tempo todo pelos povos e pelas perguntas que ousamos fazer a ele.
Desde criança, nunca deixei de questioná-lo, e as melhores respostas que ele já me entregou sempre foram dadas através dos fios, na prática de tecer, mas também na sua presença insistente em cosmologias ancestrais de todas as partes do mundo. Abordei algumas delas, de maneira mais gráfica do que descritiva (em uma página lindamente diagramada pela Nathália Abdalla), quando escrevi meu primeiro livro, “Quem Tece o Mundo?”. Apresentei de maneira sucinta algo fundamental para mim, a relação fundante entre o fio e o desenrolar da vida, por respeitar formas específicas de transmissão de histórias que, em sua maioria, são incessantemente atualizadas por aqueles que, nesses povos, têm acesso ao invisível: os xamãs.
Tomei esta decisão também porque, apesar de os saberes originários ecoarem fortemente em mim, visto que essa também é a minha origem, fui moldada a partir da cosmologia científica ocidental, que cinde seres humanos e natureza. Sinto o tempo espiralar, mas ainda vivo em um tempo linear, no qual a memória, por exemplo, só resiste à base de conservação e registros físicos. Me sinto muito bem em meio a árvores e rios, mas moro na cidade e meu ritmo é definido pela eletricidade que me fornece luz. E me esqueço, constantemente, de que todos esses recursos são produzidos por e a partir da natureza, que sou eu também.
Portanto, quão ingênuo da minha parte, e mesmo malicioso, seria tentar promover práticas e sabedorias que não condizem com a minha vida e com o lugar onde moro? É por isso, que embora eu não tenha podido deixar de pensar o fio como uma tecnologia de estruturação cósmica, após ler “A Serpente Cósmica: O DNA e a origem do saber”, de Jeremy Narby, não me arrisquei a descrevê-la como uma realidade literal no meu livro.
Na verdade, eu só passei a pensar nesses termos, em uma cosmologia que se desenhasse não com o fio, mas a partir do próprio fio, quando, em um dos encontros do grupo de estudos Urdume, uma das participantes fez um comentário sobre o uso errado de uma técnica. Porque uma coisa que une a todas nós, independentemente da ancestralidade ou do local de origem, é essa intimidade com o fio. Diante disso, não só propus um novo ciclo de estudos com livros que nos fizessem (enquanto grupo) ler mais sobre a sabedoria de outros povos, como, paralelamente, passei a fiar e tecer procurando perceber como o fio poderia nos guiar no tempo e espaço urbano.
Entre o visível e o invisível, fui me aproximando do que, há pouco mais de seis meses, denominei intuitivamente de Cosmologia Têxtil. Esse conceito, que coincidiu com um momento de profunda transformação interior, inaugura uma nova fase da Urdume e da minha própria relação com os fios. No mesmo momento em que busco por um emprego fixo que provenha o meu sustento e me dê a estabilidade de um salário no final do mês (inclusive, se você souber de algo ou quiser meu currículo, pode me responder por aqui!), me sinto finalmente livre para chegar exatamente onde sempre quis com a minha pesquisa artística.
Esta é uma nova dobra daquilo que já propus em “Quem Tece o Mundo?”, a reativação do gesto têxtil. Um projeto que poderia ser um novo livro, mas vai nascer como for possível: por meio de newsletters, zines, tecelagens, bordados e o que mais vier. Espero que essas novas ideias, fruto do meu pensamento têxtil, encontrem, no mundo, a sua função. Te convido a acompanhar.
Ps1: No Instagram já tenho apresentado, timidamente, algumas experimentações artísticas.
Ps2: A parte reflexiva, mais estruturada deve sair por aqui, mas também, caso eu tenha tempo e fôlego, através de zines.
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