“Somos todos fios, todos nós”
“Fios são a metáfora da vida, ritos o que a torna sagrada”
Estefânia Torres, “Quem Tece o Mundo”?
Após algumas semanas sem escrever, voltei. No entanto, antes de ler este texto, te convido a escutar “If You Hold a Stone”, do álbum autointitulado gravado por Caetano Veloso em 1971, durante seu exílio político em Londres. A música dialoga com a obra acima, O sensível não se atrasa (2026), que abre a série Cosmologia Têxtil e é uma variação de seu refrão:
If you hold a stone
Hold it in your hand
If you feel the weight
You’ll never be late
To understand
If you hold the stone (marinheiro só)
Hold it in your hand (marinheiro só)
If you feel the weight (marinheiro só)
You’ll never be late (marinheiro só)
To understand
Em sua estrutura ritualística, feita de blocos de repetição, esta música inspirou a abertura dos trabalhos do ritual artístico-espiritual-científico-filosófico que fundamenta a minha nova pesquisa.
Criada para Lygia Clark, a canção faz alusão direta à obra Pedra e Ar (1966) e é um marco na transição de Lygia das artes visuais para as artes relacionais. O trabalho, composto por um saco plástico cheio de ar com uma pequena pedra sobre ele, convida o participante a sentir a respiração e a tensão dos materiais. Trata-se do primeiro “objeto relacional” de Lygia, que costumava usar elementos cotidianos e efêmeros em seus trabalhos sensoriais para focar o indivíduo no “aqui e agora” e em sua própria autoconsciência.
Escutei If I hold a stone sem parar nas últimas cinco semanas. Não a conhecia e tampouco sabia de sua homenagem a Lygia. No entanto, ambas coincidem exatamente com algo que venho descobrindo desde que me encontrei com o fio: tanto a obra de Lygia quanto a música de Caetano nos convocam a sentir para compreender.
Aqui, é vital distinguirmos compreensão de entendimento. Embora costumemos usá-las como sinônimos, há uma sutil, mas importante diferença. O entendimento faz referência à lógica e à mecânica. Sua etimologia vem do latim intendere e sugere um movimento intelectual, analítico. Quando entendemos algo, estamos decodificando signos. Quem leu meu livro “Quem Tece o Mundo?” sabe que isso é só parte daquilo que fazemos ao tecer.
Já a compreensão implica a totalidade de algo, envolve também o sensível. Vem do latim comprehendere, que significa pegar com as mãos, envolver, e não tem apenas a ver com a mecânica de algo, mas diz respeito a abraçar as causas e implicações através da intuição e da dinâmica relacional.
Essa diferença é crucial porque o aprendizado nasce da percepção: no caso de Caetano e Lygia, do peso da pedra, no caso da Cosmologia Têxtil, da textura do fio. Ambos fundem o pensamento e a matéria no toque. A pedra filosofal da cosmologia têxtil é, justamente, o sentir do fio.
Além disso, em If You Hold a Stone, a sobreposição de blocos traz materiais de origens distintas. Caetano costura a mensagem de Lygia à melodia de “Marinheiro Só” (de domínio público) e a fragmentos de “Quero Voltar pra Bahia”, de Paulo Diniz. A entrada de “Marinheiro só” em segunda voz nos chama a ocupar este lugar, de marinheiro só, em um mundo onde as comunidades se perderam, mas sem que precisemos aderir automaticamente à “identidade prêt-à-porter”, como chama Suely Rolnik ao se referir às subjetividades pré-fabricadas e mercantilizadas pelo capitalismo contemporâneo.
Para mim, no contexto de 2026, a canção se torna um convite a descobrirmos nossas expressões únicas e a navegar por esse mar de diferenças guiados pelo sensível. Por fim, o desejo de “voltar pra Bahia” reforça que ninguém mais é de um lugar só. Ainda assim, clamamos por pertencimento, tendo a chave desse espaço no próprio sentir.
Lygia e Caetano são os precursores desta forma de ser humano-artista-marinheiro-só. E, embora só, todo marinheiro precisa ancorar, fazer nós e se relacionar com a terra. Ambos são mestres nisso. Eles são nossos guias na convocação para o que tenciono chamar não apenas de Era de Aquário, mas de Era da Costura: um tempo de junção, no qual as agulhas vêm (e vão) acompanhadas de fios para suceder séculos de cortes e incisões.
A Cosmologia Têxtil celebra este tempo do encontro. Não só entre ideias, pessoas ou formas de conhecimento, mas de presença. É um tempo em que, mais do que concentração, precisamos de atenção: no qual corpo e mente caminham juntos e a pele, em parceria com o fio, sente e responde ao mundo como uma tecnologia sensível. Because:
If you hold a yarn
Hold it in your hand
If you feel the texture
You’ll never be late
To comprehend
PS: A obra acima, O sensível não se atrasa (2026), está à venda em uma tiragem limitada de 10 exemplares (R$ 640,00 cada). Para adquiri-la e apoiar a continuidade desta pesquisa, basta entrar em contato pelo e-mail estefania@urdume.com.br.
PS: Se você aprecia esta newsletter, quer incentivar a pesquisa e deseja apoiar de outra forma, pode realizar uma contribuição espontânea de qualquer valor via Pix: 32.278.363/0001-80 (Subtrama - Estefania Araujo Torres Lima)
No tempo das mãos, eu volto. Até lá!
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