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Lalita Lopes · Jan 28, 2026

O karma da ingenuidade

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Lalita Lopes · Lalita Lopes

Quando eu era criança, minha avó sempre me levava à igreja.
Eu nunca ligava muito. Queria brincar. Depois de um tempo fiz até catequese. Acreditava, mesmo quando tinha dúvida.

“Explicações só significam falta de fé”, dizia minha tia.

O Julgamento de Salomão - autor desconhecido - localizada em Wallfahrtskirche Frauenberg

Ainda assim, cresci com um questionamento sufocante sobre a existência de um ser divino. Como poderia existir um Deus se, ao chegar em casa e ligar a televisão, o Cidade Alerta mostrava tanta morte, tanto assalto, tanta injustiça?

Sempre havia uma explicação. Era karma. Era o peso do livre-arbítrio.
Era o que a pessoa tinha que viver.Logo, era justo.

O curioso é que, mesmo criança, eu pensava: se cada um tinha que viver exatamente aquilo, então não fazia sentido existir polícia, advogado ou juiz.Tudo deveria simplesmente obedecer a um fluxo místico e inevitável.

Então eu me perguntava: como tantas pessoas conseguem ter fé?
O que as faz acreditar em um mundo justo ou em um outro plano onde tudo se ajeita?
Será que a fé nasce da vontade que mora no nosso coração de que o mundo seja justo?

Não sei. Essas coisas de fé são tão pessoais… e me dão uma certa preguiça. No fundo, eu acho que só procuro Deus quando me convém.

Vai que uma oração aqui e outra ali funcionam.

Na vida adulta, acredito que tive minhas respostas quando, em um trabalho voluntário, conheci uma menina de dez anos. Ela usava bolsa de colostomia. Tinha 30% do corpo queimado. Havia sofrido abusos de todos os tipos do próprio pai. Já tinha tido um filho fruto do abuso.

Desde então, só me pergunto:
é mesmo livre-arbítrio?
É mesmo karma?

Ou vivemos em um mundo onde o mais perto que chegamos da justiça é uma ilusão?

Read the original on escrevonasvisceras.substack.com

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