Quando eu era criança, minha avó sempre me levava à igreja.
Eu nunca ligava muito. Queria brincar. Depois de um tempo fiz até catequese. Acreditava, mesmo quando tinha dúvida.
“Explicações só significam falta de fé”, dizia minha tia.
Ainda assim, cresci com um questionamento sufocante sobre a existência de um ser divino. Como poderia existir um Deus se, ao chegar em casa e ligar a televisão, o Cidade Alerta mostrava tanta morte, tanto assalto, tanta injustiça?
Sempre havia uma explicação. Era karma. Era o peso do livre-arbítrio.
Era o que a pessoa tinha que viver.Logo, era justo.
O curioso é que, mesmo criança, eu pensava: se cada um tinha que viver exatamente aquilo, então não fazia sentido existir polícia, advogado ou juiz.Tudo deveria simplesmente obedecer a um fluxo místico e inevitável.
Então eu me perguntava: como tantas pessoas conseguem ter fé?
O que as faz acreditar em um mundo justo ou em um outro plano onde tudo se ajeita?
Será que a fé nasce da vontade que mora no nosso coração de que o mundo seja justo?
Não sei. Essas coisas de fé são tão pessoais… e me dão uma certa preguiça. No fundo, eu acho que só procuro Deus quando me convém.
Vai que uma oração aqui e outra ali funcionam.
Na vida adulta, acredito que tive minhas respostas quando, em um trabalho voluntário, conheci uma menina de dez anos. Ela usava bolsa de colostomia. Tinha 30% do corpo queimado. Havia sofrido abusos de todos os tipos do próprio pai. Já tinha tido um filho fruto do abuso.
Desde então, só me pergunto:
é mesmo livre-arbítrio?
É mesmo karma?
Ou vivemos em um mundo onde o mais perto que chegamos da justiça é uma ilusão?

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