Foi um dia de cão.
Eu trabalhava numa empresa em que não gostava de ninguém. Gostava do trabalho, mas era difícil existir num lugar assim.
Olhei o relógio: ainda faltava uma hora para o fim do expediente.
Segui a rotina monótona, cumprindo tarefas no automático, quando, de repente, senti que precisava correr.
A barriga doeu de um jeito profundo, urgente. Uma dor intensa — daquelas que já anunciam constrangimento.
No banheiro, ao cumprir minhas necessidades, me deparei com uma sentença.
Sangue.
Sangue misturado às fezes.
Muito sangue.
Congelei diante da privada, envolta naquele cheiro bruto de merda. Peguei o celular e tirei uma foto — precisaria mostrar ao médico.
Joguei tudo no Google. Foto, sintomas, pânico.
As palavras que apareciam na tela não deixavam espaço para dúvida.
Meu próximo destino era a morte.
Já não pensava mais em ir embora apressada do trabalho. Pensava em como contaria ao meu marido. Em como diria aos meus pais.
Pensei em falar com alguém ali, mas bastou olhar em volta para saber que não era um lugar seguro.
Peguei o metrô. Talvez fosse o último.
Seria mais fácil se eu tivesse uma síncope e morresse ali mesmo — sem precisar olhar nos olhos do meu marido e feri-lo com a notícia.
No caminho do metrô até em casa, chorei no meio da rua. Não consegui segurar.
Quando cheguei, meu marido ainda não tinha chegado.
Liguei para meus pais. Contei. Choramos juntos. Minha mãe disse para marcar um médico, que certamente haveria alguma solução. Eu ouvi em silêncio.
Meu marido chegou falando da rotina, dos problemas do trabalho. Não consegui contar. Ele percebeu minha tristeza; deixei que pensasse que era cansaço.
Me lamentei por não ter cuidado da gastrite ao longo da vida. Fiz promessas silenciosas: amanhã eu peço demissão. Foda-se aquele lugar. Arrumo outro trabalho. Viverei o que me restar em paz.
Contei ao meu marido que queria pedir demissão. Ele disse que não achava uma boa, mas que me apoiaria se eu estivesse muito infeliz.
Abri a geladeira com uma estranha serenidade, pronta para fazer uma última refeição — antes das dietas rígidas, dos tratamentos, do fim.
Então vi a salada de beterraba que eu tinha devorado no dia anterior.
A salada de beterraba.
A beterraba.
Era beterraba.
Ri sem parar.

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