Eu sou uma mulher bonita, mas nada fora da média. Como digo sempre ao meu marido: sou uma “média bonita”. Ainda assim, talvez pela minha pouca altura, sou constantemente assediada por escórias do sexo masculino.
Aqui eu poderia chorar e reclamar do patriarcado, mas não. Eu sei me sair dessas situações e colocar os desagradáveis em seus devidos lugares.
Mas, esses dias, algo me chamou a atenção no mercado. Enquanto fazia minhas compras, um rapaz se aproximou e disse que eu era muito bonita. Notou minha aliança, deixou o elogio e se afastou. Não reagi. Não foi desagradável, não me incomodou. Segui.
Contudo, uma mulher — sim, uma mulher — uma senhora, provavelmente religiosa, pelo comprimento da saia e pelo cabelo, virou-se para mim e disse que eu deveria tomar vergonha. Curiosamente, apesar do que muitos afirmam sobre religiosos, eu nunca havia tido experiências negativas com mulheres religiosas até então.
Eu ri. Perguntei em que corredor vendia, porque iria experimentar. Saí com meu deboche típico.
A situação me incomodou de uma forma estranha. Porque, muitas vezes, achamos que as pessoas estão nos olhando, quando, na verdade, é o nosso próprio olhar que nos incomoda. Quando fazemos algo incomum, doem os comentários e os cochichos. Ser original é libertador; ser comum é que dói. Ainda assim, no fundo, parece que todos nós queremos ser uma pessoa comum.
Situações de assédio incomodam pela violência. Já vivi algumas realmente graves, com tentativas de agressão física, e nunca apareceu um super-homem ou uma super-mulher para me defender. Aprendi a lutar, a me desvencilhar, a sobreviver sozinha. Curiosamente, quando a situação é apenas para incendiar, surgem muitos interessados. Fico me perguntando se é o tédio que faz as pessoas serem más — ou se elas já querem ser, esperando apenas uma fagulha para iniciar o incêndio.
Será que nós, mulheres, estamos condenadas a esse conflito silencioso? Sempre haverá pessoas amargas, em qualquer gênero. O que ainda me espanta é a pressa em vigiar umas às outras — e o silêncio quando a dor é real.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.