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Do outro lado · Jun 2, 2026

Memórias de pão de mel

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Rakky Curvelo · Do outro lado

Umas semanas atrás, uma grande amiga minha casou. Foi um casamento de princesa, tudo maravilhoso, tudo do jeitinho que era pra ser dela mesma, com o príncipe encantado dela, com o melhor dia, o tempo mais favorável, não dava pra ter sido melhor mesmo.

Estar lá e poder dividir esse momento com ela me levou de volta pra nossa vida em São Paulo, pra todas as nossas pequenas grandes aventuras e pra as pessoas que nós fomos. Eu dividi um total de 3 apartamentos no centro de São Paulo com essa moça. No primeiro, tinha mais uma garota vivendo com a gente - papo pra outra postagem, sério. Nos outros dois, éramos só nós duas, pra ajudar a pagar (ninguém tinha condição mesmo de pagar sozinha) e no fim porque a gente sempre gostou muito da companhia uma da outra mesmo.

Todo grande feriado - Carnaval, Páscoa, Natal, às vezes aniversários - ela ia pro interior de São Paulo, visitar a família. Todas as vezes que ela voltava, vinha com a mochila cheia de pão de mel - os pães de mel que a mãe dela fazia. Os melhores pães de mel do universo. Pães de mel esses que apareceram no casamento, aqui do outro lado do mundo, como docinhos de fim de festa - e que desbloquearam um monte de memórias incríveis.

Os pães de mel da mãe da minha amiga me levaram de volta pra um Natal que eu passei no interior, com ela e a família. Uma celebração bonita de gente que tem pouco, mas que divide o pouco que tem com seus queridos. Muita sorte minha ser querida por essa família incrível. Me levaram de volta pra uma Páscoa em que ela apareceu em casa com um ovo de chocolate gigante que a mãe dela fez exclusivamente pra mim - acho que um dos maiores ovos de Páscoa que ganhei na minha vida inteira. Me levaram também para o dia em que eu descobri que tinha alguma coisa bastante errada comigo, e depois de uma crise de formigamentos e um sábado inteiro no hospital fazendo testes e mais testes, ela foi lá me buscar pra gente voltar pra casa - eu precisava de alguém que fosse me retirar no hospital e ela era a única pessoa disponível. O primeiro sinal de que eu iria passar alguns anos da minha vida tratando uma depressão, e ela estava lá, pra me acalmar depois do terror de ter feito um monte de exames sem descobrir nada.

Me levaram também pras nossas noites no “Bar do Gila”, como a gente chamava, e as diversas cervejas divididas em copos americanos, às vezes acompanhadas de bolovo, coxinha, alguma comida de boteco, às vezes acompanhadas só das nossas risadas. Eu apresentei esse bar pra tanta gente, mas quem me apresentou ao lugar foi ela. Me levaram pras noites mal dormidas, dela terminando algum relatório, minhas terminando alguma matéria pro site de música pra onde eu escrevia, depois de um show que eu tinha acabado de ver, e antes de voltar no outro dia de manhã pro trabalho que bancava o aluguel.

A gente se separou alguns anos antes de eu mudar aqui pra Irlanda, uma mudança que fez parte da nossa vida naquele momento. E ela veio também pra esse lado do mundo, mas pra Inglaterra - o comum dos sonhos de voar alto, de chegar longe, também nos acompanhou - mesmo que em ilhas diferentes.

Eu sempre disse pra todo mundo que eu jamais iria encontrar uma roommate tão perfeita quanto ela. Ali, no meio da pista de dança, vendo aquele sorriso lindo e a felicidade que ela merece em cada cantinho daquela festa, comprovei: ela sempre foi muito mais que uma roommate, ela é família, não importa quanto tempo a gente passe longe. Os pães de mel, mais que uma memória desbloqueada, eram um pedacinho do coração daquela família que eu carrego no meu, como outra das famílias que me acolheram ao longo da minha vida.

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1 - The Life Pursuit - Belle & Sebastian: dá pra acreditar que o disquinho de “The Blues Are Still Blue" eFunny Little Frog” tá fazendo 20 anos? Esse foi o álbum trilha sonora da Rakky saindo da faculdade de Sistemas de Informação e indo pra de Jornalismo, transformando a curta caminhada de 3 minutos do trabalho para o colégio em uma caminhada de quase 45 minutos - com a parada no mercado pra comprar uma barra de chocolate, sempre no dia 5, dia de pagamento. Não é necessariamente o melhor da banda, mas é um disco cheio de boas baladas, então, tá na mão.

2 - Um hobby off-line por período: ter alguma coisa pra fazer sem ser na frente do computador ou do celular é sempre uma coisa boa - se você pode se dar a esse luxo. Estou na fase de reconectar com o meu crochê, hobbyzinho que aprendi adolescente, deixei de lado, voltei a praticar na pandemia e de vez em quando pego de volta. A ideia é fazer algo completamente off-line, pra deixar a cabeça desligar e concentrar só em uma coisa, então, desliga o celular, o podcast ou o disco da vez, e vai fazer o seu. Esse, no meu caso, é sentar em uma cadeira com uma agulha de crochê e um projeto de cachecol.

3 - Terapia: existem milhares de razões pelas quais uma pessoa deve fazer terapia. Uma delas pode ser a sua - nem que seja para ter uma pessoa neutra do outro lado, te escutando, uma desculpa semanal para falar com alguém sobre as suas descobertas, reflexões, pensamentos. Não pensa muito não, só vai, faz aí sua terapiazinha.

E eu fico por aqui, até mais.

Read the original on dooutrolado.substack.com

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