Mas Rakky… Fresno, véi? Fresno?
Sim. Fresno.
A única banda representante do Emo Brasileiro que sobreviveu aos anos 2000, se reinventou nos anos 2010 e se estabeleceu como firme representante de um movimento que segue vivo, tão vivo e tão vibrante quanto o Carta de Adeus, mais novo disco da banda.
Mas voltando ao show em questão.
Ano passado eu me desloquei da minha casinha em Drogheda, numa segunda-feira não tão fria, nem tão quente de fevereiro, para o The Academy, pra ver o show da tour Eu Nunca Fui Embora, parte da tour europeia de Lucas Silveira, Gustavo Mantovani e Thiago Guerra. A gringa em questão é muito mais do que uma gringa qualquer, é minha melhor amiga desse lado do mundo, a pessoa que até já ganhou uma pequena crônica por aqui.
On the other side
A cupboard full of tea
·
May 26, 2025
As I’ve moved to Ireland, one of the things that scared me the most about the new country, the new area, the new experiences was the… lack of friends.
Enfim, ela era provavelmente uma das 10 pessoas ali dentro que não falava uma palavra em português. Mas ela me viu falar tanto dessa banda, desde recomendando os trampos do Beeshop até contando as histórias loucas da minha adolescência ao redor de aprender a tocar “Quebre as Correntes” e ao mesmo tempo parar de ouvir a banda porque eu tinha vergonha de gostar deles? (caralho, que mico!). Estar ali era muito importante pra mim, e ela foi a companhia perfeita. Mais uma vez.
A Fresno não é uma banda qualquer. Eles são o tipo de banda que consegue ter música com a Tuyo, com o Caetano Veloso e com o Chitãozinho e Xororó e fazer isso fazer sentido. O elétrico show de Dublin era só um pedaço da turnê europeia, mas era também uma promessa pra audiência: a Fresno já tinha passado por aqui em 2022 e tinha prometido voltar. Eles voltaram e entregaram.
Misturando canções de Ciano até Eu Nunca Fui Embora, eu consegui ver naquela turnê as razões pelas quais eu voltei a ouvir esses lindos lá em 2016, por insistência de um colega de trabalho, que basicamente me obrigou a ouvir A Sinfonia de Tudo o Que Há. Na época, viciei em Poeira Estelar e em suas 11 companheirinhas e também fui a um show catártico, dessa vez, ainda em alguma casa de show de São Paulo.
Eu hoje não lembro mais exatamente todas as faixas que tocaram naquela noite (e o Setlist.fm não ajuda), mas lembro que saí rouca de tanto cantar e gritar, extremamente feliz de ter visto aquela catarse aqui do outro lado do mundo, e tentando explicar tantas e tantas coisas pra minha amiga que a volta pra casa foi uma viagem cheia de memórias. E que às vezes, é só isso que importa mesmo.
Talvez a minha relação com música de uma maneira geral seja razão de eu poder ter tantas bandas especiais na minha lista de favoritas. Talvez você, cara pessoa do outro lado da tela, não tenha o mesmo sentimento de transposição de corpo e alma para outro espaço / tempo quando uma música faz sentido e volta a tocar no rádio depois de tanto tempo. É uma pena. Talvez exista ainda um lado aqui que precisa escrever mais sobre música para voltar a uma época de ouro da minha vida, pra colocar esses sentimentos todos num papel (ou numa tela), pra dividir essa mistura com quem quiser ser parte. Talvez.
O que eu sei de certeza é que o trabalho do Sr. Silveira & Co. me leva pra uma vila, na grande São Paulo, onde conheci uma família que tinha se mudado para aquela região há poucos meses, e me tornei grande amiga das duas meninas, filhas do casal. Me leva pra os primeiros acordes que toquei num violão, ensinados pela menina mais nova, pra sensação boa de se sentir os calos nas mãos que a prática oferece, pra implicância inspirada pela irmã mais velha de aprender a tocar músicas que a mais nova odiava, pra lembrança de tudo isso anos depois, em algum canto de uma casa de shows escura, gritando novamente os versos de Stonehenge.
Obrigada, Fresno, por trazer pra esse canto do mundo um pouquinho do calor e do amor que vocês são. E eu devo estar no próximo, sim.
Carta de Adeus - Fresno: tá meio na cara, né? O novo disco da Fresno é um abraço bem dado pra quem está naquela fase em que tá tudo bem ir por um outro caminho, seguir uma nova rota, ficar em paz com a história que foi construída. É um disco de gente terapeutizada, good vibes, que tá okay com a perda, com a despedida, com a quebra de laços. Só espero que eles não estejam se despedindo da gente enquanto banda porque… ué, porque o quê? Vai ficar tudo bem se for isso.
A Sinfonia de Tudo o Que Há - Fresno: sim, tô recomendando dois discos na mesma semana, da mesma banda, mas meu conteúdo, minhas regras, né, não? Esse disco tá fazendo 10 anos em 2026 e é um dos melhores da discografia da Fresno, disparado. Funciona bem de ponta a ponta, tem ótimos singles, participações especiais em peso e uma exploração harmônica quase inédita na história da banda até ali. As referências ao espaço e à distância fazem mais sentido a cada nova ouvida. Um clássico é um clássico.
E por hoje é só.
Rakky

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