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O que escorre · Feb 16, 2024

Nadar e escrever

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Denise Aparecida da Silva · O que escorre

Primeira braçada. Talvez eu não consiga. Segunda braçada. A vida é pesada demais. Terceira braçada e o ar. Tenho medo de sufocar. Primeira braçada. As pessoas me olham. Segunda braçada. Eu preciso estar com os olhos bem abertos para a vida. Terceira braçada e o ar continua aí. Tem muito o que dar conta. Primeira braçada. Minha cabeça não me dá paz. Segunda braçada. Por que eu ainda penso nessa pessoa? Terceira braçada e um abocanhado de ar que dói as costelas. É possível meus olhos arderem? Primeira braçada. Meu peito vai explodir. Segunda braçada. Será que eu conseguiria apagar a minha mente? Terceira braçada, o ar e o teto por um segundo, talvez dois. Se eu respirar na hora errada, eu vou morrer. Primeira braçada. Eu não sei respirar. Segunda braçada. A vida dói demais. Terceira braçada. O teto e o ar, eles estão sempre aí para quando eu voltar. Primeira braçada. Eu só preciso prestar atenção nos meus movimentos. Segunda braçada. Meu corpo fala, eu escuto. Terceira braçada e o ar não parece chegar. Mais um pouco de força e a vida apaga. Primeira braçada. O tempo é um amanhã que me assusta. Segunda braçada. As bolhas do meu ar são lindas. Terceira braçada. Eu vou ser engolida antes de engolir o ar. Primeira braçada. Tenho que parar de querer tanto. Segunda braçada. A água não pode puxar as lágrimas para fora. Terceira braçada e as mãos tocam a borda da piscina. O ar. Fundo. Quantas vezes. Eu quiser. No meu ritmo. Esbaforida. O coração. no corpo. Todo. Não pode. Parar. Mas eu. Paro. Eu procuro acordar e perseguir meus sonhos. Mas a realidade que vem depois não é bem aquela que planejei. É Pitty? A música. Ela canta. Essa? A playlist. É boa. E eu venci. 25 metros. Ou quilômetros. Internos. Mais alguns. Respiros. Eu consigo. É só água. E meus pés. Alcançam. O chão.

De fora, onde acontece dentro.

“A poesia e a natação são relacionadas desde que no mundo existem água e humanos, talvez porque compartilhem um mesmo objetivo: ser um ritmo, educar a respiração e fluir. O nadador se faz escrita sobre a página da água e o poeta nada na água da página. E, claro, o momento culminante deste não tão caprichoso cruzamento de imagens é seu ponto de convergência: quando o poeta se lança literalmente na água.” – Trecho do texto “Nadar é escrever e vice-versa” de Julio Trujillo (texto completo aqui)

Ter contato com esse texto me explicou muita coisa que eu sentia desde que comecei a aprender a nadar em 2017. (E agora escrevendo lembro que voltar a escrever e aprender a nadar aconteceram quase na mesma época). Nadando, sempre tive muitos pensamentos, ideias e até resoluções de problemas. Mas também muito ódio, revolta e tristeza. Tudo muito confuso. Eu também fico contente e relaxada. As aulas de natação me exigem uma energia psíquica imensa, o que já me fez desistir da natação algumas vezes. Mas eu volto, eu sinto falta. Por que eu volto? Porque nadar é como escrever. Das duas atividades, eu saio transformada; só que nenhuma transformação é superficial. É preciso submergir. É necessária uma preparação intensa. É só água, é só escrever. Desde a noite anterior: é só água, é só escrever. Quando crio coragem e já estou com água até o pescoço, não quero mais sair. Me encharco, me alago. Brinco de afogado e de salva-vidas nas palavras líquidas de mim.  

E eu sabia, sempre soube. Só precisei que Julio Trujillo dissesse tudo isso para o meu eu que paga a mensalidade da academia. O eu do escuro já entendia tudo. Na água e fora dela, eu buscava. Na memória, algumas imagens de filmes ficaram coladas e me visitam de tempos em tempos. 

Essa cena em especial (mas o filme todo). “Elena” de Petra Costa. (Quer sentir um pouco as águas do filme? Sinta aqui.)
Julianne Moore nas águas de “As horas”.
Juliette Binoche em “A liberdade é azul”.

Nessas cenas, a explosão está próxima. Quase não se aguenta estar viva. E algumas, como Elena e Virginia Woolf, realmente decidem que não aguentam. Toda vez que pesa para mim, sinto que estou nas águas igual elas. Boiando. Descansando no colo denso e fluido das emoções. Elas me seguram; eu não afogo.

Um sonho infantil era boiar, apesar da falta de confiança nas águas. Hoje, boio e boiamos.

A fixação por essas imagens-sensações talvez tenha sido para mim o primeiro indício de que água é poesia; poesia é água. E não tem nada disso sem sentir, mesmo sendo difícil suportar tanto líquido dentro do coração. E falo de emoções porque vivencio no peito da natação e na falta de ar do escrever. Mas também porque um sussurro ancestral me vem aos ouvidos ― água é emoção.

No tarot, copas – sendo o recipiente – delimita as águas, dando nome e rumo para as emoções.

Depois das imagens-sensações e das bruxarias e antes do Julio Trujillo me contar, minha água transbordou em texto, nascendo o “Toda a água dentro da gente”. O título veio depois. A escrita foi fluxo e, quando o racional exigiu um nome, esse veio como resposta ao volume torrencial de sentimentos em palavras. Do inferno às folhas, como a Samaúma faz.

Samaúma, para além dos sonhos, um dia vamos nos encontrar.  Suas raízes são capazes de absorver água das profundezas do solo amazônico, hidratando não apenas ela, mas outras árvores de espécies diferentes. Em períodos específicos, quando as raízes atingem um determinado nível de umidade, a árvore solta esse excesso e irriga todo o seu entorno.
Das águas à página, o meu romance que você pode encontrar aqui ou comigo. Nele, conto a história de mãe e filho que, em uma casa selada, (re)descobrem a si mesmos e a relação entre eles, enfrentando os seus sentimentos mais selvagens e viscerais.

Água, como dá para perceber, é uma obsessão, inclusive nas entrelinhas desta newsletter. E carrego um medo (ir)racional de afogar nos meus lagos internos. Sei que minha água é doce. Não menos perigosa: a correnteza se forma embaixo, pegando de surpresa. É melhor, sim, que eu escreva sobre e com ela, para que suas palavras não preencham o meu pulmão. Nadando ou sentando diariamente para escrever, eu supero mais do que nadar e escrever ― o que as águas trazem para mim não tem nome.

ou

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida. (Hilda Hilst)

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Read the original on deniseapsilva.substack.com

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