Primeira braçada. Talvez eu não consiga. Segunda braçada. A vida é pesada demais. Terceira braçada e o ar. Tenho medo de sufocar. Primeira braçada. As pessoas me olham. Segunda braçada. Eu preciso estar com os olhos bem abertos para a vida. Terceira braçada e o ar continua aí. Tem muito o que dar conta. Primeira braçada. Minha cabeça não me dá paz. Segunda braçada. Por que eu ainda penso nessa pessoa? Terceira braçada e um abocanhado de ar que dói as costelas. É possível meus olhos arderem? Primeira braçada. Meu peito vai explodir. Segunda braçada. Será que eu conseguiria apagar a minha mente? Terceira braçada, o ar e o teto por um segundo, talvez dois. Se eu respirar na hora errada, eu vou morrer. Primeira braçada. Eu não sei respirar. Segunda braçada. A vida dói demais. Terceira braçada. O teto e o ar, eles estão sempre aí para quando eu voltar. Primeira braçada. Eu só preciso prestar atenção nos meus movimentos. Segunda braçada. Meu corpo fala, eu escuto. Terceira braçada e o ar não parece chegar. Mais um pouco de força e a vida apaga. Primeira braçada. O tempo é um amanhã que me assusta. Segunda braçada. As bolhas do meu ar são lindas. Terceira braçada. Eu vou ser engolida antes de engolir o ar. Primeira braçada. Tenho que parar de querer tanto. Segunda braçada. A água não pode puxar as lágrimas para fora. Terceira braçada e as mãos tocam a borda da piscina. O ar. Fundo. Quantas vezes. Eu quiser. No meu ritmo. Esbaforida. O coração. no corpo. Todo. Não pode. Parar. Mas eu. Paro. Eu procuro acordar e perseguir meus sonhos. Mas a realidade que vem depois não é bem aquela que planejei. É Pitty? A música. Ela canta. Essa? A playlist. É boa. E eu venci. 25 metros. Ou quilômetros. Internos. Mais alguns. Respiros. Eu consigo. É só água. E meus pés. Alcançam. O chão.
“A poesia e a natação são relacionadas desde que no mundo existem água e humanos, talvez porque compartilhem um mesmo objetivo: ser um ritmo, educar a respiração e fluir. O nadador se faz escrita sobre a página da água e o poeta nada na água da página. E, claro, o momento culminante deste não tão caprichoso cruzamento de imagens é seu ponto de convergência: quando o poeta se lança literalmente na água.” – Trecho do texto “Nadar é escrever e vice-versa” de Julio Trujillo (texto completo aqui)
Ter contato com esse texto me explicou muita coisa que eu sentia desde que comecei a aprender a nadar em 2017. (E agora escrevendo lembro que voltar a escrever e aprender a nadar aconteceram quase na mesma época). Nadando, sempre tive muitos pensamentos, ideias e até resoluções de problemas. Mas também muito ódio, revolta e tristeza. Tudo muito confuso. Eu também fico contente e relaxada. As aulas de natação me exigem uma energia psíquica imensa, o que já me fez desistir da natação algumas vezes. Mas eu volto, eu sinto falta. Por que eu volto? Porque nadar é como escrever. Das duas atividades, eu saio transformada; só que nenhuma transformação é superficial. É preciso submergir. É necessária uma preparação intensa. É só água, é só escrever. Desde a noite anterior: é só água, é só escrever. Quando crio coragem e já estou com água até o pescoço, não quero mais sair. Me encharco, me alago. Brinco de afogado e de salva-vidas nas palavras líquidas de mim.
E eu sabia, sempre soube. Só precisei que Julio Trujillo dissesse tudo isso para o meu eu que paga a mensalidade da academia. O eu do escuro já entendia tudo. Na água e fora dela, eu buscava. Na memória, algumas imagens de filmes ficaram coladas e me visitam de tempos em tempos.
Nessas cenas, a explosão está próxima. Quase não se aguenta estar viva. E algumas, como Elena e Virginia Woolf, realmente decidem que não aguentam. Toda vez que pesa para mim, sinto que estou nas águas igual elas. Boiando. Descansando no colo denso e fluido das emoções. Elas me seguram; eu não afogo.
A fixação por essas imagens-sensações talvez tenha sido para mim o primeiro indício de que água é poesia; poesia é água. E não tem nada disso sem sentir, mesmo sendo difícil suportar tanto líquido dentro do coração. E falo de emoções porque vivencio no peito da natação e na falta de ar do escrever. Mas também porque um sussurro ancestral me vem aos ouvidos ― água é emoção.
Depois das imagens-sensações e das bruxarias e antes do Julio Trujillo me contar, minha água transbordou em texto, nascendo o “Toda a água dentro da gente”. O título veio depois. A escrita foi fluxo e, quando o racional exigiu um nome, esse veio como resposta ao volume torrencial de sentimentos em palavras. Do inferno às folhas, como a Samaúma faz.
Água, como dá para perceber, é uma obsessão, inclusive nas entrelinhas desta newsletter. E carrego um medo (ir)racional de afogar nos meus lagos internos. Sei que minha água é doce. Não menos perigosa: a correnteza se forma embaixo, pegando de surpresa. É melhor, sim, que eu escreva sobre e com ela, para que suas palavras não preencham o meu pulmão. Nadando ou sentando diariamente para escrever, eu supero mais do que nadar e escrever ― o que as águas trazem para mim não tem nome.
ou
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida. (Hilda Hilst)
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