Minha mãe conta que ela e minha tia se revezavam para vigiar meus olhos abertos, aqueles que não se fechavam por muito tempo nem quando anoitecia. Eu não pedia nada com choro estridente, ficava quieta, observando, brincando com os meus pés. Eu só não queria fechar os olhos.
Esses olhões abertos durante a noite, como minha mãe chamava, continuam lutando para que não se fechem e, assim, afundam-se abaixo deles cada vez mais dois poços escuros ― olheiras que, acho, nenhum procedimento estético daria jeito; são marcas de uma guerra. Por isso, sigo temendo, mesmo que desejando, uma operação da miopia; os óculos escondem um pouco os fossos que foram criados com muito empenho desde o meu nascimento.
Quando criança e não mais bebê, minhas noites começaram a ser agitadas para além dos olhos abertos. Sonhava muito e, dos sonhos, acordava quando queria e me deparava com um corpo suado que havia travado uma luta intensa contra o invisível. Meus pais precisaram providenciar um colchão a mais para as quedas, um abajur para o medo do escuro e uma benzedeira para afastar o mal. Na adolescência, o combate evoluiu e eu também falava, trocava de roupa e andava pela casa enquanto dormia. Depois de assistir O Exorcista, tudo piorou um pouco: eu tinha a nítida sensação de que, quando estava cruzando a passagem para o abstrato, alguém ― que eu não queria, que eu não gostava ― me abraçava pelas costas. Minha mãe, então, começou a ficar comigo até eu pegar no sono. Isso evitou que eu fosse abraçada por outro alguém, mas não evitou que às vezes eu visse vultos e que alguns desses se sentassem comigo na cama, se desmanchando em fumaça e entrando embaixo da minha coberta. Nessa época, comecei a pedir em oração para que o Deus e seus parentes me protegessem e eu não visse, ouvisse ou sentisse nada. Pedi tanto que, desde então, minha abertura para o sobrenatural, quando durmo, me deixa um pouco mais em paz. Em um salto de tempo não muito claro para mim, isso amenizou e dormir não era mais uma das minhas piores preocupações do dia, exceto naqueles em que a ansiedade me cutucava demais.
Porém, a vida, ela não dá paz. Veio a agrura do ser adulta, veio a pandemia, veio o diagnóstico de câncer do meu pai; e meus olhos não querem mais fechar de novo. E, quando fecham, se abrem estatelados procurando no vazio quem os acordou tão brutalmente. Eu venho lutando para não lutar mais, tentando entender nas leituras, nas observações e na terapia para que dias em que meus olhos fechem e acordem apenas com o despertador estejam mais presentes.
E tudo começa com a noite.
À noite tudo adormece, o metabolismo fica devagar, o corpo fica cansado e enfrentamos uma experiência de impotência, envelhecimento e morte. A inconsistência da vida se apresenta no denso do escuro. Dormir é não ver quando morrer ― por uma noite ou para sempre. Quando o corpo envelhecido da noite se apresenta, eu busco um motivo para permanecer acordada. Criança, eu queria ser DJ, não porque gostasse de música ou de festa; porque eu trabalharia enquanto os outros dormem e dormiria enquanto os outros trabalham e velam o meu sono. Não me fiz DJ e continuo tendo que encarar o oco da noite; muitas vezes sozinha. Não consigo dormir acompanhada: a presença de outro, mesmo que sem barulho, me desconcentra e enfurece ― por que para alguns é tão fácil? Isso entrou no arsenal de fatos pelos quais eu me culpo: ser transtornada e não conseguir ser romântica à noite. Eu queria conseguir dormir embolada, ressonando em uníssono, com babas compartilhadas. Mas, salvo os dias em que o tempo e os compromissos se embaçam, isso não é possível; eu tenho uma batalha a travar.
Só recentemente descobri que não estou tão sozinha, apesar de sentir que em quase tudo estou. Mesmo afetuados com alguém, muitos famosos, “millennials” e pessoas que conheço dormem separados. Lendo, encontrei Rosa Montero, em A louca da casa, que escreve remando contra as noites:
Também poderia dizer que escrevo para suportar a angústia das noites. No desassossego febril das insônias, enquanto você rola na cama precisa de alguma coisa em que pensar para que as trevas não se encham de ameaças. [...] Quando Martin Amis escreveu seu romance “A informação”, ele se referia a isto; à voz que sussurra durante a noite que você vai morrer, uma mensagem que nunca se ouve durante o dia, mas que na sonolência torna-se ensurdecedora. Mas é preciso perguntar, porém, onde se encontra a verdade, onde você está mais perto do real, se nas angústias noturnas ou na relativa narcose dos dias.
Eu quero ficar acordada para um embate direto com o fim, com o escuro. Não posso dormir desprevenida sendo vencida pela morte longa de uma noite. Então, todo dia deito horas antes do meu horário limite para dormir. Conversamos, lemos, silenciamos, anotamos até que eu me rendo e morro. Por isso, eu não gosto de acordar cedo: é uma pressão para que eu me entregue rápido, antes de estar preparada, aos braços da morte.
Isso me faz lembrar do filme Ruído Branco; uma obra estranha e desajustada, como existir. Nele, uma das personagens sofre de um medo terrível da morte dela e dos outros. A família descobre esse medo ao perceber que ela toma escondida um remédio misterioso, desses que não se encontram nas farmácias. Dylar. É uma pílula experimental para apaziguar o medo da morte. Não funciona, é claro. E a personagem, desesperada por ter passado por diversas humilhações para conseguir a medicação, confessa para o marido:
Parece banal, todos temos esse medo. Mas acredito que ela desvelou as fantasias uma a uma, aquelas que nos fazem viver para além de sabermos que vamos morrer. Chegou no ponto cego da nossa existência. Afinal, como seguiríamos temos a noção lúcida, limpa e clara, a cada segundo do nosso dia, de que acabamos? Tem noites em que me lembro dos olhos inundados da Babette e desejo esse remédio. Assim como ela, eu me humilharia, andaria por becos escuros, venderia o meu corpo em troca de essa angústia passar. Talvez no meu organismo a droga funcionaria.
Não existe, não funciona. Tem os remédios que capotam o corpo, mas não são esses que eu quero. Se tomo esses, quando acordo, a morte ainda está em todo lugar, esperando. O que me resta é seguir a estratégia que travei: me render.
Me desprender, me descolar, deixar de lado, morrer um pouco, me permitir ser sonho e corpo amolecido, voltar a mim e estar apenas comigo. Não há nada de errado em abandonar o mundo, deixar as coisas e as pessoas e os animais seguirem o seu fluxo natural sem mim. Eu acordo e tudo continua com seu brilho, sua opacidade e sua sombra.
É difícil, mas sigo tentando. Meus olhos merecem não ver. Eu mereço, por um tempo, não ser.

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