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É tempo
De regressar
A casa
A poesia
Não está
Na rua
Adília Lopes No meu último aniversário, rolou um questionamento entre minhas amigas: “qualquer lugar do mundo, onde você moraria?”. Fiquei um pouco aflita pensando enquanto as outras falavam. Quando chegou a minha vez, falei “Madri” e não entendi. Odeio cidades grandes; sempre me estressa ir a São Paulo. Para algumas amigas, que são de lá, sempre digo já de dentro do ônibus ou do carro “estou fazendo esse sacrifício para ver vocês. Essa cidade é horrorosa”. Engraçado, porque nasci em São Paulo; mas acho que essa história fica para outro dia. Na verdade, eu queria ter falado “aqui, onde eu estou”. Mas me senti envergonhada, isso parecia pouco sonhador. Quem gostaria de morar em Limeira, interior de São Paulo? Esses dias um casal de uma pousada onde me hospedei com a Rafaela perguntou o que tinha em Limeira; não soubemos responder.
Nessa história, acho, o que me motivou a sentir vergonha é um resquício do que já fui. A Denise de quase toda a minha vida queria ir embora. De tudo. Fugir, mesmo que imaginariamente, era meu conforto. Isso antes de eu saber que o que eu fazia era fuga; saber estragou tudo (obrigada, terapia). Como é recente eu gostar de ficar, ainda me surpreendo. Talvez, em algum dia, eu consiga pensar em sair sem fugir.
Desde pequena, eu queria outra coisa. Via nas famílias dos outros o jeito certo de ser uma família. Na casa, nos pais. Eu olhava para fora e colhia característica, tecendo um Frankenstein de desejos. Almoço e jantar tinha que ser todo mundo junto; viagem deveria ser união; comemoração de aniversário deveria ter sempre festa e muita alegria; as pessoas deveriam ser mais calmas, talvez falarem mais baixo; o dinheiro deveria ser gasto de outra forma. O que eu tinha era torto e errado. Mas essas outras coisas também não eram o que eu queria. Se eu tivesse tudo isso (e agora vejo que eu tinha de certa forma), a insatisfação ainda me corroeria.
Meus relacionamentos amorosos também não saíram ilesos: mesmo nos momentos mais felizes, eu sentia uma melancolia estranha ― faltava algo muito importante que eu não conseguia decifrar. Isso me fazia (e ainda faz às vezes) pensar que as outras pessoas sabem amar e eu ainda não aprendi. No trabalho, então, isso aumentava; porque quem gosta de trabalhar? Já é um lugar espinhoso e ― por mais que eu buscasse melhores funções, horários, lugares ― parecia que eu, cada vez mais, cavava um buraco de desconhecimento. E de tudo, mesmo que só da boca para dentro, eu queria fugir, mesmo que um pouquinho, mesmo que fosse só me fechando no quarto ou em imaginações em segundo plano.
A fome nunca passava. Em vários momentos, como uma intrusa, me invadia uma vergonha do que eu tinha. E, por isso, por muito tempo as pessoas não sabiam muito sobre mim; me tornei um ótimo receptáculo de histórias, sentimentos e percepções alheias. O meu ficava dentro para que o julgamento viesse apenas de mim. E eu entristecia, pois os outros foram presenteados com tudo que eu não tinha; e eram felizes.
Descobri que isso tudo é coisa de gente bem neurótica. Eu.
A completude da felicidade é um outro inalcançável. Ninguém, ao contrário do que meu inferno interno me faz crer, tem nem terá. É algo embaçado, sem cara, não está nas pessoas nem nas situações, é algo obscuro que urra em vontade vontade vontade. Vontade de quê? Eu não sei; o algo também não sabe.
Enquanto escrevo, como não lembrar desse clássico joutjoutiano? ― Imagem do livro “A parte que falta” de Shel Silverstein
A tristeza da falta eu sei que não carrego sozinha. Ninguém sabe ao certo como viver. Muitas vezes eu esqueço que sei disso. Tento lembrar. Estar aqui escrevendo é um jeito de firmar esse aprendizado que me custou muitos anos de angústia, de terapia e de outros mergulhos. Demorou para eu fincar um pouco mais o pé no chão e viver um passo a mais na realidade. E tudo isso doeu e dói ― olhar para o real arde os olhos.
Nessas férias, fiz o exercício de ficar física e mentalmente no que eu tenho. Calei muitas bocas do dentro-fora e resisti à minha defesa de sempre estar fazendo, fazendo, fazendo ― um tipo de fuga. Ficar em uma aparente inércia, na calmaria, olhando para o presente e para o que se tem é um dos atos mais difíceis e revolucionários. É agridoce. Para mim, é necessário se eu quiser aproveitar os dias que me esperam sem tanta fuga.
Conto tudo isso, me arreganhando um pouco ― quando não na escrita? ― para fincar meus pés. No ano passado, estive muito do portão para fora de mim. Agora, é hora de retornar, de criar raízes, de evitar a fuga. A escrita, por mais que sempre ficção mesmo quando verdade, é o lugar que mais me faz voltar para o real brilho das coisas. Por isso, voltar com força à escrita do meu novo romance, por isso escrever nesta newsletter. Para que eu vista o lugar das palavras como meu e não pegue mais emprestado, para que eu não sinta medo, para que eu não tente criar outro algo, para que eu não sinta que não tenho nada aqui.
É para mim, mas espero que alguns me acompanhem nesse caminho.

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