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O que escorre · Apr 19, 2024

As mãos

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Denise Aparecida da Silva · O que escorre

O cheiro ardido de esgoto, urina e fumaça; a merda humana, a merda animal ─ tudo uma coisa só... Um rato amassado colado ao asfalto; as larvas mescladas ao arroz seco do resto da marmita; os líquidos turvos, grossos, peguentos caminhantes nos vãos da calçada. O lixo rodeando o poste da esquina e rastejando até o meio da rua. O carro passando e os pedaços de sacola voando pelo concreto, o qual range em buzina, construção, carros, gritos e ódio no ouvido das pessoas, dos cachorros, dos sacos de lixo, que dormem ou morrem no asfalto quente, rodeados de mijo e leptospirose. E Joana come ─ cheirosa, bem arrumada, roupa nova ─ seu bife à parmegiana com bastante queijo e molho, sentada na parte de fora do restaurante.

Eu vejo; Joana parece que não.

Depois, de barriga cheia, ela caminha de mãos dadas ─ os dedos entrelaçados, bem colados ─ com aquelas outras mãos quentes. Caminha entre as rachaduras do fim do mundo, sentindo que nada pode fazer com que ela caia. Eu vejo: as mãos não têm essa quentura toda. Mesmo assim, Joana abre a porta do prédio, a porta do elevador, a porta do apartamento, a porta do quarto, a porta para dentro; arreganhando bem as pernas praquelas mãos investigarem todo o seu corpo. Ela é farta, a dona das mãos. Tem coxas grossas, peitos grandes, cabelos cheios e olhos profundos: toda uma abundância alimentada e inflada pelo minguar de Joana. Quando menos se espera, o sorriso rasteja, abrindo espaço para uma cara que não conheço: meio torta, meio escorrida. É ela, a dona das mãos, que tira tudo de bom de dentro de Joana, fazendo-a líquido para que possa beber até a última gota. Eu vejo; Joana não.

De olhos esbugalhados em susto, quero explodir em gritos e suplícios para que Joana saia, para que ela corra, para que ela dê um carreirão e não volte nunca mais. Mas as mãos, elas são como imã para o corpo derretido de Joana. E ela, muito ao contrário do que deveria, rola na carniça, pisa no lixo, lambe as sarjetas, se lambuza e se confunde no chorume do corpo da moça das mãos. Eu vejo o que está dentro e o que está fora; Joana não. Ela vai sim entrar no apartamento sem ao menos tirar os tênis ─ essa sujeira precisa estar em todos os lugares! ─ e vai sim deitar, mais um dia, mais uma vez, cheirando em suspiros a nuca do seu maior tormento. 

Depois de alguns dias derrubada pela dengue e ainda com os sintomas ressoando, tento voltar. Como há muito o que se resolver e pouco tempo para escrever (ficar doente é isso: viver fica ainda mais confuso), trago o conto “As mãos”, que foi finalista no Prêmio Off Flip de 2023, mas que poucas pessoas tiveram a possibilidade de ler, já que foi publicado apenas na coletânea do prêmio. Eu queria muito que ele fosse lido e vejo nessa correria a oportunidade. Me conte nos comentários se gostou.

Obrigada por ler O que escorre. Compartilhe este texto para que ele chegue nas mãos de quem o espera.

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Read the original on deniseapsilva.substack.com

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