Estou fazendo o Curso Livre de Formação de Escritores (CLIPE) da Casa das Rosas e o módulo deste mês está sendo com a Flávia Péret. Entre tantos presentes, ela dedicou uma aula ao diário: esse gênero que busco nas minhas manhãs desde 2021 e, agora, também no meu próximo romance.
Ela sugeriu escrevermos um diário investigando um assunto, trazendo outras linguagens. Fiz isso durante a semana passada e senti que ultrapassava o privado: eu queria compartilhar algumas partes. Por isso, este texto.
Selecionei trechos e omiti outros ― se expor tem um limite até para os escritores.
Transcrevi do jeito que estava, sem corrigir os desvios, os tempos, as correlações verbais, os pronomes errados, as vírgulas avessas, as omissões de palavras, as repetições, o excesso de “mas”... Mesmo que me irrite, deixei. Isso também é investigação. A escrita como me sinto.
15/05/24 - 12h40
Não que não escreva sobre isso no meu diário regular ou em todos os meus outros textos, mas quando surgiu o exercício no Clipe sobre fazer um diário sobre um tema específico, quis fazer em um caderno à parte. O isso é: a angústia que venho sentindo. Algo que não sei ao certo em que colocar a culpa. Então, escrevo para descobrir os culpados ― claro que sou eu, mas quero descobrir quem estou culpando desta vez. Fiquei tão animada com a ideia que elaborei a partir da proposta de exercício que levantei, deixando um pedaço de carne ainda no prato (aquele pedaço que deixo por último, o pedaço que mais gosto, a síntese da minha refeição). Levantei como se terminasse, mas voltei pelo pedaço. Como tudo e não quero que pouse mosca enquanto busco o caderno. Voltei afobada. É preciso calma até mesmo no desespero; e sinto que, nos últimos dias, sou puro desespero. Minha cabeça não para de preanunciar tragédias: sentires internos que correm risco. Parece que tudo corre risco e eu preciso fazer muito antes que tudo acabe.
Assisti duas vezes ao vídeo no Youtube de declamação do poema “O festival das lágrimas” de Cecilia Pavón. É um vídeo bonito, com uma voz bonita, um violão bonito, um texto bonito. “O lugar tinha como nome fim e também se chamava eu”. O fim, esse medo do fim e a vontade de engolir tudo e todos antes que acabe, antes que fim.
Paro para fazer carinho na cabeça da Luna que deitou bem perto de mim; hoje ela está mais perto que em outros dias. Toda vez, ou quase sempre que estou fazendo carinho nela, penso: e se alguém esmagasse ela, nunca eu, mas alguém fizesse isso?
É muito frágil.
O yoga me falaria que sou muito apegada à vida, às pessoas, aos animais. Provavelmente sim. Como não se apegar se tão recentemente me permiti sentir?
Mas queria que tudo isso me desse um tempo, estou com bastante sono.
15/05/24 - 13h03
Deitei a cabeça no meu braço e não consegui me concentrar no descanso ― meu coração batia no braço. Ele, o coração, precisa parar de se dilatar.
16/05/24 - 10h
Ontem ia aparecer por aqui ainda, mas decidi esquecer que estava angustiada. Não que eu decidi, talvez o cansaço tenha decidido por mim. Desde essa decisão, me encontro com sono e dor nas pernas. Fiz yoga de manhã e tudo doía. O consolo, e a distração, foi a Luna no meu colo.
[...]
Estou lendo um livro para a matéria do Clipe, uma parte do livro “Parque das Ruínas”; lá ela fala sobre tirar fotos para encontrar o infraordinário. Começa, inclusive com uma referência a um estudo incrível e simples. A comprovação: dependendo do sentimento, das pessoas, da idade... a lágrima tem uma geografia. Não sei ao certo a poesia em ver imagens extremamente amplificadas de lágrimas. Mas talvez em saber que, no microscópico, está tudo. Todos os seres microscópicos entendem, menos a gente. Quando eu chorar agora, talvez fique ainda mais triste em saber que as minhas lágrimas também estão cansadas de ter a mesma constituição geométrica. A geometria da angústia.
Isso me fez delimitar melhor o meu procedimento aqui: sempre que eu sentir angústia, vou tirar uma foto de para o que eu estava olhando e escrever sobre.
[...]
16/05/24 - 23h58
A angústia chega quando? Quando dou espaço para ela chegar. Antes disso, ela aparece entre as brechas, empurrando as portas. Mas eu a tranco bem e me distraio dos barulhos fazendo alguma tarefa. Uma hora eu tenho que parar; quando ainda estou ligando de dia ou desligando à noite. À noite, geralmente fica insustentável. É uma angústia de: não faz sentido.
Nada.
[...]
17/05/24 - 10h51
[...]
Qual é o peso? O que realmente pesa? O que eu queria tanto poder fazer?
Na foto, ao abrir os olhos, primeiro um alívio por ter conseguido dormir. Breve, a felicidade é um instante. Segundos depois, perco toda a leveza; já quero enfiar todas as tarefas no tempo que ganhei dormindo bem. E vem a angústia de fazer e fazer. Sei que não está bem aí a angústia. Eu faço coisas, às vezes bastante até, mas não muitas agora.
O tempo do descanso nunca parece suficiente porque algo o engole.
É a sombra da foto que burlei e tirei mais 3 fotos tentando tirá-la, mas trago aqui a original porque burlar a mim mesma eu só consigo por um tempo curto.
É a sombra que eu projeto atualmente e não quero olhar.
[...]
Só sinto que tento flutuar no mar, no lugar errado do mar. Onde as ondas quebram, onde o mar puxa.
[...]
17/05/24 - 11h22
Às vezes, eu só queria ir embora. Para onde? Do quê? Eu não sei.
Por isso, não vou.
[...]
19/05/24 - 12h21
É um diário sobre a angústia, então acho que também é importante, necessário, interessante legal, eu falar sobre os momentos em que não a senti: ontem quase o dia inteiro enquanto estava no yoga. Estava com sono, cansada, com dores mas não estava angustiada por mais que as questões viessem à minha mente. Lá, tudo parecia ter um propósito, ser de fácil discernimento.
Uma foto minha em movimento, não eu em foco, mas o movimento subentendido.
O pôr do sol que é um dos momentos que mais amo e algo que não veria se não fosse a foto: útil.
Provavelmente esta angústia é útil.
[...]
19/05/24 - 15h51
A luz batendo assim na minha perna me chamou a atenção em vários momentos enquanto estava no meu momento de leitura.
Momento esse que me despertou um tanto de angústia (por isso a foto), mas também algo de esperança, como essa brincadeira entre luz e sombra.
“Aos melhores falta convicção, ao passo que os piores
Estão cheios de apaixonada intensidade”
“Estamos vazios de significado”
Trechos do livro “Jung e o Tarô” de Sallie Nichols
“eu quero amar o que eu amaria ― e não o que é”
Clarice Lispector citada por Ana Suy em “A gente mira no amor e acerta na solidão”
“a gente vem de um outro e fica tentando retornar a ele. A fantasia que a paixão encarna é essa realização de encontrar nossa casa”
“Se a solidão costuma ser um problema, não é porque ficamos sozinhos de fato, mas sim porque podemos ficar mal acompanhados por nós mesmos” do mesmo livro da Ana Suy
“é difícil olhar as coisas diretamente ainda mais quando estão destruídas”
“se a gente começa a escrever
anotar e nomear o que acontece
será que consegue fazer as coisas existirem de outro modo?” de “Parque das ruínas” de Marília Garcia.
Esses trechos, eles têm algos a me dizer.
20/05/24 - 9h30
[...]
Algumas fichas vêm caindo, é fácil, talvez cômodo falar que são os relacionamentos, as pessoas que me angustiam quando sou talvez eu que jogue muito peso neles.
[...]
Lógico, essas coisas todas me estressam, mas nesse caminhar da angústia acho que preciso pensar: e eu? O que eu estou fazendo para cultivá-la?
[...]
Eu coloquei essas pessoas em uma caverna escura enquanto eu estava na luz. É preciso tirá-las, sim; mas mais do que querer aproveitar todo segundo angustiadamente dessas pessoas fora da caverna, é importante não pô-las lá.
21/05/24 - 9h38
[...]
Não vim mais escrever aqui, o dia não permitia; mas tirei essa foto voltando para casa.
A angústia estava lá, como estava em outros momentos.
Eu ouvia: “estão comendo o mundo pelas beiradas, roendo tudo, quase não sobra nada. Respirei fundo, achando que ainda começava. Um grito no escuro, encontro sem hora marcada.”. Essa música sempre me comove. E é isso, o encontro acontecerá, no escuro, e eu respiro.
É triste e angustiante saber que o caminho é sempre voltar. Mas também é bom, é bom ver o que fica e o que vai nesse ir e voltar; voltar e ir.
E saber que nunca é o fim.
[Ninguém foi machucado durante esse processo.]

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