Noite dessas, encontrei o portão do corredor aberto, aquele para que você ficasse segura; aquele que fizemos do nosso modo, com umas madeiras que ― mesmo compradas, vieram tortas ―, com tela de plástico de galinheiro amarrada com o que eles chamam de enforca-gato. Prefiro braçadeira de plástico, só no tempo de dizer o nome que dizem, sinto que cinco gatos foram enforcados. De tanto eu e Rafaela brincarmos, me vi olhando a loucura de frente ― seus olhos azuis sem fundo ― e te perguntando, bem baixinho, enquanto acariciava as suas orelhinhas: foi você quem abriu o portão?
Você chegou aqui em casa; não te convidamos. Eu via uma gata branca querendo entrar na cozinha e me achava maluca por ninguém mais ver. Você chegava confiante, com o rabo em pé. Uma vez, arrastando o sofá, ouvimos um miado e uma bola de pelo correndo. Rafaela, eu tô doida? Você viu? ― era você se escondendo dentro do sofá. Depois que te descobrimos visita, você se sentiu ainda mais confortável para passar os dias deitada em cima do nosso registro de energia elétrica, dormindo tranquila. Chegaram a perguntar se a gata branca era nossa. Não, achávamos que era de alguma das vizinhas que teimam em deixar os gatos soltos. Assim descobrimos que você não tinha casa certa, mas talvez já tinha escolhido o seu lar. Isso fez possível o dia da decisão: Rafaela te convenceu a deitar no colo dela e você ficou horas soltando pelos, saliva e ronronos de felicidade. Cheguei e a decisão já tinha sido tomada; eu só ajudei a te dar um nome. Ela disse Luna, eu que tinha cara de Beatriz: Luna Beatriz.
Mas nada disso explica como você conseguiu abrir o portão a não ser o que custávamos em aceitar: você é uma bruxa. Você chega sem percebermos, entende o que falamos no silêncio e sabe onde curar quando estamos doentes. Que tristeza não ter te reconhecido antes! Aqueles dois dias em que encontrei meu orégano cagado foi você, não? Se zangou por eu não ligar para você e até evitar que entrasse em casa. Eu sei, eu mereci; mas você não perde os velhos hábitos de se vingar.
Eu deveria ter percebido quando te encontrava em meio às plantas, passando o rosto nas folhas; você que encontrava no frescor da vegetação o seu remédio. Esses seus pelos volumosos, branco mesclado ao marrom e ao preto, transformação do seu cabelo escuro que teimou em envelhecer cedo, te dando grossas mechas brancas. Elisabete, o nome de antes, não? Será por isso o colar elizabetano de pelos agora em seu pescoço? A alergia que meus olhos têm dos seus pelos, como não percebi? Daquela briga que tivemos antes de você morrer, e eu ― na incredulidade de você ter ido sem fazermos as pazes ― passei a terra do seu túmulo nos meus olhos.
Para fazermos as pazes nessa vida, escolhi guardar em reverência a você, a nós, não seus pelos em uma bola fofa de alergia, ou seus bigodes, ou as unhas que você perde arranhando a casa. Preferi a intenção: assim como o meu primo quando pequeno, você me traz buquês de plantas arranjadas do quintal ― não qualquer, um tipo específico, a teia de aranha; um lembrete do seu caldeirão. Você sempre anuncia o presente com um miado grosso e embolado; agradeço, brincamos um pouco e as guardo no meu altar.
Você pisca devagar escondendo por uns instantes o sem-fim azul dos seus olhos. Você mia em resposta.
Eu sei que foi você quem abriu o portão.
Uma bruxa, como todas fêmeas somos.
Dessa vez, você gata; eu humana.
Ansiosa para minha próxima vida como animal.
Texto em comemoração a um ano de adoção da mais nova bruxa do Coven.

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