Kyle Shanahan: gênio ou superestimado?
Poucas perguntas dividem tanto os analistas de NFL quanto essa. E, honestamente, é uma das mais interessantes que se pode fazer sobre treinadores da geração atual.
A influência de Shanahan no futebol americano moderno é inegável. O sistema que ele desenvolveu e popularizou foi copiado por metade da liga. A forma como ele cria espaço, manipula defesas e usa o movimento pré-snap coloca ele num patamar diferente como coordenador ofensivo e como pensador do jogo. Poucos treinadores têm o impacto esquemático que ele tem.
Mas aí vêm os Super Bowls. E aí a conversa muda de tom. Perder de formas dolorosas em situações onde o time estava em posição de vencer é duro. São momentos que ficam, e nenhuma análise honesta consegue ignorá-los.
Gênio e superestimado não precisam ser mutuamente exclusivos. Esse é o ponto. Fiz um vídeo tentando equilibrar os dois lados dessa equação.
A régua não pode ser a mesma para todo mundo
O contrato de Patrick Mahomes com média de 64 milhões de dólares por ano é, ao mesmo tempo, inevitável e compreensível. É o melhor quarterback da geração, provavelmente um dos melhores de todos os tempos quando tudo estiver dito e feito. Se alguém merece um número assim, é ele.
O problema é o que vem depois. Esse contrato vai balizar os pedidos de Lamar Jackson, Joe Burrow e Josh Allen — e aí a conta faz sentido. São quarterbacks de elite que constroem seus times, o que justifica a pedida. É natural na NFL.
O que não pode acontecer é esse número virar referência genérica para a posição. O contrato de Dak Prescott em 60 milhões já era um absurdo difícil de justificar. Mahomes em 64 não muda isso — só afasta ainda mais o que deveria ser a porteira real para quem está abaixo desse nível. A régua tem que ser para os iguais, não para todo mundo com um número de camisa de quarterback.
Falei sobre isso no Semana NFL.
O caçador silencioso
Deixa eu te fazer uma pergunta. Quem é o terceiro jogador com mais sacks na NFL desde 2018?
Se você não sabe de cabeça, não se sinta mal. É exatamente esse o ponto.
São 89 sacks totais na carreira, mesmo tendo perdido a temporada inteira de 2020 e boa parte de 2021. Danielle Hunter segue semana após semana derrubando quarterbacks sem acumular capas de sites, sem contratos que dominam noticiários, sem o reconhecimento que jogadores com números parecidos recebem. Ele simplesmente trabalha.
Tem pass rushers que ganham mais aplausos, mais votos para o Pro Bowl e muito mais atenção. E Hunter segue na fila, empilhando sacks, ignorado pela narrativa. Na NFL, às vezes os melhores são exatamente aqueles sobre quem menos se fala.
Seleção Brasileira: falta quem arrisque
O jogo contra o Marrocos deixou uma impressão clara e um pouco desconfortável: essa seleção não tem personalidade para assumir o jogo quando o momento pede.
Vinicius Jr. foi o único que tentou algo diferente, que colocou o corpo e o ego à disposição do risco. O restante foi um time acanhado, que não consegue traduzir em campo o que Ancelotti claramente quer construir. Falta quem pegue a bola e decida — não por arrogância, mas por responsabilidade.
Para mim, há dois nomes entre os disponíveis que têm essa característica: Endrick e Rayan. Os dois causam problemas táticos, sim. Não são encaixes perfeitos no esquema. Mas resolvem algo que nenhum esquema consegue ensinar: a disposição de fazer acontecer quando o time precisa. Ancelotti vai precisar decidir se quer um time arrumado que não chega a lugar nenhum, ou um time com arestas que pelo menos tenta.
Dica cultural: Modern Family
Às vezes não quero analisar nada. Só quero sentar, ligar a TV e rir.
Modern Family é perfeito para isso. Família conectada, personalidades completamente diferentes dividindo o mesmo espaço, situações que escapam do controle de formas sempre improváveis. O humor é leve, o ritmo é bom, e você chega no fim do episódio sem saber direito onde o tempo foi.
O destaque vai para Cam, que é fanático pelos Chiefs dentro e fora das câmeras — o ator Eric Stonestreet é, na vida real, exatamente o torcedor apaixonado que ele interpreta na série. Esse tipo de detalhe faz diferença. Está no Disney+, não tem desculpa.
Até semana que vem.
Deivis
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