RSS Amplifier

Daniel Lucrédio · Jun 17, 2026

A arte do caçador - parte 3

0
Sign in to vote or save

Daniel Lucrédio · Daniel Lucrédio

São Miguel do Vale, 28 de maio de 1861

Espiou pela porta entreaberta do quarto. Diana parecia dormir profundamente em sua cama, pois sua respiração se fazia ouvir a intervalos demorados. Tentando não emitir nenhum som, afastou-se cuidadosamente e voltou ao seu quarto. Pegou as botas mas não as vestiu. Aguardou até que estivesse do lado de fora da residência. Apreciando a luz quente do alvorecer em seu rosto depois de uma noite longa e fria, suspirou profundamente, calçou as botas e saiu caminhando pela pequena rua de paralelepípedos.

As caçadas eram eventos grotescos, mas tinham um efeito incomum. Quase sempre geravam um incomparável sentimento de estar vivo, ou pelo menos era isso o que Lionel sentia. Não era algo filosófico como a gratidão que os sobreviventes das experiências de quase-morte relatavam. Era mais visceral. Era um misto de sensação de dever cumprido, de ter salvado vidas humanas, de ter feito a diferença nesse mundo. De ter vencido a luta contra feras perigosas, demonstrando o domínio da raça humana sobre os demônios, negando-se a aceitar o destino sombrio arquitetado pelo mal que habitava sob a terra. E a visão do Sol surgindo no horizonte, trazendo cores para um mundo sombrio, encerrava a experiência de maneira avassaladora.

Estava muito cansado, mas também muito agitado para dormir. Fazia tempo que não se sentia assim, queria aproveitar um pouco. E também estava com fome. As rações compartilhadas pelos caçadores — Lionel não teve tempo de preparar e levar um lanche para a caçada — tinham servido apenas para silenciar o estômago e evitar que seus roncos atraíssem algum demônio. Precisava de uma refeição de verdade. E também queria, é claro, conversar com mais alguém além de Diana, Nestor e os outros homens da caçada. A hipótese do psicopata transmorfo estava muito longe de parecer plausível, e as inconsistências na narrativa de Diana, junto aos acontecimentos da noite passada, lhe diziam que sua presença ali tinha uma razão mais obscura do que ajudar nas caçadas.

A cidade estava acordando. Portas eram destrancadas e as pessoas saíam para as ruas, transformando o cenário tétrico da noite em uma pintura viva e agradável. Ver pessoas normais, usando roupas casuais, ocupadas em suas tarefas do dia-a-dia, ao invés de homens de roupas escuras e chapéus pontudos arrastando e queimando cadáveres, trazia um alento mais do que necessário. Suas peles não estavam sujas de terra ou sangue, ou o que quer que escorresse de dentro da podridão imunda das criaturas que agora dormiam na floresta. Estavam limpas e suas expressões eram serenas, indiferentes aos horrores da noite. Lionel não podia segurar o leve sorriso que insistia em ocupar seu rosto.

Seus pés o guiavam seguindo o cheiro da padaria. Ele não fazia a menor ideia de onde ficava, mas sentia o sabor dos pãezinhos convidando-o pelo ar. Depois de alguns minutos, avistou o estabelecimento. Ao se aproximar, viu que havia muita gente esperando do lado de fora. Conversavam animadamente, aparentemente esperando a próxima fornada. Lionel parou ao lado do grupo e ficou esperando também. Depois de algum tempo, a sorridente dona da padaria saiu de dentro e falou, em uma voz animada:

— Só mais alguns minutinhos, pessoal. Já estão saindo do forno.

Os clientes acenaram com a cabeça, mas assim que a mulher avistou Lionel, seu rosto se alterou. Ficando séria, ela perguntou:

— O que quer, forasteiro?

— Er… apenas uns pães, senhora, nada mais.

— Professor?

Lionel olhou para o lado e viu Manoel. Ele ainda estava usando suas roupas de caçador, e sorria para ele. Aproximando-se, deu um abraço e um tapa em seu ombro. Lionel sentiu o cheiro ruim que exalava de suas roupas, mas disfarçou e sorriu de volta. O caçador virou-se para a dona da padaria e disse:

— Cristina, separe os melhores pães de sua fornada para nosso companheiro de caçada aqui. Ele merece.

Ao ouvir isso, a mulher arregalou os olhos e disse:

— Oh, é um caçador? Eu não sabia, me desculpe. — Em seguida abriu um sorriso. — Entre, por favor, espere aqui dentro.

Meio sem graça, Lionel aceitou o convite e entrou na padaria, seguido pelos rostos sorridentes das pessoas ao seu redor. Alguns lhe deram um leve tapa no ombro, e outros acenavam com a cabeça positivamente, agradecidos.

Por dentro, a padaria era muito aconchegante. Havia algumas mesas e cadeiras, e dois sofás que pareciam muito confortáveis. A maioria estava ocupada, e todos se viraram para encará-lo assim que ele entrou. Cristina o guiou até um dos sofás:

— Vou trazer um café enquanto espera, por favor fique à vontade.

— Muito obrigado. Mas eu prefiro um chá, se tiver.

— Temos sim, já trago.

Ele se encostou no sofá e precisou esperar muito pouco até que uma xícara de chá e torradas aparecessem na mesinha à sua frente. Ele engoliu as torradas e o chá como se fossem um petisco, e ficou olhando o cardápio, escolhendo o que comeria a seguir. Foi surpreendido por uma voz feminina:

— Se quiser algo que não tem no cardápio, é só pedir. Dona Cristina disse para trazer tudo o que quiser.

A garçonete que sorria para ele tinha um rosto bastante amigável. Seus cabelos longos e negros estavam presos em um rabo-de-cavalo, e seus olhos castanhos acompanhavam o sorriso da boca larga.

— É muita gentileza. Agradeço, mas eu queria apenas um pão com manteiga, se já tiver saído do forno.

— Já estão saindo.

— Qual é o seu nome?

— Sofia.

— Muito prazer, Sofia, eu sou Lionel.

— Ah, sim. Você é um caçador, não é?

— Sou eu. Parece que minha fama me precede — ele disse, abrindo os braços.

— Fique à vontade, Lionel, se precisar é só me chamar.

— Er… Sofia?

Ela já tinha começado a se afastar, mas voltou imediatamente.

— Posso te perguntar uma coisa? — disse Lionel.

— Sim, é claro. Se eu puder responder.

— Deve saber o motivo para eu estar aqui, não?

Ela pareceu assustada ao responder:

— Bem, não exatamente…

— Eu vim para ajudar na caçada.

— Sim, foi o que eu ouvi.

— Mas você sabe exatamente o que eu vim caçar?

— Na verdade, eu…

Neste momento foram interrompidos por Cristina, a dona da padaria, que trazia um grande pedaço de pão caseiro e uma porção de manteiga em um prato.

— Pode deixar, Sofia, eu mesma o sirvo.

A garçonete se afastou, enquanto Cristina colocava a refeição na mesa. Para surpresa de Lionel, ela se sentou no sofá à sua frente e começou a cortar uma fatia do pão. Sem cerimônia, ela falou:

— O que quer saber?

Cristina era uma mulher de idade avançada e cabelos claros e encaracolados. As rugas em seu rosto diziam que já tinha vivido muito, mas o olhar era jovem e aguçado. Sentindo-se acuado, Lionel disse:

— Desculpe-me, eu não quis parecer enxerido…

— Não precisa se desculpar. Está aqui para ajudar na caçada, então devemos tudo a você. — Entregou a fatia de pão com manteiga ao seu cliente — E aos demais, é claro. Nossa cidade não existiria sem homens valorosos como vocês para nos livrar daquelas coisas.

— Obrigado, eu tento ajudar no que posso.

— Então, eu também quero ajudar. Diga-me, o que quer saber?

Dando uma mordida no pão e tentando parecer displicente, Lionel disse:

— Diana já deve ter lhes contado sobre o transmorfo que estamos caçando, eu suponho?

— Desculpe-me? Trans… o quê?

Mastigando e encarando-a profundamente, Lionel esperou alguns segundos antes de falar:

— Transmorfo, é o que sugerem os rumores, não?

— Não sei dizer… que rumores seriam esses?

— Os rumores que me trouxeram até aqui. As mortes na capital, as jovens garotas… não sabe do que estou falando?

Parecendo genuinamente preocupada, Cristina se aproximou e disse:

— Não, eu não sei de nada disso. Meu Deus, é sério então? Eu estava achando que…

Ela tinha mordido a isca. Lionel parou de mastigar para ouvir o que ela diria a seguir. Mas ela simplesmente parou de falar, parecendo desconfiada. Lionel resolveu mudar de estratégia:

— Não precisa ficar preocupada, na verdade estamos investigando ainda, e as pistas parecem não levar a conclusão alguma — aproximando-se dela e dando um sorriso, completou — Eu, pessoalmente, acho que essas mortes não tem nada a ver com demônios, são obra de um doente mental lá da capital.

Cristina pareceu ficar aliviada ao ouvir isso:

— Oh, isso é bom. Tem certeza?

— Eu tenho quase certeza. — Tentou parecer despreocupado — Diana, no entanto, tem uma outra teoria. Ela acha que é um demônio que vai matar uma garota desta vila amanhã à noite.

Cristina levou as mãos ao peito. Lionel disse:

— Mas ainda estamos investigando, como eu lhe disse antes. Pode ser que não seja nada.

Ele terminou de comer vagarosamente sua fatia de pão. Limpou os dedos e começou a cortar mais uma fatia. A mulher parecia preocupada, mas confiante, ao dizer:

— Espero que você esteja certo, e que ela esteja errada.

— Eu também, mas pelo pouco tempo que estivemos juntos, já deu para perceber que ela é bastante astuta.

— Ah, sim, ela é muito inteligente, sim.

— Se ela morasse na capital, acho que estaria fazendo sucesso em alguma universidade de prestígio. Conheci muitas pessoas inteligentes, e acho que ela se daria bem no mundo acadêmico.

— É, acho que esse dom está na família.

— Família?

— Sim, a irmã dela foi para a capital, estudar. Ela não te falou?

— Não, não falou. Irmã?

— Sim, sua irmã mais velha, Anabela. Ela se mudou para a capital e foi estudar astronomia.

Ao ouvir aquele nome, Lionel teve um sobressalto. Tentou não demonstrar reação ao responder:

— Interessante, e Diana nunca quis seguir os passos da irmã? Ela certamente tem o talento…

— Na verdade…

Ela parecia relutante em continuar seu relato. Lionel tentou não exibir expressão alguma no rosto exceto a de uma curiosidade casual. Cristina disse:

— No começo, não. Diana sempre foi feliz aqui, ajudando nas caçadas. E quando Anabela se mudou, ela parecia contente. Na verdade, elas brigavam muito, coisas de irmãs, sabe, aquela competição? — deu um sorriso ao dizer isso — Então foi até bom elas se separarem um pouco. Mas aí, de uns seis meses para cá, Diana mudou. Quase não sai de sua casa, fica estudando o tempo todo…

— Sei…

Cristina parecia ter percebido algo, quando disse:

— Agora que você falou, acho que pode ser isso mesmo que está acontecendo com nossa Diana. Será que ela quer ir para a universidade?

— O chamado da ciência chega quando menos se espera. Eu mesmo, quando era um jovem caçador, decidi que minha vida tinha que ser mais do que aquilo ali. Resolvi estudar e aprender, e nunca mais parei.

— Bom, se ela de fato for embora, é uma pena. Gostamos muito dela.

— Mas não é como se ela fosse embora para sempre. Anabela, por exemplo, nunca volta para visitar a irmã?

Cristina fechou o rosto imediatamente ao responder:

— Não. Depois que ela se mudou para a capital, parece que se esqueceu da gente.

— Sinto muito.

Ficaram em silêncio por mais alguns segundos. Sentindo que não havia nada mais para perguntar, Lionel disse:

— Bem, senhora Cristina, eu preciso descansar um pouco agora, o sono já está batendo forte. Seu pão é uma delícia. Quanto eu lhe devo?

— Não é nada.

— Eu insisto.

— Não, eu é que insisto. Muito obrigada por ajudar, de verdade. E tomara que você esteja certo sobre o monstro.

— Bom, muito obrigado então. E não se preocupe… depois de nossa conversa, tenho ainda mais certeza de que não há nenhum perigo novo para esta cidade.

Ela sorriu aliviada e se levantou. Agradecendo mais uma vez, pegou a bandeja e foi embora.

Lionel saiu da padaria e não conseguia parar de pensar naquele nome.

Anabela.

Estudante de astronomia.

Ele conhecia uma estudante de astronomia chamada Anabela. Conhecia muito bem.

Deixe um comentário

Assim que saiu da padaria, Lionel continuou perambulando. Tinha esperança de visitar uma biblioteca, onde pudesse encontrar os originais das notícias das mortes das garotas e obter uma cópia que não tivesse sido adulterada. Não encontrou nenhuma, mas mesmo que houvesse, dificilmente conseguiria exemplares do jornal da capital. Também tentou conversar com mais moradores sobre os tais rumores, mas ninguém parecia saber muitos detalhes, exceto que Diana tinha convidado Lionel para ajudar nas caçadas. E ninguém parecia preocupado, também. Se esses rumores eram verdadeiros, definitivamente não estavam sendo levados muito a sério pela população.

Tendo visitado todo canto da cidade, resolveu voltar para a casa de Diana. Já era quase hora do almoço, e ela ainda estava dormindo. Como ele também estava muito cansado, deitou-se na cama e adormeceu imediatamente.

Foi acordado por um toque leve em seu ombro. Diana estava sentada na cama ao seu lado. Ela segurava um candelabro que iluminava o quarto com uma luz fraca e amarelada.

— Diana? — ele disse, em um susto — Nossa, acho que dormi demais, que horas são?

— Já anoiteceu, mas não se preocupe. Você parecia cansado demais, deixei você dormir.

— E a caçada?

— Os homens já saíram duas horas atrás.

— Nossa, eu dormi tudo isso? Que horas são?

— Não se preocupe, já disse. — Ela sorria para ele enquanto acariciava seu ombro — Eu já tranquei toda a casa, não precisamos sair hoje à noite.

Incomodado por ter dormido tanto, Lionel se levantou e foi lavar o rosto. Diana se levantou e disse:

— Eu já preparei o jantar e o vinho. Sem queijo, desta vez.

Lionel se virou para encará-la. Ela estava diferente. Não estava usando camisa e calças, como tinha visto até então, e sim um bonito vestido vermelho. Não era um traje de gala. Era simples e elegante, e deixava-a com um aspecto bastante atraente, principalmente devido ao grande decote que deixava muita pele à mostra. Seus cabelos estavam presos sobre a cabeça, mas algumas mechas caídas adornavam seu rosto. Se não fosse pelas cicatrizes vermelhas na testa e bochecha, ele jamais imaginaria que aquela era a mesma pessoa da noite anterior.

— Você está… — não conseguiu completar a frase.

Levantando um pouco a saia com a mão livre, ela disse:

— Eu resolvi mudar um pouco o visual, já que não vamos caçar hoje à noite… resolvi experimentar algo diferente para o jantar.

— Devia ter me acordado. Nestor e os outros estavam feridos, eles podem precisar da nossa ajuda.

— Eles estão ótimos, já passaram por coisas bem piores.

— Mesmo assim, eu vim aqui para ajudar, e não para ficar confortável, tomando vinho e comendo queijo enquanto eles se arriscam lá fora.

— Não tem queijo hoje.

— Droga, Diana, eu quis dizer…

— Você foi muito útil ontem — ela interrompeu. — Mas precisamos de você aqui, para pensar em uma forma de capturar e matar o monstro do eclipse. Só nós dois podemos decifrar isso, Lionel, ainda não percebeu?

Não querendo começar uma briga naquele momento, Lionel resolveu baixar o tom da conversa. Suspirou e disse:

— Está bem, você venceu. Pode me dar licença por alguns minutos?

— É claro, fique à vontade.

Dizendo isso, ela deixou o candelabro sobre uma mesa e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Lionel olhou-se no espelho e respirou fundo, procurando se acalmar. Havia muita coisa que ele pretendia descobrir, e para isso ele teria que jogar o jogo dela. Arrumou os cabelos o melhor que podia, escovou os dentes e saiu do quarto.

Diana o esperava no sofá, e segurava uma taça de vinho na mão. Ao seu lado, havia uma grande quantidade de papéis amontoados. Ela segurava um deles com a mão livre, aparentemente estudando seu conteúdo. Ao vê-lo, exclamou:

— Eu tenho algumas teorias que gostaria de discutir com você. Pensei em algumas formas para eliminarmos o monstro, já que o fogo-fátuo provavelmente não…

— Desculpe-me, Diana…

— O quê? — ela levantou o rosto.

— Pelo jeito como agi antes, me desculpe. Só estou um pouco frustrado por não ajudar na caçada.

Ela o olhou seriamente agora:

— Eu achava que você era diferente dos outros.

— Como assim?

— Eu já te disse, ninguém aqui dá a mínima para esse monstro perigoso que estou rastreando. Só ficam preocupados em sair e cortar cabeças e queimar carcaças, toda noite. Achei que você era diferente.

— Bem, eu…

— Se quiser sair, pode ir. A floresta fica ao norte, basta seguir a trilha principal, tenho certeza que encontrará o grupo mais cedo ou mais tarde.

Ela voltou à sua leitura, parecendo bastante chateada. Querendo amenizar o clima, Lionel disse:

— Desculpe, sinceramente.

— Lionel, você acredita em mim ou não?

— Não me peça para ter fé, eu sou um homem da ciência, e você sabe disso.

— Então acha que eu sou uma tola por acreditar nisso?

— Só acho que nossas hipóteses até agora são pouco plausíveis. Mas ainda não estou pronto para descartá-las.

Diana pareceu ficar menos aborrecida ao ouvir isso. Lionel precisava que ela estivesse em um humor melhor para questioná-la, então decidiu mudar de assunto.

— Podemos discutir suas ideias depois do jantar? Eu acordei faminto.

Ela sorriu e se levantou. Colocou sua taça de vinho sobre a mesa e disse:

— Eu preparei uma janta simples, não espere muito, tudo bem?

— Tudo bem, eu não esperaria que fosse boa cozinheira.

Ela já estava na cozinha quando respondeu:

— Não? E posso saber por quê?

— Os caçadores caçam, mas não preparam a comida.

— Mas eu não caço perdizes, e sim demônios. — Ela voltou, trazendo uma bela ave assada, acompanhada por legumes.

— Hum, parece delicioso.

— Espere até provar. Você traz o vinho?

Lionel ajudou-a a colocar a mesa e eles se sentaram para começar sua refeição. De fato, estava tão delicioso quanto parecia, e ele a parabenizou por suas habilidades culinárias. Sempre sorrindo, Diana explicou como fez o preparo, e ele não pôde evitar de admirar as belas curvas de seu rosto e seu corpo enquanto ela falava.

— Bem, estou definitivamente satisfeito — ele disse após engolir o último gole de vinho que cabia dentro de si.

— Tem certeza que não quer mais uma porção?

— Absoluta.

— Então sente-se no sofá enquanto eu tiro a mesa.

— De maneira alguma, eu ajudo.

— Não, por favor. Estou ansiosa para que você veja algo. É a primeira folha que deixei separada.

Lionel foi até o sofá e se sentou ao lado dos papéis que ela tinha trazido. A folha separada a que ela se referia era um artigo de uma revista especializada em caçadas. O texto versava sobre transmorfos, e estava cheio de rabiscos por toda parte.

— Onde encontrou isso? — ele perguntou.

Diana estava ocupada indo e vindo da cozinha, mas respondeu mesmo assim:

— Quando eu pensei que meu monstro poderia ser um transmorfo, pedi a um amigo para que trouxesse algumas revistas da capital. Eu nunca tinha visto nada referente a transmorfos na biblioteca da região.

— Tem uma biblioteca aqui?

— Não em São Miguel, mas na cidade vizinha de Guião tem, por quê? — ela parou o que estava fazendo para olhar para ele.

— Por nada… isso é fascinante, eu nunca tinha lido um estudo tão detalhado sobre transmorfos.

— Depois da nossa conversa ontem, eu reli esse artigo e acho que podemos descartar sua hipótese. Transmorfos não mantêm a consciência entre uma fase e outra, então a ideia de um demônio que está sempre ativo dentro de um humano seria algo sem precedentes.

— Até aparecer o primeiro.

— Achei que não era um homem de fé, professor.

Ele sorriu e continuou a olhar o texto. Reparou em algo estranho. Remexendo nos demais papéis, encontrou o exemplar anotado de “A arte do caçador”. Comparando os rabiscos, percebeu que a caligrafia era bem diferente. Perguntou:

— É você quem fica rabiscando nos artigos? Tipo esses aqui? — e mostrou os dois artigos para ela.

— Sim — Ela pareceu envergonhada. — Gosto de deixar minhas ideias escritas tão logo as tenho, assim não perco nenhum fio de raciocínio.

— A caligrafia está diferente.

— Ah, sim, é que eu li seu artigo há muito tempo. Já esse outro foi nos últimos meses, minha letra mudou. A sua não?

— E quantos anos você tinha quando leu meu artigo?

— Ah, acho que uns treze anos. Faz muito tempo.

— E você já tinha uma queda por mim? — levantou o artigo e apontou para o pequeno coração que adornava o pingo na letra “i” de seu nome.

Ela sorriu e disse:

— Bem, já nem vou mais disfarçar. Você foi uma espécie de paixonite adolescente, já admiti. Mas agora meu interesse mudou, eu juro.

— E o que sentiu quando sua irmã lhe disse que estávamos namorando?

Diana derrubou a taça de vinho que estava segurando na mão, estilhaçando-a no chão. Arregalou os olhos e abriu a boca em espanto.

— O-o… o que d-disse?

— Sua irmã. Anabela. Nós namoramos por um tempo, você sabia disso, não sabia?

Ela ficou paralisada, sem emitir som algum. Apenas o olhava. Lionel a encarou, aguardando o que ela diria a seguir.

— Já sabia que Anabela é minha irmã?

— Eu não fazia ideia, vocês são bem diferentes. Mas quando a dona da padaria me falou sobre ela, a semelhança se tornou muito óbvia na minha mente.

— Esteve na padaria?

— Sim, eu fui tomar café hoje de manhã, depois da caçada. Estava com fome.

— E o que mais ela falou? Cristina?

— Nada demais. Na verdade, nem ela nem ninguém na cidade parece saber muita coisa sobre esses tais rumores.

A respiração de Diana ficou acelerada.

— V-você saiu por aí conversando com todo mundo?

— Sim, qual é o problema?

Respirando fundo e tentando claramente se acalmar, Diana disse:

— Bem, é como eu disse, ninguém dá muita bola para a minha teoria…

— De fato. E ninguém soube explicar direito por que você me chamou aqui.

— Mas eu falei, todos sabem, você…

— Vim ajudar nas caçadas, sim, é o que todos dizem.

— B-bem, eu… eu…

Ela parecia aterrorizada. Lágrimas de terror pareciam querer cair a qualquer momento de seus olhos. Estava prestes a ser desmascarada, e Lionel decidiu chegar logo aonde queria.

— Também não souberam dizer por que você acha que um suposto monstro que parece atacar exclusivamente na capital resolveu vir para São Miguel do Vale para encontrar sua próxima vítima.

— S-sobre isso, eu t-tenho uma t-teoria…

— Eu também. Posso falar a minha primeiro? Na verdade é uma terceira hipótese, que não discutimos antes.

Ela não disse nada, então Lionel falou, calmamente:

— Uma garota sai do interior e vai até a capital para estudar. Ela deixa para trás uma irmã mais nova. Sozinha e presa em uma cidade pequena, a irmã mais nova sofre com o abandono e com o ciúme, pois irmã mais velha tem tudo o que ela sempre quis. Em determinado momento, chega a notícia de que a irmã mais velha está namorando. E seu amor é justamente o homem que a irmã mais nova sempre admirou, desde a adolescência, e ela sabia disso. Elas brigam, e não se falam mais depois disso. E é aqui que eu entro na história de vocês, sem saber, é claro. Mesmo assim, sinto muito.

Lionel parou de falar para medir a reação de Diana. Ela continuava paralisada, ouvindo atentamente, com a boca aberta. Lionel continuou.

— Mas vamos à hipótese. Não há monstro, nem psicopata. Na verdade, as mortes na capital não têm relação entre si. Sequer são todas mulheres jovens e belas. São uma invenção da irmã mais nova, elaborada para atrair esse homem para perto de si e tomar de volta o que é seu de direito. Além, é claro, de conseguir provar que ela é tão inteligente quanto a irmã.

Ficou mais um pouco em silêncio, antes de encerrar seu monólogo:

— Não é uma hipótese muito mais plausível?

Diana apoiou-se na cadeira e se deixou cair com um barulho forte. Ela começou a olhar para as próprias mãos, desconcertada. Lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto.

Lionel ficou em silêncio por um tempo. Não sabia o que aconteceria a seguir. Diana não falava nada. Nem confirmava e nem negava sua dedução, o que de certa forma servia como sua confirmação. Resolveu quebrar o silêncio:

— Ela me largou, sabia?

— O-o q-quê disse?

— Anabela me deixou.

— Anabela te deixou? — Diana parecia surpresa com a notícia.

— Sim. Mas suponho que se vocês estavam brigadas ela não se daria ao trabalho de lhe contar.

— Como foi a separação?

Lionel levantou os ombros e disse:

— Ela me deixou sem aviso, sem nada. Um dia ela estava lá, e no dia seguinte ela se foi.

— Sem dar nenhuma explicação?

— Sem dar nenhuma explicação.

— Mas vocês estavam brigando, ou algo assim?

— Sim, a coisa já não vinha bem. E eu a entendo, de verdade. Eu confesso que não sou uma pessoa fácil. Eu acho que eu mesmo não me aguentaria por muito tempo — sorriu timidamente.

— E quando foi que isso aconteceu?

— Há alguns meses.

Diana parou de chorar. Enxugou os olhos com as mãos e se levantou. Foi até a cozinha, deixando Lionel sozinho na sala. Depois de um tempo, ele perguntou:

— Diana, está tudo bem?

Ela voltou trazendo um copo de água na mão. Ela tremia. Sentou-se novamente na cadeira e bebeu devagar.

— Eu preciso me deitar.

— Está tudo bem? — repetiu Lionel — Quer que eu me retire? Posso procurar aquela estalagem, ou me juntar aos outros na caçada, acho que ainda dá tempo.

— Não, não! Eu estou bem, é só… — Olhou para ele e deu um sorriso triste. — Olha só… eu nem sei o que dizer nesse momento.

— Não precisa dizer nada.

— Eu preciso ficar sozinha, vou para o meu quarto. Mas por favor, fique. É perigoso sair agora, e ninguém vai abrir a porta para você. — Ela tinha retomado seu olhar amigável e um sorriso, apesar de tímido.

— Está bem, boa noite, Diana.

— Boa noite, Lionel.

Ela se levantou e foi até o quarto sem olhar para trás. Fechou a porta e a trancou.

Nenhuma publicação

Read the original on daniellucredio.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.