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Daniel Lucrédio · Jun 24, 2026

A arte do caçador - parte final

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Daniel Lucrédio · Daniel Lucrédio

São Miguel do Vale, 29 de maio de 1861

Mais uma vez Lionel passou a noite em claro. Além de ter dormido praticamente o dia todo, houve o confronto com Diana, que o deixou bastante agitado e com pena da moça. O barulho dos caçadores e o mau cheiro da fogueira tampouco ajudaram. Ficou a noite toda planejando a sua viagem de volta. Arrumaria sua bagagem e partiria assim que o dia raiasse. Mas o sono chegou junto com os primeiros raios de Sol, e ele resolveu dormir um pouco.

Acordou perto do meio-dia, a julgar pelo brilho da luz do dia. Espreguiçando-se, levantou e foi se lavar. Arrumou sua bagagem e deixou tudo pronto para ir embora. Suspirando, abriu a porta do quarto e saiu, mas não encontrou ninguém. Diana não estava na sala, nem no quarto, nem na cozinha. Depois de procurar por um tempo, encontrou seu bilhete sobre a lareira:

“Querido Lionel, eu fui dar uma volta. Não devo demorar. Por favor, me espere. D.”

Coçando a cabeça, pensou no que faria a seguir. Não queria sumir sem falar com Diana uma última vez, então decidiu esperar. Sentou-se no sofá e começou a ler o artigo sobre os transmorfos que ela tinha separado na noite anterior.

Apesar de saber que tudo não passava de um embuste, e que não havia nenhum transmorfo rondando aquela região, achou o artigo interessante. Era de um pesquisador renomado, que ele conhecia e sabia se tratar de um cientista sério. As conclusões eram bem fundamentadas em evidências e casos conhecidos. Uma delas era que, de fato, parecia inegável que os transmorfos não tinham qualquer tipo de compartilhamento de consciência entre humano e demônio. Também havia pontos em aberto, como sobre a forma mais eficiente de se matar um transmorfo. Fogo-fátuo ou sangria não eram suficientes, segundo o autor. Anotado na caligrafia de Diana havia algumas frases: “Há elo fundamental entre humano e demônio? Se existir, talvez essa seja a chave para a eliminação bem-sucedida”.

Os demais papéis não traziam nada de muito interessante, mas denunciavam que ela tentava levantar questionamentos e dúvidas sobre como eliminar transmorfos. Não havia conclusões nem teorias, apenas um catado de informações, certamente destinadas a estimular as discussões e nutrir o interesse de Lionel por ela. Ele tinha que admitir que Diana era muito inteligente. Toda a história tinha sido muito bem elaborada, e ela se dedicava aos estudos de maneira bastante aprofundada. A leitura daqueles textos não era algo superficial, apenas para fazer de conta. Ela era uma cientista de fato. E ela fez parecer que acreditava realmente na iminência de capturarem um transmorfo.

Ele tinha se sentido atraído por ela, e isso ele também não podia negar. Era bonita, simpática, corajosa e inteligente. Não tinha como não gostar disso. Mas o fato de que ela tentou enganá-lo desde o início levava o sentimento na direção oposta.

Diana demorou para voltar. O Sol já começava a descer quando ela apareceu. Usava suas roupas tradicionais, calças e uma camisa branca, e um casaco por cima. Seu rosto estava sereno, e ela parecia muito cansada.

— Oi — ela disse. — Obrigada por me esperar. — Ela apontou para sua bagagem feita, que estava ao lado da porta.

— Eu não iria embora sem me despedir.

— Sinto muito, por tudo. Não queria que fosse embora.

— Eu sei.

— Quer que eu o acompanhe até a carruagem?

— Não precisa, obrigado. E obrigado por tudo, pelos jantares… pelo queijo — sorriu — e pelas conversas… você deveria publicar aquele artigo, hein?

— Obrigada pelo incentivo. Mas acho que vou voltar às caçadas somente. Pensei muito, sobre tudo, desde ontem à noite.

— Tem certeza? Aquele artigo sobre os transmorfos é bem interessante, eu não tinha lido ainda.

— É? O que achou das conclusões? Achei que faltou um fechamento melhor.

— São muito bem fundamentadas. E concordo com você, há um erro ali, no final.

— Sobre remover o elo fundamental entre humano e demônio? — ela pareceu ficar mais animada.

— Bem, sobre isso, não sei. Mas sobre a sangria, ele definitivamente está errado. Eu li um relato de um transmorfo que foi queimado com sucesso após uma sangria completa. Está nas minhas referências, posso te mandar o artigo assim que chegar em casa. Não me lembro se o estudo era conclusivo, mas definitivamente merece ser estudado mais a fundo.

Ela ficou séria por um instante, e depois sorriu, um sorriso aberto, franco.

— Sério?

— Sim, pode esperar. E não importa o que aconteça, nunca deixe de estudar.

— Agora eu entendo a minha irmã. Você é uma pessoa fascinante. Sinto muita falta de ter alguém assim por aqui. E eu sinto muita falta dela.

Ela abaixou a cabeça e começou a chorar. Relutando, sem saber se devia fazer algo, Lionel ficou parado por alguns instantes. Mas ele não resistiu por muito tempo. Deu alguns passos, aproximando-se dela, e a abraçou, deixando que ela chorasse em seu peito. Passando a mão sobre seus cabelos lisos, ele podia sentir seu perfume doce e inebriante.

Ela levantou os olhos e o encarou. Estavam muito próximos, os lábios quase se tocando. Ela estava ofegante, e seus olhos devoravam cada centímetro do seu rosto. Lionel disse:

— Eu preciso ir embora, Diana…

— Por favor, fique mais um pouco…

— Não, eu…

Ela se afastou e o puxou pela mão, guiando-o até seu quarto. Sem lutar com muita força, ele se deixou levar, inebriado pela beleza dela. Assim que entraram, ela fechou a porta e foi até um dos lados da cama. Começou a desabotoar a camisa, sem tirar os olhos dele. Tirou-a primeiro. Em seguida desabotoou as calças e as abaixou. Subiu na cama e ficou de joelhos, antes de tirar o resto da roupa e se deitar.

— Fique — ela disse.

Lionel estava paralisado, sem saber o que fazer. Sua razão o pedia educadamente para se retirar, mas seus instintos gritavam para que se juntasse a ela. Suas pernas venceram o dilema e o levaram até a cama. Ela deu um sorriso maravilhoso e o puxou para seu lado. Deitou-o na cama e subiu em cima dele. Desabotoou sua camisa e a retirou delicadamente. Passando as mãos pelo seu peito, ela se aproximou de seu ouvido e sussurrou:

— Obrigada por ficar.

— De nada. — Ele sorriu.

— Espere aqui um pouquinho, eu já volto.

— O que vai fazer?

Ela não respondeu. Apenas sorriu e se levantou, deixando-o deitado na cama. Ela foi até o banheiro, mexendo os quadris sinuosamente e olhando para trás de vez em quando. Ele sorriu e colocou as mãos atrás da cabeça. Assim que ela desapareceu, ele ficou pensativo. Não era certo o que estava fazendo. Ela o desejava, disso não havia dúvidas, então ele estava apenas atendendo ao seu desejo. Mas ele não tinha intenções de ficar com ela. A não ser que ela se mudasse para a capital, como tinha sugerido Cristina. Isso poderia funcionar. Mas pensaria nisso depois.

Virou-se para o lado e viu, no pequeno móvel que ficava ao lado da cabeceira da cama dela, um porta-retratos abaixado. Pegou-o nas mãos e admirou a jovem que sorria para ele. Anabela. Era tão bonita quanto Diana. Os cabelos eram diferentes. Anabela tinha os cabelos negros e meio enrolados, bem diferentes dos cabelos lisos e brancos da irmã. O namoro não durou muito, mas eles tinham sido muito felizes juntos. Passavam horas conversando e observando o céu. Ela estudava astronomia, e ele também achava o estudo dos astros muito interessante. Tinham combinado até de observar o eclipse lunar, mas o relacionamento terminou antes disso.

Olhando o porta-retratos com mais atenção, ele reparou que havia um papel por trás da foto. Olhou para o banheiro, e vendo que Diana ainda não tinha retornado, abriu-o e retirou o papel de seu lugar. Era um recorte de jornal, uma foto muito parecida com a do porta-retratos.

— Ela é linda, não é? — disse Diana ao surgir na porta.

— Bem, não acho apropriado falar dela agora. Só estava bisbilhotando.

Diana sorriu e caminhou de volta para a cama, subindo de novo em cima dele. Ela retirou o porta-retratos de sua mão e o recolocou no móvel ao lado. Ele a segurou pela cintura e começou a acariciá-la, passando a mão em suas coxas. Ela abaixou o rosto novamente e sussurrou em seu ouvido:

— Tem razão, não vamos falar dela.

— O que você foi fazer no banheiro?

— Que curioso! O que se faz no banheiro, oras!

— E por que tem um recorte de jornal no porta-retratos da sua irmã?

Ela afastou o rosto e o olhou bem de perto. Sorrindo, ela disse:

— Você é muito curioso. É por isso que é um bom cientista.

— Obrigado.

— Feche os olhos.

Lionel obedeceu, apreciando enquanto ela acariciava seus cabelos. Ele apalpava e apertava cada centímetro de sua pele macia, e quase não percebeu quando uma agulha penetrou em seu pescoço. Colocou a mão o mais rápido que pôde, mas ela já tinha retirado a seringa.

— O que…

Enquanto ele sentia a consciência fugindo, Diana o encarava com seu rosto sério, observando-o de cima, aos poucos desaparecendo entre as nuvens que lhe embaçavam a visão.

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— Prenda direito!

— Está bem preso.

— Deixe-me ver.

Lionel acordou com a última frase. Tinha sido dita por Diana. Ao abrir os olhos, viu-a puxando as cordas que prendiam seus pulsos com firmeza.

— Coloque mais uma, acho que não vai aguentar.

— Diana… — Lionel murmurou, com dificuldade para abrir a boca.

Ela olhou para ele, mas rapidamente desviou os olhos e virou-se de costas.

— O que estão fazendo comigo?

— Não falem com ele! — Era Nestor. — É melhor assim.

Olhou ao redor, tentando entender onde estava. Estava escuro, mas reconheceu as grades de metal retorcido e os bancos de pedra quebrados. Era o centro da praça. Uma grande trave de madeira tinha sido presa entre dois postes de metal. Suas mãos estavam firmemente amarradas na trave, e dois caçadores estavam reforçando os nós em seus pulsos, conforme tinha sugerido Diana. Embaixo dele, havia uma pequena pirâmide feita com galhos secos e palha. Um rato morto em decomposição exalava um cheiro terrível, e suas entranhas derretidas escorriam sobre a madeira.

— Oh, Deus! — Lionel exclamou. — O que pensam que estão fazendo?

Ninguém respondeu. Lionel tentava se desvencilhar, mas não conseguia. Tentou chutar a pirâmide, mas percebeu que seus pés também estavam presos.

— E a gasolina, Nestor? Não estão com pressa hoje, seus desgraçados? Eu não sou nenhum monstro para ser queimado!

Nestor se aproximou. Ergueu o rosto e apontou seu único olho para Lionel. Disse:

— O pior monstro é aquele que não acha que é um monstro.

— Monstros são vocês! Eu não fiz nada!

Diana apareceu ao lado de Nestor. Olhando nos olhos de Lionel, disse:

— Sei que você não é um monstro, Lionel. Mas daqui a pouco ele vai tomar conta do seu corpo.

— O que está dizendo? Eu…

— Me desculpe por isso.

— O que…

Ela pegou uma faca do cinto e cortou um de seus pulsos, produzindo uma dor imensa. Lionel gritou. Sem poder se mexer, ficou acompanhando enquanto ela caminhava até o seu outro braço e fazia o mesmo com seu outro pulso.

— Sua desgraçada, maluca! — Lionel gritava e chorava de dor.

— É suficiente, Diana? — perguntou Nestor — Não é melhor abrir mais um corte?

— Vamos esperar para ver — ela respondeu.

— Esperar o quê? — Lionel perguntou.

— A sangria terminar — ela respondeu secamente.

Lionel fechou os olhos, fazendo força para não desmaiar. Sentia o sangue escorrendo pelos braços em grande quantidade. Em breve perderia a consciência.

— Diana! — Lionel suplicou. — Por que está fazendo isso?

Ela tinha virado de costas e estava dando ordens aos outros caçadores, pedindo para que trouxessem mais lenha.

— Diana!

Ela se virou para ele, com a cabeça baixa, e disse:

— Há uma quarta hipótese, que você sequer considerou. E que eu não fiz questão de compartilhar, é claro.

— Hipótese? Do que está falando?

— Nunca acreditei de fato na história do psicopata transmorfo. Você tinha razão, é muito improvável. E eu sempre soube que os transmorfos não compartilham a consciência com o demônio no qual se transformam. Você não sabe que se transforma em um monstro. Se soubesse, se lembraria dela.

— Dela? Quem?

— Anabela.

— Ora, é claro que eu me lembro dela.

— Mas você acha que ela terminou com você, não acha?

— Sim, porque foi o que aconteceu.

— Não, você a matou. Arrancou seu rosto com os próprios dentes e garras. Mas não se lembra, pois não era você, era o demônio.

— Não, não pode ser. Eu… eu me lembraria!

— E a sua terceira hipótese? A de que eu quis atraí-lo aqui e seduzi-lo para me vingar da minha irmã? — ela sorriu com desdém — Bem, a primeira parte é verdade, eu tentei seduzi-lo. Mas eu não esperava que você soubesse que Anabela era minha irmã. Achei que se descobrisse, você iria embora e meu plano falharia. Por sorte, você decidiu ficar.

Lionel estava sentindo um formigamento tomar conta de todo seu corpo. Diana continuou, agora olhando para ele:

— A hipótese mais provável, pois é a verdade, é a seguinte: um transmorfo causou aquelas mortes. Mas não havia premeditação. Elas eram simplesmente as namoradas dele. Suas namoradas, Lionel. Você se sente atraído por mulheres inteligentes, e elas tiveram o azar de estar junto a você no momento da sua transformação.

— Mas, mas… eu me lembraria…

— Sim, por isso eu recortei as fotos das notícias do jornal, para que você não as reconhecesse.

— Eu não as matei! N-não…

— Sei que não, Lionel. Você não é um monstro. — Ela se aproximou e colocou a mão em seu pulso delicadamente. — Mas você as levou para observar o eclipse. Sempre gostou de astronomia. E aí ele as matou. E ele está chegando novamente, o eclipse está próximo. Sabe que não podemos deixá-lo atacar mais ninguém. — Em seguida puxou a pele dele violentamente, abrindo a ferida e apressando a saída do sangue.

— E vai me matar assim?

— Sangria e fogo-fátuo. Era a chave final do quebra-cabeça, a única coisa que eu não sabia, e que você finalmente confirmou, agora há pouco. Primeiro capture a mente, depois a presa.

— Não, não! Não acredito! E-eu… — Sentiu seus olhos se fechando.

— Vai desmaiar — alguém disse.

— Não, não vai, olhem! — Era Nestor.

Lionel abriu os olhos e olhou para cima. Entre as poucas nuvens que flutuavam no céu, viu a Lua começando a ficar vermelha. Olhou para seu braço e viu, no mesmo tempo em que sentiu, pelos grossos brotando em sua pele.

— O-o q-que está acontecendo comigo?

— Está se transformando.

— A sensação de desfalecimento de antes começou a ceder, à medida que seu braço aumentava de tamanho e mais pelos surgiam. Eram pelos dourados, que brilhavam à luz das lamparinas da praça.

— Acendam o fogo! Agora! — gritou Diana.

Lionel ouviu um estampido quando o gás da carcaça abaixo de si, que estava acumulado dentro da pirâmide de galhos, explodiu ante a faísca produzida por um dos caçadores. As chamas acenderam e logo assumiram uma cor roxa, indicando que o procedimento tinha sido muito bem feito. O fogo-fátuo rapidamente subiria alto em direção ao céu.

O corpo de Lionel não parava de mudar. Seu tórax também começou a se encher de pelos, e sua visão começou a se alterar. Passou a enxergar tudo de uma maneira muito mais nítida e brilhante. Viu as expressões preocupadas dos homens à sua frente, com os olhos arregalados e a boca aberta. Ignácio parecia aterrorizado. Nestor, preocupado. E viu também o rosto de Diana. Ela o olhava com um misto de pena e ódio. Uma lágrima escorria em sua bochecha. Ele podia vê-la brilhando claramente contra a pele branca.

Neste momento, sua pele começou a queimar e a brilhar. Sentindo muita dor, Lionel soltou um urro bestial. Parecia com o rugido de um urso ou um tigre, ou ambos, misturados. Uma incandescente luz violeta tomou conta de sua visão, indicando que a queima estava funcionando. Em breve ele se transformaria em um monte de carvão. Deu uma última olhada para os homens à sua frente. Eles pareciam respirar aliviados. Olhou para Diana. Ela ainda chorava. Lembrou-se de seus últimos momentos com ela. Nua, na cama com ele, deixava-se agarrar deliberadamente, seduzindo-o apenas para poder matá-lo depois. Sentiu um ódio imenso. Apertou os olhos e sentiu suas pupilas se dilatarem, e ela se tornou o centro de suas atenções. Ela se transformou em sua presa, e nada mais importava exceto dilacerar seu rosto.

Mas ele não tinha forças para soltar os pulsos e as pernas. Estavam bem amarrados, e não havia sangue em seu corpo. Fechando os olhos, soltou mais um urro, mas nenhum som se produziu. Ele já estava no plano etéreo que separava aquele mundo de seu destino final. Faltava pouco tempo para cruzar esse limiar.

De repente, sentiu seu coração pulsando dentro do peito. De algum lugar, sangue novo brotava em suas veias, e o coração o levava até a sua pele, apagando a sua incandescência e devolvendo a coloração dourada dos pelos. Aos poucos, sua força ia voltando. Olhou para sua mão direita, e viu que as cordas que a prendiam estavam queimando. O mesmo acontecia com a mão esquerda. Sorrindo com sua boca demoníaca, esperou alguns segundos, até que sua pele estivesse completamente restaurada. Flexionando os poderosos músculos, arrebentou o resto das cordas que prendiam uma de suas mãos.

— O que está acontecendo?

— E-eu não sei… — Era Diana. Sua voz estava carregada de medo e desespero. Lionel apreciou isso.

Fazendo um pouco mais de força, Lionel soltou sua outra mão. Imediatamente, os homens à sua frente começaram a cutucá-lo com bastões e forcados. Mas sua pele era muito grossa. Protegida por magia. Sentia o metal penetrando, mas não sentia nem um pingo de dor. Ainda sorrindo, ele soltou seus dois pés e saltou para fora da fogueira. Sabendo que agora ele poderia ser ouvido, decidiu aterrorizar aqueles humanos. Soltou um urro forte que estremeceu o chão sob seus pés. Os homens caíram ajoelhados ou sentados no chão.

Apoiando-se em suas mãos e pés, assumiu uma posição mais confortável. Era um quadrúpede. Mesmo nessa posição, precisava olhar para baixo para encarar aquelas criaturas franzinas à sua frente. Respirando fundo, procurou por sua presa. Achou-a poucos passos à sua frente. A vadia maldita que tinha enganado-o iria sofrer primeiro.

Ele se aproximou e saboreou o cheiro de medo que exalava dela. Quando estava quase a ponto de tocá-la com sua garra, o humano chamado Nestor saltou à sua frente e disparou com uma pistola diretamente em direção ao seu olho. Não teve nenhum efeito, exceto o de um cisco carregado pelo vento. Rasgando o ar com sua poderosa garra, arremessou-o para o lado. Ele caiu a poucos metros dali, e Diana saiu correndo em seu auxílio. Ela gritou, desesperada, em uma voz que penetrou fundo nos ouvidos sensíveis de Lionel:

— Pai! Pai, você está bem?

“Pai?” — o humano dentro de si estava falando algo. Essa palavra evocou algumas lembranças. O demônio não tinha pai, mas o humano sim. Tinha uma família, assim como Diana. Assim como Anabela.

O humano pensava em Anabela agora. Ela o olhava da mesma forma que Diana o fazia agora. Não acreditava que ele tinha se transformado naquilo. Estavam felizes há poucos minutos atrás, mas agora Lionel devorava seu rosto. Lembrou-se das outras, também. Camila. Joaquina. Inês. Todas elas haviam sido mortas por ele. “Não vou deixá-lo matar novamente!” — o humano pensou.

— Não! — Lionel gritou, e Diana o ouviu. O humano percebeu a deixa, e gritou:

— D-Diana! E-eu estou aqui! — Sua voz era demoníaca. Ele nunca tinha ouvido sua voz demoníaca antes.

— L-Lionel? — Ela o encarou, com os olhos arregalados.

— O eclipse ainda está c-começando! — Era difícil falar. Era difícil segurar os músculos da feroz criatura, mas ele tentou mesmo assim.

— Lionel! O que está acontecendo? A sangria não funcionou! — ela gritou.

— O elo! O elo entre humano e demônio! Ele repõe o sangue!

— O quê? Não estou entendendo!

— Meu coração! — Lionel gritou. — Meu coração ainda é humano! Ele repõe o sangue, você precisa… p-precisa removê-lo!

Diana fez uma expressão que demonstrava que tinha compreendido. Levantando-se, ela empunhou sua faca e ficou esperando por um momento.

— Agora! — disse Lionel. — Eu ainda estou aqui e não vou reagir! Rápido, Diana, não vou aguentar muito!

Lionel abriu os braços e concentrou toda sua energia para mantê-los assim. Sentiu uma leve pontada no peito e ouviu o gemido de Diana enquanto ela fazia força para cortar através da pele grossa. Permaneceu assim até que sentiu sua força diminuindo. Olhou para baixo e viu Diana segurando seu coração ensanguentado nas mãos. Soltando um urro grave, relaxou os músculos e deixou-se cair no chão, produzindo um pequeno tremor de terra. Sentiu o sangue saindo pelo buraco aberto, e a força se esvaindo cada vez mais rápido.

— Rápido, joguem-no na fogueira! — Ouviu Nestor gritando.

Sentiu muitas mãos puxando-o pelo chão da praça. Ele era muito pesado, mas logo estava envolto pelas chamas novamente. Levantou o rosto e olhou uma última vez para Diana. Ela ainda segurava seu coração na mão, e era abraçada por Nestor. Respirando aliviado, Lionel sentiu quando sua pele voltava a brilhar na cor violeta. Estava acabando. Ele morreria em breve, e nenhuma pessoa mais seria vítima do demônio que roubava seu corpo nas noites de eclipse.

Ainda olhava para os caçadores à sua frente. Sua visão antes aguçada agora estava ficando embaçada. Mas ele pôde ver quando os caçadores tiraram seus chapéus e fizeram uma reverência. Nestor falou:

— Você honrou seu juramento… caçador.

Diana chorava, enquanto era consolada pelo pai. Ignácio sorria, aliviado.

Lionel fechou os olhos, e a última coisa que ouviu antes de desaparecer foi:

— Vamos, caçadores! A noite ainda não terminou!

FIM

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